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Quem usou agulhas compartilhadas em colégio no Recreio terá saúde acompanhada pelo menos por 90 dias

As mais de 20 pessoas que fizeram teste de glicose com as mesmas lancetas devem passar por análise para avaliar a necessidade de receberem profilaxia pós-exposição contra Aids, hepatites B e C e sífilis

Agência O Globo - 15/09/2026
Quem usou agulhas compartilhadas em colégio no Recreio terá saúde acompanhada pelo menos por 90 dias
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Ao menos 23 pessoas estão vulneráveis a infecções após uma estudante levar à feira de ciências do Colégio-Curso Tamandaré testes de glicose e aplicá-los em frequentadores do evento com três lancetas utilizadas no exame. O caso aconteceu no último sábado, em uma unidade da instituição localizada no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio. Com base em normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde, é recomendado que quem foi perfurado no episódio procure, em até 72h, unidades de saúde para avaliar a necessidade de entrar no protocolo de Profilaxia Pós-Exposição (PEP). Tendo esta orientação em vista, O GLOBO consultou materiais do órgão e ouviu Tânia Vergara, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), para entender como o tratamento funciona em contextos como o do incidente ocorrido no centro de educação.

Segundo o Ministério da Saúde, a PEP ao HIV, às hepatites virais (B e C) e à sífilis, doenças às quais as pessoas testadas estão sujeitas, consiste no uso de medicamentos para reduzir as chances de adquirir essas infecções após potencial exposição de risco.

Ainda de acordo com a pasta, em casos envolvendo acidentes com fonte desconhecida, como o das agulhas compartilhadas no colégio, a decisão sobre instituir a PEP deve ser analisada individualmente. Para a tomada de decisão, é necessário considerar a gravidade da exposição e a probabilidade clínica e epidemiológica de uma das pessoas do grupo apresentar infecções, tais como prevalência local de vírus ou presença de manifestações clínicas sugestivas às enfermidades.

De toda forma, os expostos às doenças listadas devem procurar atendimento para avaliar a necessidade de aplicação da profilaxia em até 72h, tempo limite para que o desenvolvimento de uma potencial infecção seja impedido. Após o prazo, é possível apenas manter acompanhamento médico para observar se alguma enfermidade surgirá e iniciar o seu tratamento caso haja manifestação.

A médica infectologista Tânia Vergara considera que, antes de verificar a elegibilidade do exposto à PEP, é preciso fazer o teste de soropositividade para conferir se o acidentado está negativo para HIV. Se o resultado for "não-reagente" e a pessoa avaliada for elegível, um conjunto de medicações, que varia por faixa etária, deverá ser tomado por 28 dias.

— Normalmente, um indivíduo é a pessoa-fonte, ou seja, a primeira onde a lanceta foi usada. Se esta pessoa-fonte tiver teste não reator para HIV e não houve exposição de risco nos últimos 30 dias, não está indicada a PEP para quem foi exposto. Essa avaliação precisa ser individualizada, porque pode haver situações nas quais o teste aplicado seja um negativo durante o período de janela imunológica. Entretanto, no caso do colégio, a mesma lanceta foi reutilizada para pessoas diferentes mais de uma vez. Sendo assim, cada pessoa na qual foi utilizada passa a ser considerada paciente fonte — diz Tânia.

A médica observa também que, caso os acidentados sejam crianças, o risco de contágio por HIV é menor, porque a prevalência de infecção pelo vírus na infância é muito menor que na fase adulta. No incidente do Tamandaré, não foi divulgado o número de crianças e adultos testados; há apenas relatos indicando que, pelo menos, um dos atingidos é adulto.

Para a profissional da saúde, a tomada de decisão do médico que examinará o indivíduo vulnerável deve considerar a gravidade da exposição e a probabilidade clínica e epidemiológica de a pessoa-fonte apresentar infecção pelo HIV, tais como prevalência local do vírus ou presença de manifestações clínicas sugestivas de aids.

— A decisão pela prescrição da PEP não deve ser retardada pela ausência da pessoa-fonte no momento do acolhimento. Os demais critérios anteriormente descritos devem ser considerados caso o resultado da testagem para HIV da pessoa-fonte seja desconhecido. Neste caso, como, ao que parece, não sabem quem é a fonte, o mais acertado, a meu ver, é fazer PEP para todos os possíveis acidentados — afirma a infectologista.

O risco de aquisição de hepatite B é ainda mais baixo do que as chances de uma pessoa envolvida no incidente contrair HIV. Tânia considera que, se a pessoa exposta tem vacinação completa e comprovação de imunidade, nenhuma medida específica é necessária. A vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS desde o nascimento da criança até a idade adulta, sem restrição de idade para a primeira vacinação, caso não a tenha recebido na infância.

— É provável que todas as crianças expostas estejam imunizadas. Teoricamente, os adultos também deveriam estar vacinados, mas muitos não se preocupam com prevenção, infelizmente. Se não for possível saber o status imunológico do acidentado, se não foi vacinado e/ou não tem anticorpo contra o HIV, há necessidade de aplicação da vacina contra a hepatite B, idealmente nas primeiras 24 horas após o acidente — constata a vice-presidente da SBI.

De acordo com a infectologista, não há PEP indicada para hepatite C, mas é importante fazer o teste de todos e acompanhar com exames periódicos para poder ser tratado se houver viragem sorológica.

Já em observação à possibilidade de a sífilis ser disseminada após o episódio, Tânia considera que a transmissão da doença por objetos pérfuro-cortantes é rara, mas não é inexistente. Sendo assim, a equipe médica que atender a pessoa exposta deverá avaliar a necessidade de antibioticoterapia preventiva.

— É lastimável que tenha ocorrido este incidente, mas ter sido rapidamente identificado e terem sido tomadas as medidas preventivas necessárias traz uma tranquilidade, já que o risco de adquirir doenças pode ser muito minimizado ou até abolido com a prevenção adequada. Este caso é muito complicado e, para evitar mais problemas futuros, todas as pessoas envolvidas devem ser testadas para HIV, hepatites B e C e sífilis antes da PEP e devem ser acompanhadas por, pelo menos, 90 dias, com exames realizados antes da medicação, 4 a 6 semanas após as perfurações na escola e 12 semanas depois do incidente — conclui Vergara.