RJ em Foco
No interior do Rio, duas cidades ficam nos extremos do mapa político
Rio das Flores deu mais de 63% dos votos a Lula (PT) no segundo turno; em São José do Vale do Rio Preto, Flávio Bolsonaro (PL) conquistou 75% do eleitorado
Ambas compartilham a exuberância da Mata Atlântica e são cortadas pelo Rio Preto; contudo, algo mais forte as separa. As duas cidades do interior fluminense apresentaram os resultados eleitorais mais contrastantes do estado. Uma delas, Rio das Flores, no Vale do Café, registrou a maior votação proporcional em Lula (PT) no segundo turno, com 63,7%. Já em São José do Vale do Rio Preto, na Região Serrana, Flávio Bolsonaro (PL) conquistou 75% dos votos válidos, o maior percentual obtido pelo candidato entre os municípios fluminenses. Os números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) evidenciam diferentes identidades políticas. Especialistas associam essas escolhas a fatores como desenvolvimento econômico, escolaridade, influência religiosa e percepção sobre os benefícios sociais — seja pela adesão, seja pela rejeição.
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Sossego pré-campanha
Até o início do segundo semestre, nada atrapalhava o sossego de Rio das Flores. A pacata cidade fluminense, com 8.954 habitantes — número menor que a população do bairro da Glória (9.661), na Zona Sul do Rio — não registra uma morte por crimes intencionais há três anos, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). É uma localidade com organização urbana, arborização, áreas de lazer, limpeza e forte vínculo comunitário. Além disso, é uma das poucas cidades do estado onde cresceu o número de católicos — atualmente, eles representam 62% da população, contra uma reduzida proporção de evangélicos: 22%. No município vizinho de Valença, que atrai trabalhadores e estudantes universitários, tudo também seguia em paz, até que a polarização política dividiu moradores e parte da classe de empresários e políticos no segundo semestre deste ano.
Numa campanha ferrenha capitaneada por lideranças fortes do PL, entre elas o senador Carlos Portinho, ruelas foram tomadas por carreatas com símbolos como um trator e um cavalo branco com a bandeira do Brasil. Representantes das câmaras estaduais e federais também arregimentaram simpatizantes da direita. Contudo, na cidade em que a votação para presidente havia rendido 57% dos votos para o PT no primeiro turno, moradores rejeitaram as manifestações e a desaprovação começou a respingar no prefeito. A insatisfação se intensificou depois que ele rompeu o apoio a Eduardo Paes e passou a integrar o grupo político de Douglas Ruas.
Apoio de cidades vizinhas
A farmacêutica aposentada Tereza Cristina Machado, de 67 anos, moradora de Rio das Flores há quatro décadas, conta que, entre o primeiro e o segundo turno, grupos de professores, estudantes e apoiadores de cidades vizinhas passaram a compor as manifestações da esquerda na cidade.
— Houve uma briga que parecia uma demonstração de poder: quem estava com um ia votar no Lula, quem estava com o outro, ia votar no Flávio. A cidade sempre teve dois lados, mas isso ficou muito acentuado nas eleições para vereador e prefeito. Desta vez, houve algo que eu nunca tinha visto: uma eleição para presidente dividiu a população — relata a mineira. — Até os jovens que não votam se engajaram em manifestações; foram criados grupos virtuais com centenas de pessoas. Não existe PT e nem PSOL na cidade, mas vieram pessoas de Valença apoiar.
A reportagem tentou contato com Rodrigo Cibalena, chefe do Executivo municipal, via assessoria do MDB e pelo gabinete de Rio das Flores, mas não obteve retorno. A última postagem na rede social do político, em apoio ao PL, teve os comentários trancados.
Mayra Goulart, doutora em Ciência Política pelo Iesp/Uerj e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ, assinala que prefeitos do interior têm sido, de longa data, pragmáticos.
— A proximidade com o governo estadual é muito favorável a um prefeito. No Rio, temos uma realidade em que o PL é muito forte e condicionou os movimentos. O partido já detinha um quarto das cadeiras do Legislativo estadual, e grande parte do federal. Após o primeiro turno, essa percepção ficou mais nítida: com o pensamento voltado a quem está no poder, ficou claro que o melhor era seguir Douglas Ruas — explica a especialista.
Em Rio das Flores, uma profissional de saúde de 38 anos menciona que a escassez de vacinas durante a pandemia ficou na memória de parte dos habitantes. O boca a boca, reforçado pelas relações de confiança entre vizinhos, intensificou a rejeição ao filho de Jair Bolsonaro, presidente na época da Covid-19.
— Tinha mês em que Rio das Flores recebia apenas cinco doses de vacinas. Foi muito difícil. As pessoas aqui não esquecem isso — desabafa.
Em São José do Vale do Rio Preto, onde Flávio Bolsonaro teve 75% dos votos no segundo turno, Eguinaldo Silva, dono de um supermercado adornado com bandeiras do Brasil e camisas da seleção de futebol, não viu seu candidato eleito, mas comemorou as vendas:
— Essas bandeiras e camisas eram da Copa de 2022. Durante as eleições, tirei do estoque e vendi bastante — relata o empresário, que participou de carreatas pelo número 22.
As manifestações na cidade governada por Zé Carlos do Mariano (MDB), que também apoiou Flávio, aconteceram por ruas do antigo distrito de Petrópolis que, apesar de ter nome de santo católico, é agora o segundo maior município em número de evangélicos no Estado do Rio, com 47,1% da população, segundo o Censo de 2022. A fé mobiliza encontros presenciais, correntes virtuais e valores que impactam decisões de voto.
O conservadorismo local se reflete nas expectativas em relação aos papéis de cada membro da família, na oposição a pautas progressistas e no filtro cultural. O operário da construção civil Rodnei Dias, de 40 anos, resistiu a dar entrevista para O GLOBO, mas acabou concordando. Pai de quatro filhos e frequentador da Igreja do Evangelho Quadrangular, afirma ter votado na direita na eleição presidencial por conta das pautas de costumes e por propostas de redução de impostos.
— Aqui eu sou o provedor da família e voto no conservadorismo. A gente que tem filho pequeno tenta transmitir a eles que o certo é certo e o errado é errado — comenta Rodnei.
A professora e pesquisadora Mayra Goulart explica que, apesar de grupos religiosos pentecostais terem atualmente a hegemonia no apoio a valores da direita, nem sempre os fiéis seguem cegamente as orientações das lideranças.
— As igrejas não necessariamente provocam adesão cega dos fiéis aos votos do pastor. Elas são, antes de tudo, centros de sociabilidade e também se organizam digitalmente, circulando informações políticas, opiniões que podem convergir ou divergir. Neste momento, percebemos uma predominância de conteúdos de direita nesses ambientes digitais, mas isso não significa que, caso a esquerda se aproxime desses espaços, não possa haver uma reversão — defende.
Políticas sociais pesam
A especialista ainda explica que, segundo pesquisas, a preservação dos benefícios de políticas sociais pode mobilizar mais eleitores progressistas. Em agosto de 2026, 1.197 famílias de São José do Vale do Rio Preto receberam o Bolsa Família, com uma média de R$ 681,69 por família. Isso representa 53 famílias para cada mil habitantes, abaixo da média do Rio de Janeiro (80). A realidade em Rio das Flores é diferente, onde proporcionalmente mais famílias acessam o benefício: 107 por mil habitantes, acima da média do estado.
— Aposentados, sejam por invalidez ou por tempo de serviço, jovens que ainda não têm atuação profissional e a população economicamente não ativa são proxies (indicadores indiretos) de voto no Lula — afirma Mayra Goulart.
Em escolas públicas de São José, onde a evasão no ensino médio cresce, o orientador educacional Anselmo Teixeira, de 40 anos, está atento a como pode ajudar os alunos a manter o senso crítico, consumir informações e pensar em seus futuros.
— Converso sobre identificar as fontes, desconfiar dos discursos. Muitos jovens repetem o que veem em grupos de WhatsApp sem checar.
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