RJ em Foco
Polo Cervejeiro é inaugurado na Rua da Carioca com sete fábricas artesanais; veja onde ficam
Parte do conjunto de ações para revitalização do Centro, Polo Cervejeiro do Rio reúne fábricas na via histórica
O traçado original da Rua da Carioca remonta a fins do século XVI, quando era chamada de Caminho do Egito — referência a um oratório com a imagem da Sagrada Família em fuga que, acredita-se, havia por lá. Mais tarde, ganhou a alcunha de Rua do Piolho e, em 1848, foi finalmente batizada com o nome do velho curso d’água que designa os que nascem na cidade. Ontem, a via ganhou, oficialmente, um novo apelido. Continua Carioca, mas podem chamar também de Rua da Cerveja.
O epíteto etílico deriva de projeto iniciado pela prefeitura há três anos com o objetivo de recalibrar o pedaço que há tempos havia entrado em decadência com movimento em queda e lojas fechadas. O projeto — inicialmente chamado de Reviver Rua da Carioca, a exemplo de outras iniciativas de revitalização com foco no Centro — concedeu incentivos para que empreendedores ocupassem os imóveis ociosos do pedaço. Desde então, sete cervejarias artesanais se instalaram ao longo dos cerca de 300 metros da rua. Em conta de botequim, já dá para dizer que há uma a cada 42 metros, em média. Ou seja, é possível completar o circuito sem perder o rumo (isso, claro, prezando, sempre, pela moderação na hora de beber).
O brinde de inauguração do que, agora, está sendo chamado de Primeiro Polo Cervejeiro do Rio, aconteceu ontem à noite. Para marcar a data, a Carioca será fechada ao tráfego durante a Semana de Arte do Rio. O bloqueio vale das 18h às 3h nos dias de semana. Nos fins de semana, a via ficará à disposição do público — com ou sem copo na mão — das 18h de sexta-feira às 3h de segunda-feira.
Há um ano e meio, o empresário Allan Finamor Pimentel desembarcou com o seu Pub Martelo Pagão no conjunto formado pelos imóveis nos números 74 e 76 da rua, na ponta mais próxima à Praça Tiradentes. Deu trabalho, ele diz, mas a julgar pelo movimento frenético no almoço de ontem, a experiência deu certo. Logo na entrada é possível ver os quatro grandes fermentadores em inox da Cervejaria Piedade — oriunda do bairro de mesmo nome, na Zona Norte —, sua parceira na empreitada. Reformado, o espaço ganhou decoração medieval, fruto do interesse de Allan pelo universo dos jogos de RPG.
— A sensação é que estamos ganhando esse jogo — conta ele, fazendo graça — Desde que chegamos aqui, posso dizer que o movimento multiplicou por dez. A rua está mais segura, as pessoas voltaram a passar. É histórica, o casario é lindo. Já há quem reconheça como Rua da Cerveja e a tendência, acredito, é que isso se amplie.
Os fermentadores à mostra não são por acaso. O edital do programa prevê que as cervejas devem ser fabricadas no local. Quem aderiu recebeu ajuda de R$ 200 mil para reformar o imóvel e mais R$ 15 mil mensais para despesas gerais por 30 meses, num investimento total do município na casa de R$ 8,1 milhões.
— A revitalização da Rua da Carioca representa o Centro que o Rio quer, com patrimônio preservado, ruas vivas, novos negócios e gente ocupando a cidade. Recuperamos um espaço histórico e devolvemos vida a uma das regiões mais importantes do Rio. O Polo Cervejeiro é a prova de que é possível preservar a história, gerar emprego, atrair investimento e estimular as pessoas a voltarem a viver o Centro — disse o prefeito Eduardo Cavaliere.
A inauguração de ontem aconteceu debaixo de chuva fina. Nada capaz de colocar água no chope. Nas calçadas — bem mais largas depois das obras que reduziram a área de circulação de veículos de três para duas faixas, dando mais espaço aos pedestres —, sorrisos e bandejas carregadas de... chope, claro.
— Desde o início, a gente achou a ideia muito boa. Estamos no Centro Histórico do Rio, que é um lugar que deveria ser muito mais valorizado do que é. Em qualquer lugar da Europa, por exemplo, as pessoas vão procurar o Centro Histórico das cidades. Esse projeto é uma oportunidade para atrair mais gente, cariocas e turistas, para conhecer. Vamos servir cervejas e comidas boas, mas tudo estará conectado com a história deste prédio onde estamos e da região — diz Sérgio Fonchaz, sócio-fundador da cervejaria Sundog.
A marca — cuja fabricação será feita no segundo andar do sobrado no número 19 da Rua da Carioca — é o carro-chefe do restaurante Horda. A casa, em processo final de montagem, abriu ontem especialmente para o evento de inauguração oficial da Rua da Cerveja. O apreço demonstrado por Sérgio pelo caráter histórico que cerca a região da Carioca, aliás, reflete a própria essência da Sundog. O foco é justamente na produção de cervejas históricas. Na carta, há desde uma trilogia viking com os rótulos Edda (uma steam beer) e Sahti (uma strong ale), até o resgate de uma receita com origem no Alto Xingu, a Awari.
— Significa bebida feita por mulher. É uma cerveja que era feita de mandioca brava. A gente adaptou para a mandioca que a gente usa no dia a dia. A receita foi desenvolvida em parceria com o Senai e com o setor de Antropologia da UFRJ — revela o cervejeiro.
Bem ao lado do Horda/Sundog fica o restaurante Cotovelo, que reúne as cervejarias Tio Ruy e Búzios. Por lá, a Costela à Zicartola — referência ao lendário bar de Dona Zica e Cartola, que marcou época logo ali mais à frente, na mesma calçada — faz sucesso acompanhada de rótulos especiais da casa como a Geribá Munich Helles. Na sequência, a Arkan Beer, com seu simpático macaco de chapéu no logotipo, apresenta cervejas como a Dry Stout com Cacau. A Vírus Bier — com sua Philomena IPA — e a Cervejaria Candanga — que serve a Guise, uma “biere de garde” bem forte, com teor alcoólico de 15% — completam a lista. Pelo menos por enquanto.
Para Aline Ferreira, sommelier e juíza internacional de cerveja, a chegada da “nova rua” merece ser celebrada:
— A gente passa a olhar para a cerveja como um elemento turístico, como uma experiência que promove e fomenta o turismo cervejeiro. Esse é um ponto. Vai ser um espaço onde a gente consegue ter acesso às cervejas que são feitas ali. São todos brewpubs, onde tem a fábrica e o bar da cervejaria. Então você tem essa proximidade, a cerveja feita ali, sai fresca, não tem coisa melhor do que tomar cerveja fresca direto da fábrica e de qualidade altíssima.
E quem, sobriamente, há de dizer que não?
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