RJ em Foco
Professora de 26 anos morre após ser atendida e liberada duas vezes no mesmo dia por hospital do Rio; família busca respostas
Unidade de saúde alega que resultados dos exames não apresentaram alterações e diante do que chamou de 'normalidade' liberou a paciente
Professora de História Giulia Silva de Araújo, de 26 anos, morreu após ser atendida duas vezes no mesmo dia em hospital municipal e ser liberada após ter sido diagnosticada com ansiedade. Horas mais tarde, a jovem deu entrada em uma unidade de saúde de Duque de Caxias, com quadro de parada cardiorrespiratória e não resistiu. O caso ocorreu na última sexta-feira.
De acordo com o relato de uma amiga em uma rede social, a professora começou a passar mal ainda em sala de aula, apresentando sintomas compatíveis com um quadro cardíaco. No começo da manhã, foi levada para o Hospital Municipal Francisco Silva Telles, em Irajá, na Zona Norte, onde seu quadro foi diagnosticado como ansiedade. Após o atendimento, foi liberada.
Mais tarde, no final da manhã, passou mal novamente e retornou ao mesmo hospital, onde teria até desmaiado durante o atendimento. Re-diagnosticada como ansiedade, foi medicada e liberada. Como continuava sem melhoras, foi levada para um hospital em Duque de Caxias, onde faleceu às 17h25, após dar entrada com quadro de parada cardiorrespiratória.
A família agora busca respostas. Querem entender por que não foram seguidos protocolos diante dos sintomas informados e por que o caso foi tratado como ansiedade mesmo com a aparente piora e desmaio durante o atendimento. A família contratou um advogado que pretende ajuizar ação civil contra o município do Rio buscando indenização por responsabilidade civil e reparação de danos.
— A gente acompanha a situação com muita revolta. Foi negligência médica. Mataram a minha irmã. Ela passou por três médicos e ninguém deu importância aos sintomas apresentados. Disseram que ela foi submetida a exames, mas não apresentaram. Minha mãe está arrasada. Queremos justiça — afirmou a enfermeira Fabiana Marques, irmã de Giulia.
A jovem trabalhava em uma escola particular em Irajá e morava em Duque de Caxias com a irmã, um sobrinho (filho de Fabiana) e a mãe, de 64 anos. Formada em História pela UFRRJ, tinha planos de fazer outra faculdade no próximo ano, mas ainda estava indecisa entre uma especialização em educação ou administração, conforme relatou sua irmã.
O DCE da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde Giulia estudou, divulgou uma nota de pesar. "É com profundo pesar que recebemos, neste dia 29, a notícia do falecimento de Giulia Silva, estudante egressa do curso de História do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ. Neste momento de dor, prestamos nossa solidariedade à sua família, amigos, colegas e a todos que tiveram a oportunidade de compartilhar sua trajetória." O sepultamento ocorreu no domingo, em Cordovil.
A direção do Hospital Municipal Francisco da Silva Telles (HMFST) informou que a paciente deu entrada na emergência da unidade, pela primeira vez, às 8h32, com relato de dor no peito e que, durante o atendimento, recebeu os cuidados indicados ao seu quadro, incluindo exames em protocolo para diagnóstico imediato de quadros cardíacos agudos, que "apresentaram resultados dentro da normalidade". A paciente também passou por exame de eletrocardiograma, e o resultado não apresentou qualquer alteração. Diante disso, recebeu alta.
O hospital relatou ainda que, no mesmo dia, às 11h14, a paciente retornou à unidade e foi atendida imediatamente mais uma vez. Diante da persistência dos sintomas, a equipe médica repetiu os exames realizados no primeiro atendimento e prescreveu ainda hemograma completo e radiografia do tórax. Nesta segunda bateria de exames, também não foi detectada nenhuma alteração, diz a unidade de saúde. De acordo com a nota, a professora foi medicada e, após período de observação, foi liberada no começo da tarde. A unidade lamentou o ocorrido, garantiu que prestou assistência conforme o quadro apresentado e se colocou à disposição da família para prestar esclarecimentos.
Leia a nota do hospital, na íntegra:
A direção do Hospital Municipal Francisco da Silva Telles (HMFST) informa que, na última sexta-feira (28), às 8h32, a paciente Giulia deu entrada na emergência da unidade com relato de dor no peito. Ela foi imediatamente atendida e recebeu todos os cuidados indicados para o histórico de seu quadro, com exames fixados em protocolo para diagnóstico imediato de quadros cardíacos agudos. Todos esses exames apresentaram resultados dentro dos parâmetros de normalidade: frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial, temperatura e saturação de oxigênio. A paciente também passou por exame de eletrocardiograma, necessário para detecção de quadros cardíacos de maior gravidade, e o resultado não apresentou qualquer alteração. Diante da normalidade dos resultados e dos indicadores vitais, foram prescritos medicamentos para os sintomas relatados, e a paciente recebeu alta médica com as devidas orientações.
No mesmo dia, às 11h14, Giulia retornou à unidade e foi mais uma vez atendida imediatamente. Diante da persistência de seus sintomas, a equipe médica repetiu os exames realizados no primeiro atendimento e prescreveu ainda hemograma completo e radiografia do tórax. Nesta segunda bateria de exames, não foi detectada nenhuma alteração. Ela recebeu medicação no próprio hospital para os sintomas apresentados até então e permaneceu em observação. Às 13h19 foi reavaliada e, como os indicadores vitais permaneceram dentro da normalidade, foi prescrita a alta médica com orientações.
O HMFST lamenta o falecimento de Giulia e ressalta que prestou toda a assistência à paciente com base no quadro clínico apresentado em cada avaliação. A direção da unidade segue à disposição da família para mais esclarecimentos.
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