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Interior do Rio tem cidades com mais motos que a média do Nordeste; em São José de Ubá, elas já são 52% da frota

Em quatro municípios fluminenses, motos e motonetas representam praticamente metade ou mais dos veículos registrados;

Agência O Globo - 14/09/2026
Interior do Rio tem cidades com mais motos que a média do Nordeste; em São José de Ubá, elas já são 52% da frota
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A imagem de ruas tomadas por motocicletas, comum em cidades do Nordeste, encontra um paralelo a mais de mil quilômetros dali, no interior do Rio. Em São José de Ubá, no Noroeste Fluminense, motos e motonetas já representam 51,7% de todos os veículos registrados. O percentual não apenas é o maior entre os 92 municípios do estado como supera a média de toda a Região Nordeste, onde as duas rodas respondem por 45,5% da frota.

São José de Ubá não é uma exceção isolada. Em Aperibé, motos e motonetas são 50,8% dos veículos; em Cambuci, 49,8%; e, em Bom Jesus do Itabapoana, 49,3%. Oito das dez cidades fluminenses com maior participação das duas rodas estão no Norte e no Noroeste. Para efeito de comparação, a média do Estado do Rio é de apenas 20,6%.

Os dados municipais são do Anuário Estatístico do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RJ). Já a comparação nacional considera a base mais recente da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), de julho. O mesmo recorte — motocicletas e motonetas, sem ciclomotores — mostra que os maiores índices estaduais do país estão no Maranhão (59,5%), Pará (55,9%) e Piauí (55,3%).

Por trás da concentração fluminense está uma realidade que O GLOBO encontrou ao percorrer municípios da região: onde ônibus são escassos e as distâncias entre comunidades rurais, lavouras e centros urbanos são grandes, a motocicleta deixou de ser apenas uma opção mais barata de transporte. Virou ferramenta de trabalho.

Em São José de Ubá, município de cerca de sete mil habitantes cuja economia gira em torno da agricultura e da pecuária, uma pequena ponte separa o centro urbano de Barro Branco, uma das principais áreas rurais. Depois de algumas curvas, seis motocicletas enfileiradas à beira da pista denunciam a rotina antes mesmo de se chegar à lavoura. Atrás de uma porteira de madeira adornada com um crânio de boi, um caminho de terra leva a uma plantação de tomates. Ali, todos os trabalhadores chegam sobre duas rodas, seja pilotando, seja na garupa.

A motocicleta serve para alcançar a lavoura, buscar ferramentas, transportar encomendas e reduzir o tempo entre casa e trabalho. No fim do expediente, ganha até outra função. Antes de fechar a porteira, o lavrador José Luiz do Prado, de 61 anos, percorre a propriedade de moto para conferir se nenhum companheiro ficou para trás.

— Quando era garoto, era na perna. Hoje, não tem mais jeito. Tem horas que tem trabalho, mas não tem gente para vir porque não tem condução. E o dono não consegue colocar transporte, diz que fica caro demais. Quem não tem moto ou uma carona não trabalha — conta.

Na mesma região, a transformação chegou também aos pastos. Cleide Fernandes, de 55 anos, e José Josimar Vieira, de 60, criam cerca de 60 cabeças de gado destinadas à produção de leite. A ordenha ainda é manual, e a produção mensal varia de 3,6 mil a 3,8 mil litros. No manejo dos animais, porém, uma tradição ficou para trás: a moto praticamente substituiu o cavalo.

— O cavalo acaba atrasando. Às vezes, ele está no morro, e a gente precisa ir buscar. Com a moto, não. É rapidinho, resolve tudo. Essa semana mesmo, usamos para levar as criações para vacinar. Eu na minha, ele na dele, e seguimos cercando os bichos. Fora que o combustível e a manutenção saem mais baratos, a longo prazo, do que criar um cavalo — explica Cleide.

A mesma moto usada no pasto leva Cleide ao outro emprego. Ela é secretária da Escola Municipal Antônio Curty, em Barro Branco, onde a proporção de veículos sobre duas rodas também chama atenção: dos 28 funcionários, mais de 20 chegam de moto. No turno da manhã, apenas uma professora não utiliza o veículo.

Para a diretora Adriana Alves, o cenário é consequência da distribuição da população pelo território e da necessidade de autonomia para quem trabalha longe dos centros urbanos.

— O interior é muito habitado. Por mais que os alunos sejam bem atendidos pelo transporte escolar municipal, os professores acabam optando pelas motos. Elas dão mais autonomia.

A conta se repete em Santo Antônio de Pádua. Iris Silva, de 24 anos, mora em Monte Alegre, distrito rural, e percorre 18 quilômetros até o trabalho no centro. Segundo ela, a localidade conta com um ônibus pela manhã e outro no fim do dia. De moto, afirma fazer o trajeto em aproximadamente 15 minutos, a qualquer hora; de ônibus, levava cerca do dobro.

O fenômeno é mais acentuado no Norte e no Noroeste, mas faz parte de uma transformação observada em todo o estado. Entre 2021 e 2025, o número de motocicletas cresceu 35,6% no Rio, segundo o Anuário do Detran-RJ. Apenas de 2024 para 2025, o avanço foi de 8,6%. Em quatro anos, a relação passou de 25 para 33 motos a cada cem carros licenciados.

Segundo o departamento, a expansão está relacionada ao crescimento dos serviços de entrega, à procura por um meio de deslocamento mais barato e à substituição parcial do transporte coletivo.

Em Itaperuna, maior cidade do Noroeste e com perfil mais urbano, motos e motonetas já representam 41,07% da frota — praticamente o dobro da média estadual. Nos sinais, fileiras de motocicletas se formam à frente dos carros. Nos estacionamentos, elas também ocupam boa parte das vagas. Ali, as duas rodas já não são apenas uma solução para estradas rurais ou comunidades distantes: tornaram-se parte da dinâmica urbana.

A demanda movimenta também o comércio. Alex Tostes vende motocicletas em Itaperuna desde 1999 e afirma que uma característica do mercado regional permanece:

— A maior saída é de boca, com preço negociado. O sujeito dá uma entrada e vai parcelando. É um negócio familiar.

Em São José de Ubá, uma tradicional concessionária abriu sua primeira franquia há dois meses. Desde então, a média tem sido de duas motocicletas vendidas por semana.

A popularização das motos tem outra face. Em Itaperuna, o Hospital São José do Avaí, referência regional em trauma, sente os efeitos do crescimento da frota. O ortopedista e traumatologista Gabriel Pillar afirma que acidentes envolvendo motociclistas sempre tiveram peso nos atendimentos, mas se tornaram mais frequentes nos últimos cinco anos, enquanto percebeu uma redução nas ocorrências com automóveis.

A unidade recebe pacientes de municípios de todo o Noroeste, principalmente em casos de fraturas e lesões mais complexas. Um trauma grave pode mobilizar ortopedia, cirurgia geral e neurocirurgia, além de exames, banco de sangue, internação e leitos de UTI. O hospital realiza cerca de 13 mil cirurgias por ano, aproximadamente duas mil delas ortopédicas.

No dia em que O GLOBO esteve na cidade, Pillar operou a fisioterapeuta Gizelia Lemos, de 45 anos. Motociclista desde os 17, ela usa o veículo para trabalhar e transportar o filho. A cerca de 200 metros de casa, foi atingida num cruzamento por um carro cujo motorista, segundo seu relato, não percebeu sua aproximação. Gizelia fraturou o fêmur e deverá passar pelo menos quatro semanas sem apoiar o pé no chão. A recuperação pode deixá-la seis meses afastada do trabalho.

— Gosto e preciso andar de moto, mas estou com receio. E faço de tudo para o meu filho não comprar uma — diz.

Para Pillar, o crescimento da motocicleta como alternativa de mobilidade torna ainda mais necessária a formação dos condutores.

— Isso impacta a rotatividade e as outras áreas que não são de trauma. O melhor acidente é aquele que não acontece, porque, além de onerar os cofres públicos, tira uma pessoa do mercado de trabalho. Estamos prontos para a guerra, mas preferíamos que não houvesse.