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Cinema Iris sobrevive a transformações e se adapta às novas mudanças da Rua da Carioca

Parceria com cervejaria é uma das possibilidades para o espaço que existe há mais de um século, desde a era do cinema mudo.

Agência O Globo - 10/09/2026
Cinema Iris sobrevive a transformações e se adapta às novas mudanças da Rua da Carioca
Luz, câmera, revitalização: Rio ganha programa voltado para a recuperação de cinemas de rua tradicionais - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Do filme mudo ao pornô, o Cinema Iris está aberto desde 1909 na Rua da Carioca, no Centro, sem nunca ter fechado as portas. Ao contrário da maioria dos cinemas de rua da cidade, que não resistiram à chegada dos shoppings a partir da década de 1980, devido à escalada da violência, o Iris se manteve firme. Antes disso, a concorrência com a popularização da TV e, mais tarde, a chegada do VHS já haviam provocado uma mudança na programação, que transitou de faroeste até chegar aos filmes adultos, com direito a apresentações de strip-tease ao vivo nos intervalos.

Invasão no Centro:

Refit: contaminação de terreno na Av. Brasil cercado de favelas pode dificultar o uso do espaço, no centro de um escândalo político.

Com o projeto em andamento pela Prefeitura para transformar a Carioca em Rua da Cerveja, o espaço se prepara para uma nova mudança de público. Sem as apresentações de strip-tease, os filmes para adultos (um eufemismo para pornografia) continuam preenchendo os horários das 10h às 19h, em sessões contínuas que atraem, em sua maioria, uma plateia LGBTQIA+. As visitas guiadas, por enquanto gratuitas, já constituem uma nova tentativa em outra direção. Para entrar no clima dos novos tempos, nem mesmo a possível parceria com uma cervejaria é descartada.

—A ideia é mudar o perfil do cinema, com espaço para venda de cerveja, abertura para visitação com tour guiado, exibição de filmes de época e até mesmo realização de eventos — planeja Marcelo Argileu, bisneto do fundador João Cruz Júnior e atual gestor do espaço, argumentando que tudo seria mais fácil se contasse com apoio da prefeitura.

Caso Cláudio Rafael:

A prima de Marcelo e filha de Neyde Brilho Cruz, de 94 anos, que administrou o cinema do final dos anos 1990 até cerca de dez anos atrás, Teresa Cristina Repsold Paixão diz que o cinema sobrevive porque sua família é tinhosa, a ponto de recusar uma proposta de compra pela Igreja Universal do Reino de Deus, em 2009. Bem antes disso, em 1997, a disputa foi com a Igreja Católica.

Incomodada com a exibição de filmes e shows pornográficos, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, dona do terreno onde foi erguido o cinema, tentou desalojar o Iris. Chegou a mover uma ação de despejo, alegando que a atividade comercial havia sido desvirtuada, mas perdeu em todas as instâncias. Aproveitando-se de uma dificuldade financeira da instituição religiosa, a família Cruz fez uma proposta e arrematou o espaço.

Da praia à montanha:

O cinema foi projetado pelo engenheiro Paulo de Frontin e teve outros dois nomes. Até 1911, chamou-se Soberano, nome de um dos cavalos de João Cruz Júnior. Em 1912, durante um curto período que esteve arrendado ao Grupo Severiano Ribeiro, foi rebatizado de Vitória, até ser rebatizado de Iris, nome pelo qual é conhecido até hoje. Em 2015, já de volta à família Cruz, firmou uma parceria com a Universal Filmes para exibição em primeira mão no Brasil dos lançamentos do estúdio norte-americano.

Na época do cinema mudo, as exibições eram acompanhadas por orquestra ao vivo. Depois, com as operetas, passou a atrair um público da alta sociedade carioca. Desde então, com a decadência das salas de rua, o Iris — tombado desde 1978 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) — fez de tudo um pouco para sobreviver. Já abrigou desde concertos do pianista Arthur Moreira Lima a bailes de carnaval, passando por shows de Gonzaguinha e Los Hermanos a festas moderninhas.

Tesoureira do tráfico:

—O cinema já se readaptou a tantas transformações, que é natural que alguma coisa aconteça agora para adequar ao público alvo da Rua da Cerveja. Estamos preparando para receber qualquer tipo de evento, de shows a happy hour. Com certeza as mudanças projetadas para a Rua da Carioca trarão boas novidades também para o Iris. Nos empenhamos para que sua história fosse preservada e chegasse até aqui — afirma Teresa Cristina.