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Luz, câmera, revitalização: Rio ganha programa voltado para a recuperação de cinemas de rua tradicionais

Iniciativa da prefeitura prevê incentivos para reabrir salas históricas e transformar a dinâmica cultural do Centro e de outros bairros

Agência O Globo - 10/09/2026
Luz, câmera, revitalização: Rio ganha programa voltado para a recuperação de cinemas de rua tradicionais
Luz, câmera, revitalização: Rio ganha programa voltado para a recuperação de cinemas de rua tradicionais - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Já fazia calor em Bangu no dia 15 de março de 1963. Naquela data, o bairro da Zona Oeste ganhou o moderno Cine Matilde, instalado na galeria de mesmo nome na Avenida Ministro Ary Franco. O espaço tinha 1.360 poltronas estofadas, tela oval, projetada para assegurar boa visibilidade de diferentes pontos da plateia, e um potente sistema de refrigeração central. Idealizador da sala de exibição, o comerciante Antônio Gama da Silva a batizou com o nome de sua mulher. Porém, a rede elétrica local não estava preparada para tanta novidade.

— Como não dava vazão, o jeito foi usar ventiladores e entupir os tubos de ventilação com gelo para ajudar a refrigerar a sala. Depois disso, foi necessário pedir aumento da carga elétrica da rua — conta Leonardo Gama, de 48 anos, relembrando a história repassada pelo avô, fundador do cinema.

O imóvel do Matilde, que marcou época na Zona Oeste e está desativado desde os anos 1990, será desapropriado e transformado em um novo espaço cultural.

Programa de incentivo

A proposta para Bangu faz parte de um novo programa do município: o Reviver Cinema. Em instalações próprias ou em parcerias com a iniciativa privada, o projeto propõe investimentos para que o cinéfilo possa ter outras opções além das múltiplas salas de exibição hoje onipresentes nos shoppings.

A prefeitura estabeleceu três etapas. A primeira incorpora equipamentos já existentes. Inaugurado em 2009, o Cinema Nova Brasília, no Complexo do Alemão, reabre este mês, com tela de resolução 4K, após uma reforma que custou R$ 580 mil. No fim do ano, o Cine Santa, que funciona em um imóvel municipal, inaugura uma segunda sala no andar superior. Já o Grupo Estação reabre em novembro o endereço onde nasceu, na Rua Voluntários da Pátria 88, e está recebendo investimento de R$ 1,5 milhão — parte da contrapartida para o aporte virá através da distribuição de ingressos a professores e formação de plateia entre os estudantes da rede pública.

O município faz mistério, mas promete, além disso, anunciar a reabertura imediata de uma tradicional sala de exibição durante a 1ª Semana de Arte do Rio, que acontece entre os próximos dias 16 e 27. No caso do Matilde, já está definido que a nova versão terá um teatro para 250 pessoas, duas salas de cinema, área para exposições e espaço de convivência com bar e restaurante no rooftop.

Além do Matilde, o Cine Vaz Lobo e o Cine Costinha — no Cachambi —, em processo de desapropriação pelo município, fazem parte da segunda etapa. Os custos de reforma ainda estão sendo levantados, mas a ideia é iniciar as obras no ano que vem.

— A reabertura desses espaços ajudará na revitalização e na retomada da vida cultural dos bairros e isso vai além de reabrir salas de projeção. Adotamos um conceito multiúso em que esses imóveis passarão a funcionar como centros culturais — explica o secretário de Cultura, Lucas Padilha.

A terceira etapa consiste no mapeamento, feito pela RioFilme, empresa da prefeitura, de outros espaços onde funcionaram cinemas que poderiam ser desapropriados e convertidos em equipamentos multiúso. O anúncio do programa traz esperança para quem tem saudade dos tempos áureos dos cinema de rua, marcos urbanos que sucumbiram à concorrência de salas construídas no conforto e na segurança dos shoppings.

Historiador e pesquisador, André Pereira é adepto dessa “sessão nostalgia”. Com um grupo de amigos, ele integra o Movimento Cine Vaz Lobo – Preservação, Cultura e Memória (MCVL), que acompanha a trajetória do antigo cinema e chegou a elaborar um projeto de restauração encaminhado à prefeitura.

— Com arquitetura única e singular, foi o principal cinema da região, com cerca de 2 mil lugares. A reabertura é de grande importância para todos — afirma Pereira.

Fechado há décadas, o prédio, pela proposta da prefeitura, será transformado em equipamento cultural com cinema, teatro e espaços voltados a atividades culturais e comunitárias. As expectativas também são grandes em relação a uma nova utilização cultural do antigo Cine Cachambi. Desativado há quarenta anos, o endereço, na rua que leva o nome do bairro, ainda guarda em ruínas sua sala de exibição, dividindo espaço com um prédio residencial que tem um hortifruti no térreo.

Também em Niterói

A reativação de um histórico cinema de rua está acontecendo também em Niterói. Lá, a prefeitura local investe R$ 61,6 milhões na restauração do antigo Cine Icaraí. O imóvel, patrimônio histórico tombado e referência da arquitetura art déco na cidade, renascerá em abril do ano que vem como Cine Concerto Sérgio Mendes, complexo de cultura, entretenimento, lazer e gastronomia.

A nova versão do cinema construído na década de 1940 vai abrigar também restaurante e áreas de convivência com vista para a Baía de Guanabara. A restauração da fachada representa uma das etapas mais aguardadas da obra: devolve ao imóvel sua identidade arquitetônica original, integrando preservação do patrimônio histórico e arquitetura contemporânea.