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No interior do Rio, duas cidades ficam nos extremos do mapa político

Rio das Flores deu mais de 63% dos votos a Lula (PT) no segundo turno; em São José do Vale do Rio Preto, Flávio Bolsonaro (PL) conquistou 75% do eleitorado

Agência O Globo - 01/11/2026
No interior do Rio, duas cidades ficam nos extremos do mapa político
No interior do Rio, duas cidades ficam nos extremos do mapa político - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Ambas compartilham a exuberância da Mata Atlântica e são cortadas pelo Rio Preto, porém, algo mais forte as separa. As duas cidades do interior fluminense tiveram os resultados eleitorais mais contrastantes do estado. Uma delas, Rio das Flores, no Vale do Café, registrou a maior votação proporcional em Lula (PT) no segundo turno: 63,7%. Já em São José do Vale do Rio Preto, na Região Serrana, Flávio Bolsonaro (PL) conquistou 75% dos votos válidos, o maior percentual obtido pelo candidato entre os municípios fluminenses. Os números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) traduzem diferentes identidades políticas. Especialistas associam essas escolhas a fatores como desenvolvimento econômico, escolaridade, influência religiosa e percepção sobre os benefícios sociais — seja pela adesão, seja pela rejeição.

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Sossego pré-campanha

Até o início do segundo semestre, nada atrapalhava o sossego de Rio das Flores. A pacata cidade fluminense com 8.954 habitantes, número menor que a população do bairro da Glória (9.661), na Zona Sul do Rio, há três anos não registra uma morte por crimes intencionais, segundo o Instituto de Segurança Púbica (ISP). É uma localidade com organização urbana, arborização, áreas de lazer, limpeza e forte vínculo comunitário. E uma das poucas cidades do estado onde cresceu o número de católicos — atualmente eles são 62% da população, contra uma reduzida proporção de evangélicos: 22%. No município vizinho de Valença, que atrai trabalhadores e estudantes universitários, tudo também seguia em paz, até que a polarização política dividiu moradores e parte da classe de empresários e políticos no segundo semestre deste ano.

Numa campanha ferrenha capitaneada por lideranças fortes do PL, entre elas o senador Carlos Portinho, ruelas foram tomadas por carreatas que tinham até um trator e um cavalo branco com a bandeira do Brasil como símbolos. Representantes das câmaras estaduais e federais também arregimentaram simpatizantes da direita. Mas na cidade em que a votação para presidente tinha rendido 57% dos votos para o PT no primeiro turno, moradores rejeitaram manifestações e a desaprovação começou a respingar no prefeito. A insatisfação se intensificou depois que ele rompeu o apoio a Eduardo Paes e passou a integrar o grupo político de Douglas Ruas.

Apoio de cidades vizinhas

A farmacêutica aposentada Tereza Cristina Machado, de 67 anos, moradora de Rio das Flores há quatro décadas, conta que, entre o primeiro e o segundo turno, grupos de professores, estudantes e apoiadores de cidades vizinhas passaram a compor as manifestações da esquerda na cidade.

— Houve uma briga que parecia a de mostrar poderio: quem estava com um ia votar no Lula, quem estava com o outro, ia votar no Flávio. A cidade sempre teve dois lados, mas isso era muito acentuado nas eleições para vereador e prefeito. Desta vez, houve algo que eu nunca tinha visto: uma eleição para presidente dividiu a população — conta a mineira. — Até os jovens que não votam se engajaram em manifestações, foram criados grupos virtuais com centenas de pessoas. Não existe PT e nem PSOL na cidade, mas vieram pessoas de Valença apoiar.

A reportagem tentou contato com Rodrigo Cibalena, chefe do Executivo municipal, via assessoria do MDB e via gabinete de Rio das Flores, e não obteve retorno. A última postagem da rede social do político, apoiando o PL, teve os comentários trancados.

Mayra Goulart, doutora em Ciência Política pelo Iesp/Uerj e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ, assinala que prefeitos do interior têm sido, de longa data, pragmáticos.

— A proximidade com o governo estadual é muito favorável a um prefeito. A gente tem no Rio uma realidade em que o PL é muito forte e condicionou os movimentos. O partido já tinha um quarto das cadeiras do Legislativo estadual, e grande parte do federal. Quando acabou o primeiro turno, ficou mais nítido para muitos, com esse pensamento voltado a quem está no poder, que o melhor era seguir o Douglas Ruas — diz a especialista.

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Em Rio das Flores, uma profissional de saúde de 38 anos conta que a escassez de vacinas na pandemia ficou na memória de parte dos habitantes. O boca a boca, reforçado pelas relações de confiança que os vizinhos têm, fortaleceu a rejeição ao filho de Jair Bolsonaro, presidente na época da Covid-19.

— Tinha mês que Rio das Flores só recebia cinco doses de vacina. Foi muito difícil. As pessoas aqui não esquecem isso — diz.

Em São José do Vale do Rio Preto, onde Flávio Bolsonaro teve 75% dos votos no segundo turno, Eguinaldo Silva, dono de um supermercado ornamentado com bandeiras do Brasil e camisas da seleção de futebol, não teve seu candidato eleito, mas comemorou as vendas:

— Essas bandeiras e camisas eram da Copa de 2022. Nas eleições, tirei do estoque e vendi bastante — disse o empresário, que participou de carreatas pelo 22.

As manifestações na cidade governada por Zé Carlos do Mariano (MDB), que também apoiou Flávio, aconteceram por ruas do antigo distrito de Petrópolis que, apesar de ter nome de santo católico, é agora o segundo maior município em número de evangélicos no Estado do Rio: são 47,1% da população, de acordo com o Censo de 2022. A fé mobiliza encontros presenciais, correntes virtuais e valores que impactam decisões de voto.

O conservadorismo local aparece no modo como são vistos os papéis de cada membro da família, na oposição a pautas progressistas e no filtro cultural. O operário da construção civil Rodnei Dias, de 40 anos, resistiu a dar entrevista para O GLOBO, mas seguiu. Pai de quatro filhos e frequentador da Igreja do Evangelho Quadrangular, diz ter votado na direita na eleição presidencial pelas pautas de costumes e por propostas de redução de impostos.

— Aqui eu sou o provedor da família e voto no conservadorismo. A gente que tem filho pequeno tenta passar o conhecimento para eles de que o certo é o certo e o errado é o errado — diz Rodnei.

A professora e pesquisadora Mayra Goulart lembra que, apesar de grupos religiosos pentecostais terem, atualmente, hegemonia no apoio a valores da direita, nem sempre os fiéis se orientam pelo que dizem as lideranças.

— As igrejas não necessariamente provocam adesão cega dos fiéis aos votos do pastor. Elas são antes de tudo centros de sociabilidade e também se organizam digitalmente: nos grupos circulam informações políticas, opiniões que convergem ou divergem. Nesse momento, claro, percebemos mais conteúdos de direita do que de esquerda nesses ambientes digitais, mas isso não significa que, caso a esquerda se aproxime desses espaços, não possa haver reversão — defende.

Políticas sociais pesam

A especialista explica ainda que, segundo pesquisas, a preservação dos benefícios de políticas sociais pode mobilizar mais eleitores progressistas. Em agosto de 2026, 1.197 famílias de São José do Vale do Rio Preto receberam o Bolsa Família, com média de R$ 681,69 por família. São 53 famílias para cada mil habitantes, abaixo da média do Rio de Janeiro (80). A realidade é diferente em Rio das Flores, onde proporcionalmente mais famílias acessam o benefício: 107 por mil habitantes, acima da média do Rio.

— Aposentados, seja por invalidez, seja por tempo de serviço, jovens que ainda não têm atuação profissional e a população economicamente não ativa são proxy (indicadores indiretos) de voto no Lula — diz Mayra Goulart.

Em escolas públicas de São José, onde a evasão no ensino médio cresce, o orientador educacional Anselmo Teixeira, de 40 anos, fica atento a como pode ajudar os alunos a manter o senso crítico, consumir informações e pensar em seus futuros.

— Converso sobre identificar as fontes, desconfiar dos discursos. Muitos jovens repetem o que veem em grupos de WhatsApp sem checar.