RJ em Foco
Bloco Boto Marinho desfila em Paquetá neste sábado mesmo após polêmica com moradores
Segundo fundador, cortejo atraiu cerca de 1,1 mil participantes nesta manhã
O bloco Boto Marinho desfilou neste sábado (12) na Ilha de Paquetá, na região central do Rio, mesmo após moradores pedirem o cancelamento do evento ao Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ). O cortejo começou pela manhã, por volta das 9h, em meio à discussão sobre a realização do cortejo e à falta de autorização apontada por órgãos públicos.
Entenda:
Barbárie:
Segundo o organizador Danilo Firmo, o bloco já realizou a tradicional homenagem a Dona Florise, considerada “musa do bloco”, moradora de Paquetá que morreu em 2024, dez dias antes de completar 100 anos. Ela costumava acompanhar o cortejo da varanda de casa e, segundo Firmo, recebia todos os anos uma homenagem dos foliões, que tocavam "Carinhoso" em frente à residência.
Segundo Danilo, o reconhecimento de Dona Florise pela Prefeitura refuta “acusações” de que o bloco seria clandestino:
— Na porta da casa dela tem uma placa colocada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro que diz que ela é a “musa do bloco Boto Marinho”. Ou seja: somos não oficiais, clandestinos, jamais. Porque, inclusive, temos uma placa colocada pelo poder público na porta da casa dela, que a reconhece oficialmente — afirmou Firmo.
A realização do desfile ocorre após moradores de Paquetá divulgarem um manifesto e acionarem o MPRJ contra o evento. Eles alegam que a concentração de foliões representa risco à ordem pública.
Apesar da mobilização dos moradores, às 6h30 já havia foliões na Praça XV se preparando para embarcar rumo à Ilha. Segundo Danilo, uma primeira barca com foliões partiu às 6h50, com cerca de 1,1 mil participantes.
— Não havia PMs tentando impedir a viagem, mas a barca saiu com atraso. Somos uma manifestação cultural, integramos os blocos não oficiais da cidade. Não precisamos de autorização — reforçou.
A Seop informou que agentes estão em Paquetá acompanhando a movimentação. A posição, por enquanto, é multar os organizadores pelo desfile. O valor da penalização não está definido, porque depende de uma avaliação do número de participantes e a distância percorrida.
— O maior problema não é o bloco, mas a quantidade absurda de ambulantes que chega do continente com muita antecedência. Eles acampam e dormem na praia, o que é proibido. O comércio local não é prestigiado — disse uma moradora.
Desde 2017
Fundado em 2017, o bloco realiza duas edições no verão, em dois domingos após o carnaval, e uma de inverno, no início de setembro. Os foliões partem da estação das barcas na Praça XV antes das 7h, e se concentram na Praça Pinto Pedro Bruno, já em Paquetá. Por volta das 9h, seguem em cortejo pela Praia da Moreninha, fazem o retorno na Praça São Roque e encerram no ponto inicial. A dispersão ocorre por volta das 18h.
A petição digital, publicada na plataforma change.org, conta com mais de 700 assinaturas. O texto pede o cancelamento imediato do desfile e a proibição de viagens extras de barcas para o evento. Os moradores destacam que, numa edição realizada em março, o bloco levou mais de 15 mil foliões para a ilha, causando "superlotação dos postos médicos, com overdoses e comas alcoólicos, invasão de propriedade por ambulantes e foliões, urina em massa nas ruas, falta crônica de banheiros e intimidação de comerciantes locais por parte dos organizadores".
'Evento clandestino'
Na quarta-feira, um morador protocolou uma queixa no MPRJ, classificando o evento como "clandestino" e pedindo a intervenção da promotoria para impedir sua realização. A representação alega que o bloco "não possui registro na Riotur, não apresenta plano de contingência aprovado pelo Corpo de Bombeiros (CBMERJ) e Polícia Militar (PMERJ)".
"Paquetá possui uma população fixa residente de apenas 3.612 moradores, sendo tecnicamente incapaz de absorver ou suportar o impacto estrutural, ambiental e civil de tamanho turismo de massa predatório", diz o texto.
A representação destaca ainda a qualidade de Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac) de Paquetá, o que exige a preservação da identidade local, como seu traçado urbano, as características arquitetônicas, a paisagem bucólica e o sossego público.
— Eu não sou contra bloco de carnaval, eu sou compositor de bloco de carnaval, vencedor inclusive. Fui da diretoria do Bloco de Segunda, no Humaitá. Eu sou contra, numa ilha com limites geográficos fechados, um evento que coloca 15 mil pessoas, quatro vezes mais o número de moradores. Pode ser bloco de carnaval, pode ser evento religioso, esportivo, pode ser qualquer coisa. Colocar essa quantidade de pessoas em Paquetá, um lugar conhecido por sua tranquilidade, bucolismo e presença maciça de idosos e crianças, é o caos. É estourar o ecossistema social do local. Colapsou a unidade de saúde básica — reclama o professor aposentado Ricardo Montenegro, de 68 anos, morador do bairro.
'Reclamação de uma minoria'
Procurado, o fundador do bloco, Danilo Firmo, diz não ter sido notificado sobre cancelamento por nenhum órgão. Ele defende que os moradores contrários ao bloco representam um setor minoritário do local "que quer criminalizar a cultura".
— O Boto Marinho faz parte do movimento de carnaval não oficial do Rio, como tantos outros blocos. Nosso objetivo é a ocupação de rua com a cultura popular, o que não quer dizer que não dialoguemos com o poder público; nossas conversas vão desde prefeitura ao Corpo de Bombeiros — afirma Danilo. — Uma minoria de moradores critica a gente desde o nosso primeiro dia, quando chegamos lá com mil foliões. São pessoas conservadoras, preconceituosas e contrárias à cultura. São as mesmas que atacam a democracia. Querem fazer de Paquetá um condomínio privado, quando é um lugar público.
Danilo nega que tenha havido superlotação do posto de saúde da edição de março e intimidação de comerciantes locais. Admite, por outro lado, a falta de banheiros químicos. Diz também que o problema de urina na rua não é exclusivo do Boto Marinho e o bloco faz campanhas para conscientizar os foliões.
— Uma ambulância do Corpo de Bombeiros, que tem UTI, fica em Paquetá no dia do Boto Marinho, para, na hipótese de alguma emergência, não sobrecarregar o posto de saúde — diz. — Há dois anos, tivemos um problema com os ambulantes do bloco, que foram para lá uma semana antes, gerando reclamação dos moradores. Depois disso, passamos a organizá-los melhor, com uma lista com todos os seus dados, de CPF a telefone, enviada a todos os órgãos. Neste sábado, teremos 63, sendo a maioria, 80%, de mulheres que vão tirar seu sustendo do bloco. Eles alugam os espaços que ocupam, gerando renda para a população local.
O que dizem os órgãos competentes
A Polícia Militar informou que a organização do evento não entrou em contato com a corporação para solicitar autorizações necessárias à realização de qualquer festividade na Ilha de Paquetá, na data mencionada. "Dessa forma, não há qualquer autorização ou liberação concedida pela Secretaria de Estado de Polícia Militar", diz.
A Secretaria Municipal de Ordem Pública disse que atuaria para impedir a realização do evento. A Riotur esclarece que, até o momento, não consta no sistema de Cadastro Prévio de Eventos (CPE) pedido de autorização para a realização do bloco Boto Marinho na data em questão.
O Corpo de Bombeiros afirmou que, até o momento, não há processo em tramitação na corporação referente ao evento. "Portanto, não há liberação do CBMERJ para a realização do evento", ressaltou.
Numa primeira nota, enviada na quinta-feira, a Secretaria de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) havia dito que o planejamento da operação do sistema de barcas foi realizado para atender a demanda extraordinária, a partir da previsão informada pelos organizadores do evento. Para este sábado, dizia o órgão, os organizadores informaram um público estimado em 7 mil pessoas. Por essa razão, estão sendo disponibilizadas dez viagens extras em ambos os sentidos.
"Em março, quando a expectativa era superior a 14 mil passageiros, foram oferecidas 21 viagens extras. Na ocasião, foram registrados aproximadamente 20.759 embarques em ambos os sentidos ao longo da operação", destacou a pasta.
Um dia depois, a Setram voltou atrás, informando que não haverá qualquer planejamento ou operação diferenciada para a ocasião.
"A decisão ocorre em razão de o evento não ser reconhecido oficialmente nem contar com autorização dos órgãos de segurança e demais órgãos municipais e estaduais competentes. Dessa forma, a secretaria não realizará esquema especial de transporte para atender à programação".
Também questionado sobre as medidas a serem adotadas diante das reclamações, o MPRJ ainda não respondeu.
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