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Rio perdeu 165 mil moradores para outros estados em cinco anos: as histórias de quem chega e quem sai

Entre 2017 e 2022, Rio viu população migrar para outros estados; paulistas lideram chegadas, mas mineiros ainda são maioria entre os migrantes. Número de estrangeiros também diminui

Agência O Globo - 13/09/2026
Rio perdeu 165 mil moradores para outros estados em cinco anos: as histórias de quem chega e quem sai
Rio perdeu 165 mil moradores para outros estados em cinco anos: as histórias de quem chega e quem sai - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Amanda, Bárbara e Gabriel moram no Rio de Janeiro. Em São Paulo, estão Igor e Cássio. Motivados por trabalho ou estudo, os cinco cruzaram os limites de seus estados de nascimento e, hoje, estão longe de suas terras, sem arrependimento. Ao contrário: não cogitam voltar e já se sentem integrados aos lugares que escolheram para viver.

Réu por ligação com o CV:

Passo a passo:

— Toda a liderança da empresa do setor de seguros que trabalho tinha se mudado para São Paulo em 2023. Eu vinha “namorando” me mudar desde então. Só esperei terminar a faculdade, na UFRJ. Na época, passava os dias úteis no Rio e, nos fins de semana, ia para minha casa em Petrópolis — conta o petropolitano Igor Pereira, de 25 anos, que concluiu Economia na UFRJ e migrou no fim do ano passado: — Eu me adaptei rápido, do ponto de vista de profissional e pessoal.

Nesse vaivém da migração, o Estado do Rio perdeu moradores no período entre 2017 e 2022, de acordo com números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O demógrafo Marcio Misuo, do órgão, avalia que parte desse cenário pode ser associada a fatores econômicos.

— O contexto da segurança e do custo de vida também pode ter impacto — acrescenta Misuo.

Menos 16 mil estrangeiros

A perda foi de 165.360 moradores — maior redução absoluta do país, desconsiderando estrangeiros e aqueles sem especificação ou declaração de residência. Num período anterior analisado pelo IBGE, entre 2005 e 2010, o Rio tinha registrado um saldo migratório de 23.104 pessoas.

Quanto aos estrangeiros, a queda foi igualmente grande, na contramão do Brasil, onde passaram de 592 mil para mais de 1 milhão, de 2011 para 2022. No Rio, em iguais períodos, minguaram de 96.821 para 80.292, ou 16.529 a menos. Do total, mais de 30 mil são portugueses. Em seguida, estão argentinos (5.522) e italianos (3.465).

— As chegadas recentes dos imigrantes, sobretudo da América Latina (em especial da Venezuela), não tiveram o Rio como um dos principais destinos. E, como os imigrantes vindo da Europa foram fluxos de várias décadas atrás, a população dos imigrantes internacionais vivendo no Rio é envelhecida. Por isso, existe o efeito grande da mortalidade para explicar a redução desse contingente — diz Misuo.

Quem mais saiu do Rio, entre 2017 e 2022, foi para São Paulo (71 mil). De lá para cá, no que depender da família de Igor, o quantitativo continua engordando. O pai, que vivia entre Rio e São Paulo devido ao trabalho, optou por se instalar na capital paulista com a esposa em 2023. Um dos irmãos de Igor fez o mesmo há dois anos.

Aos 27 anos, Cássio Luan Rodrigues está em São Paulo desde novembro do ano passado. Nem chegou a concluir o curso de Empreendedorismo e Gestão na Universidade Estácio de Sá, no Rio, quando optou por tentar a vida no estado vizinho:

— Sou carioca raiz, morava no Recreio. Saí, e deu certo. Trabalho na área de marketing e fiz muita conexão em São Paulo, onde as coisas giram. Deu certo, o que não acontecia no Rio. Sinto falta da família, mas é preciso algum sacrifício.

A advogada paulistana Amanda Gonçalves, de 28 anos, fez o caminho inverso, e por acaso. Era meio de ano, e só tinha o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) aberto. Ela fez, obtendo nota para cursar Direito na UFRJ. Ao fim da pandemia de Covid-19, com a volta do ensino presencial, Amanda mudou-se para o Rio, em abril de 2022. Ela se formou no ano passado, já trabalha em um escritório e faz pós em Direito Tributário na Uerj.

— Minha pretensão era fazer faculdade e voltar, mas acabei gostando muito do Rio. Nunca tinha vindo ao Rio nem para visitar. Criei minha rede de apoio, meus amigos foram a minha família — afirma Amanda, que, há pouco mais de duas semanas, passou a dividir o apartamento do Bairro de Fátima com a mãe, Almerinda, aposentada e viúva, que decidiu morar com a filha.

Do Paraná e criada em Brasília, Bárbara Scorsin, de 31 anos, mora na capital fluminense há dez. O estado do Sul não está entre aqueles com mais migrantes no Rio: o ranking é encabeçado por Minas, Paraíba e Ceará. Mas Bárbara, que chegou para trabalhar num shopping, cursa faculdade de publicidade e marketing e não pensa em retornar.

— Tenho a cultura do carioca no coração. Minha ideia é continuar no Rio para o resto da vida. Claro, há o lado difícil, a questão da criminalidade, que foi algo difícil de me adaptar — explica Bárbara, que abriu caminho: há cerca de dois anos, sua mãe Ângela, o irmão, a cunhada e a filha do casal migraram também.

De Manaus e criado em Parintins, no interior do Amazonas, Gabriel Xavier, de 20 anos, está no Rio desde 2024 cursando Direito na UFRJ. Com o estímulo dos pais, ambos professores, foi bem classificado no Enem. Acostumado ao forte calor e à alta sensação térmica de seu estado, diz que sua maior dificuldade tem sido conviver com a temperatura, mesmo o Rio sendo quente.

— Quando faz 35 graus, está ameno. Nos dias normais, uso calça de moletom e casaco. Neste momento está um frio infernal — conta Gabriel, que mora em Del Castilho e compara a violência entre Manaus e Rio: — Lá tem muito mais assalto, mas aqui há mais chance de morrer de bala perdida, tem o confronto armado.

Desafio: reconstrução

Em meio a tantas idas e menos vindas, o professor Vitor de Pieri, do Departamento de Geografia Humana da Uerj, explica que o saldo negativo do Rio precisa ser compreendido em uma transformação mais ampla da geografia econômica brasileira:

— O Rio passou por um longo período de perda de dinamismo econômico relativo. A crise fiscal estadual, a redução dos investimentos, as dificuldades enfrentadas em determinados momentos pela cadeia de petróleo e gás, a retração da construção civil e os efeitos da crise econômica iniciada em meados da década passada atingiram fortemente o mercado de trabalho fluminense. Nesse contexto, os desdobramentos da Operação Lava Jato também produziram impactos importantes sobre grandes empresas e cadeias produtivas com forte presença no estado, especialmente nos setores de petróleo, engenharia e construção. Ao mesmo tempo, outras regiões ampliaram sua capacidade de atração. No caso específico de São Paulo, para onde se dirigiu um contingente expressivo de fluminenses, pesam a proximidade geográfica e a existência de um mercado de trabalho muito maior e mais diversificado.

Para Pieri, já se esperava que tal saldo negativo no Rio ocorresse, embora não com tamanha intensidade. "O que chama atenção, portanto, não é propriamente a existência da tendência, mas a sua magnitude" — destaca.

— O principal desafio é reconstruir a capacidade do Rio de atrair e, sobretudo, reter população, especialmente jovens e trabalhadores qualificados. Isso depende fundamentalmente da capacidade de gerar emprego, renda e perspectivas de futuro — propõe.