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Cedae inicia obras da nova estação de água do Guandu; investimento é de R$ 2,1 bilhões
Sistema Novo Guandu terá seis reservatórios com 55 milhões de litros de capacidade total.
No dia 28 de outubro de 2014, o então governador Luiz Fernando Pezão anunciou a implantação do que foi chamado de “Complexo do Guandu 2”. O objetivo era levar água a toda a Baixada Fluminense em até dois anos. No entanto, as obras demoraram mais do que o previsto. Apenas esta semana, 12 anos depois daquela cerimônia, começou a ser montado o canteiro de obras da Estação de Tratamento de Água (ETA) Novo Guandu, que será o coração de um sistema que, quando concluído — com previsão para abril de 2030 —, promete disponibilizar 7,5 mil litros de água tratada por segundo para três milhões de pessoas em cidades da Baixada e bairros da Zona Oeste da capital.
‘Obra silenciosa’
O Sistema Novo Guandu — que, além da ETA, será composto por seis reservatórios com capacidade total de 55 milhões de litros, estações elevatórias e quase seis quilômetros de redes de adutoras e tubulações — custará R$ 2,1 bilhões. Deste total, R$ 1,35 bilhão será destinado à construção da nova estação de tratamento, cuja produção inicial prevista representa 17,6% da vazão disponibilizada atualmente pela antiga ETA do Guandu, que remonta à década de 1950. Juntas, as duas estações produzirão 50 mil litros por segundo.
— É uma obra silenciosa, que não aparece muito, mas é fundamental para as próximas décadas quando falamos em segurança hídrica da Região Metropolitana do Rio. Sem essa intervenção, provavelmente teríamos problemas significativos em relação ao abastecimento de água no futuro próximo — afirma Rafael Rolim, presidente da Cedae, empresa do governo do estado responsável pela obra.
A nova ETA ocupará um terreno no bairro Jardim Guandu, em Nova Iguaçu, a cerca de três quilômetros em linha reta da antiga estação, que exibe em seu portão de entrada a inscrição de “maior estação de tratamento de água do mundo” ao lado do logotipo do Guinness World Records. Essa proximidade facilita a integração das duas plantas, o que permitirá, em caso de necessidade, o intercâmbio das produções.
— Será possível remanejar a água produzida na nova estação para o sistema antigo, pois está projetado para isso. Existe o intercâmbio nos dois reservatórios — explica Humberto de Mello Filho, diretor técnico e de projetos da companhia.
O diretor acrescenta que a água produzida pela nova estação será direcionada para a Baixada, beneficiando, assim, a Zona Oeste:
— Da produção atual (da antiga estação do Guandu), uma parte é destinada para a Baixada. Quando a produção do Novo Guandu entrar em operação, poderemos remanejar essa água para o sistema inteiro, mas principalmente para a Zona Oeste do Rio, que é a região com o maior problema de abastecimento atualmente. O crescimento naquela área, impulsionado pelo programa Minha Casa, Minha Vida, não foi previsto em qualquer planejamento.
O financiamento para a obra do novo sistema é oriundo da Caixa Econômica Federal, contratada pela Cedae em 2016. As regras de financiamento estabelecem uma carência de cinco anos para os gastos realizados e um prazo de 20 anos para o pagamento.
— Essa é uma obra que transcende gestões, é uma obra de Estado. Por isso, é um marco de segurança hídrica — ressalta Rafael Rolim.
Fé na continuidade
O presidente da Cedae ainda não teve contato com a equipe de transição do governador eleito Douglas Ruas, mas acredita que não haverá problemas quanto à continuidade das obras.
— Essa é uma obra reconhecida, pois faz parte do Sistema Novo Guandu. Os reservatórios, por exemplo, já estão em construção. Portanto, é algo conhecido pela classe política. Tenho certeza de que o próximo governador receberá uma Cedae economicamente viável, com governança e capacidade de investimento — afirma Rolim, que é procurador do Estado do Rio e assumiu a companhia em abril deste ano.
Programada para iniciar a operação com 7,5 mil litros por segundo, a ETA Novo Guandu foi projetada para, futuramente, alcançar uma produção total de 24 mil litros por segundo. A água que passará pelos tanques da estação será captada por meio de um novo canal no Rio Guandu.
Considerado estratégico para o abastecimento, o Reservatório Novo Marapicu já apresenta 70% de suas obras concluídas e é a parte mais visível do complexo. A previsão é que fique pronto em 2028, mas só entrará em operação com a conclusão da ETA Novo Guandu. Dois dos seis tanques — que juntos armazenarão 55 milhões de litros de água potável — já têm suas paredes concluídas.
A obra iniciada esta semana pela Cedae será realizada pelo consórcio Nova Guandu, com sede em São Gonçalo, liderado pela Heca Construtora Ltda. Também fazem parte do consórcio a Consbem Construções e Comércio Ltda, a DP Barros Pavimentação e Construção Ltda e a Enfil S/A Controle Ambiental.
A construção da nova estação de tratamento na Baixada Fluminense é vista como um passo crucial para ampliar a capacidade de abastecimento da Região Metropolitana do Rio. No entanto, não resolve o problema sozinha. Essa avaliação é feita pelo professor Otto Corrêa Rotunno Filho, do Programa de Engenharia Civil da Coppe/UFRJ, que enfatiza a necessidade de investimentos complementares em distribuição e redução de perdas.
— É sempre prudente avaliar o custo da obra e as alternativas. A nova estação é importante, sem dúvida, mas esse investimento por si só não é suficiente para aumentar a capacidade. É preciso verificar como as perdas durante a distribuição impactam todo o sistema — alerta Rotunno.
Polêmica na licitação
O professor também menciona que parte da vulnerabilidade no abastecimento do Rio está relacionada ao dependente do sistema Guandu em relação à bacia do Rio Paraíba do Sul. A água que abastece o Guandu é resultado de uma transposição de águas do Paraíba do Sul, cuja bacia se estende por cerca de 55 mil quilômetros quadrados, abrangendo São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
— Essa dependência se apresenta como um verdadeiro problema para a nossa segurança hídrica. Caso ocorra algum desastre ou se contaminantes entrarem na água do Paraíba do Sul, não poderemos realizar a transposição. É uma situação crítica — explica.
Iniciado em outubro de 2024, o processo de licitação da ETA Novo Guandu foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) em julho do ano passado, após questionamentos de uma empresa participante sobre a falta de transparência. O episódio gerou críticas contundentes do então governador Cláudio Castro. Em ato público, ele chegou a chamar a decisão do conselheiro do tribunal de “sacanagem”. Castro afirmou que “o povo tem que começar a se levantar contra esse tipo de gente”. A declaração foi reprovada pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon).
Ainda que os trabalhos no canteiro já tenham começado, a Cedae planeja realizar uma cerimônia de lançamento da pedra fundamental da obra no início de dezembro.
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