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Dinheiro do jogo do bicho foi usado para credenciar bet na Loterj, diz MP; entenda
De acordo com a investigação, Vinicius Pereira Drumond e Flávio da Silva Santos usaram dinheiro de origem ilícita para pagar à Loterj, do governo do estado, a outorga de R$ 5 milhões
Uma operação do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos do Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (CyberGaeco), do Ministério Público do Rio, mirou uma bet supostamente criada por dois suspeitos de ligação com a nova cúpula do jogo do bicho. De acordo com a investigação, Vinicius Pereira Drumond e Flávio da Silva Santos usaram dinheiro de origem ilícita para pagar à Loterj, do governo do estado, a outorga de R$ 5 milhões, valor que permitiu a abertura da Rio Jogos, empresa de apostas esportivas on-line.
Quinto do Ouro:
Super Alvinho:
Vinicius é filho do falecido bicheiro Luizinho Drumond, e Flávio, presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, está em prisão domiciliar. Ele é acusado de ser o braço-direito do contraventor Rogério de Andrade. A dupla e outras seis pessoas foram denunciadas por ocultar e dissimular a origem de R$ 5,196 milhões. O Ministério Público sustenta que todo o valor pago para credenciar a bet junto à Loterj é dinheiro do jogo do bicho, embora tenha conseguido rastrear detalhadamente apenas R$ 500 mil. O pagamento à autarquia ocorreu em 6 de maio de 2024.
Palácio Capanema:
Vinicius e Flávio tiveram as prisões preventivas solicitadas em 13 de julho à Justiça, que ainda não decidiu. Nesta quarta, agentes da Coordenadoria de Segurança e Inteligência do MPRJ cumpriram sete mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos denunciados. Foram apreendidos dinheiro, celulares, computadores e documentos.
Empresas de fachada:
Segundo a denúncia, a Rio Jogos foi criada pela aliança de Vinicius e Flávio, uma vez que a dupla teria interesse na exploração do mercado de apostas. Os nomes deles surgiram em um desdobramento da Operação Calígula, realizada em 2022 pelo MPRJ contra uma rede de jogos de azar mantida por Rogério de Andrade e Ronnie Lessa, condenado pela morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Em material apreendido na época, Vinicius e Flávio aparecem em diálogos com terceiros mostrando interesse no registro da Rio Jogos na Loterj.
A bet é operada pela Lema Administração e Participações, empresa que já administra casas de apostas on-line no Paraná e que fez o pagamento da outorga à Loterj. No Rio, ela foi autorizada a operar com três marcas, uma delas a Rio Jogos. De acordo com a denúncia, o advogado Alexandre Vinicius da Costa Guedes “constou inicialmente como diretor-presidente da Lema, e, mais importante, foi a peça movida por Flávio e Vinicius para iniciar a empreitada criminosa”.
O MPRJ mostra ainda que o grupo criou duas empresas de fachada em nome de um laranja — a JRF Eagle Participações e a Invectry Participações — para receber dinheiro da contravenção. Ao rastrear o montante recebido pela Loterj, os promotores chegaram à Invectry, que transferiu R$ 500 mil para João Eric Lourenço da Silva. Metade do credenciamento foi paga justamente por João Eric e o restante, pela Apoio Consultoria Financeira Ltda, que seria de Ana Paula Batista Vitorino e João Victor de Araújo Souza. Os três, além de Alexandre, foram denunciados.
Alcoólicos Anônimos:
A investigação mostrou a conexão da Rio Jogos com a contravenção no Paraná, onde mora João Eric, e em Goiás, onde ficam os endereços de Ana Paula e João Victor. Assim como no Rio, eles têm laços familiares com contraventores. Lenine de Araújo de Souza, pai de João Victor, é primo do contraventor Carlinhos Cachoeira, de Goiás. João Eric é filho de Mauri Lourenço da Silva, que já foi preso acusado de ligação com o jogo do bicho em Goiás. O Ministério Público do Paraná denunciou o pai de Ana Paula, William Vitorino, por uma suposta atuação com Cachoeira.
Luto:
Em maio, a Lema foi um dos principais alvos da Operação Big Fish, do MP do Paraná, que investigou o envolvimento de 90 pessoas, incluindo políticos, com a contravenção. Segundo a denúncia, foram montadas empresas de fachada, para a lavagem de dinheiro com auxílio de uma plataforma de gestão de apostas ilegais usada por bicheiros de 14 estados.
Investigada no Paraná:
O registro da Lema chegou a ser suspenso pela Justiça do Paraná, mas os advogados dos acusados derrubaram a medida. Uma cópia desse processo foi enviada para a Loterj, que suspendeu o credenciamento da Lema. No entanto, a empresa continuava nesta quarta à noite na lista de “marcas autorizadas” no site do órgão estadual. Paraná e Rio foram os primeiros estados a dar autorização para casas de apostas, antes mesmo do governo federal.
Em nota, a Loterj afirmou que não tinha informação sobre uso de recursos ilícitos para pagar o credenciamento e que essa apuração cabe a órgãos federais, como a Receita Federal e o Coaf. O GLOBO procurou o novo presidente da Lema, no Rio, Pedro Francisco Soffiato, que não respondeu ao pedido de entrevista.
Uma troca de mensagens a que o MPRJ teve acesso mostra a intenção do grupo de ampliar os negócios. Em agosto de 2024, Alexandre Guedes apresentou ao presidente da Mocidade uma espécie de loteria eletrônica semelhante ao jogo do bicho. Flávio respondeu de forma positiva e o advogado enviou um áudio dizendo: “Tá prontinho, prontinho pra gente botar a rua”.
Procurada, a defesa de Flávio Santos alegou que ainda aguarda ter acesso à denúncia. O GLOBO não conseguiu contato com os outros citados.
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