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Entre abrigos e sonhos: menino com altas habilidades que fez curso de Harvard enfrenta falta de moradia com a mãe

Em 2023, aos 7 anos, Alvinho desenvolveu um jogo, todo em inglês, depois de fazer um curso on-line de programação da universidade norte-americana; hoje, a mãe, Priscila, aguarda o fim do tratamento contra uma tuberculose para que uma nova rotina comece na vida deles

Agência O Globo - 31/08/2026
Entre abrigos e sonhos: menino com altas habilidades que fez curso de Harvard enfrenta falta de moradia com a mãe
Super Alvinho - Foto: Reprodução Redes Sociais

Em vez de bolo e festa, cercado por amigos e parentes, os 10 anos de Adriano Álvaro Melo foram comemorados em uma casa de passagem. Esse tipo de lugar costuma receber para atendimento temporário e de emergência pessoas em situação de rua, abandono ou vulnerabilidade social. Alvinho, como o menino é chamado, completou a primeira década de vida numa unidade do tipo em Cabo Frio, na Região dos Lagos, em abril, longe do apartamento em que um dia viveu em Itaboraí, na Região Metropolitana, e da rotina de estudos que o levou a criar um jogo de computador, aprender inglês sozinho e participar de competições de xadrez e robótica. De lá para cá, ele e a mãe, Priscila, de 42 anos, passaram por dois abrigos no Rio: um na Ilha do Governador e outro, mais recentemente, no Grajaú, ambos na Zona Norte da capital. E, apesar de tudo, o garoto continua olhando para frente e fazendo planos.

— Meu desejo maior é estudar na Europa e ser um grande construtor de robôs — responde o menino nascido no Complexo da Maré, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, quando perguntado sobre o que espera para o futuro.

Em dezembro de 2023, uma reportagem do EXTRA contava que Alvinho O game criado pelo garoto é todo em inglês, idioma que ele aprendeu sozinho por um aplicativo, e conta a história de um extraordinário cientista que queria usar seus superpoderes para construir robôs agrícolas e pesquisar meios de melhorar a produção e a distribuição de alimentos no mundo, um sonho que, na verdade, era também do seu pequeno criador.

Paralelamente, o pequeno Álvaro integrava um projeto de xadrez para crianças e uma turma de robótica da UFRJ. Participou de diversas competições e saiu delas levando medalhas e troféus, que hoje estão encaixotados em casas de parentes, junto com os documentos originais de mãe e filho. O mesmo destino teve a Medalha Pedro Ernesto recebida por Alvinho em dezembro de 2024, por seu destaque na educação, o que fez dele a pessoa mais jovem a receber a maior condecoração concedida pela Câmara Municipal do Rio.

Priscila conta que a suspeita de que o filho tivesse uma facilidade incomum para aprender surgiu quando ele tinha 3 anos. Na pandemia, aos 4, ele aprendeu a ler e a escrever com a ajuda do aplicativo GraphoGame, do MEC. Em seguida, um teste de altas habilidades confirmou o diagnóstico.

Dificuldade após golpe

Na época do curso de Harvard e do desenvolvimento do jogo, a situação da família já não estava boa. Mãe e filho viviam de favores na Maré, o que havia virado rotina desde que deixaram o apartamento em Itaboraí. Priscila conta que foi vítima de um golpe imobiliário que consumiu o sonho da casa própria, o FGTS e a estabilidade do filho. A questão está na Justiça.

Segundo ela, o casal que comprou o imóvel se comprometeu a assumir a dívida de R$ 93 mil junto à Caixa e transferir a documentação para seu nome, mas fez o acordo em cartório, mantendo a dívida em nome de Priscila e de seu ex-marido. Separada e com filho pequeno, ela se viu sem condições de comprar outra casa, passando a viver de favores.

Em outubro de 2025, Priscila foi diagnosticada com uma tuberculose resistente a medicações. Mesmo doente, mudou-se com o filho no começo deste ano para a Região dos Lagos, em busca de um emprego, que acabou não vindo.

— Eu estava desesperada por não ter como sustentá-lo — conta Priscila, que já foi microempreendedora, mas, nos últimos anos, passou a viver fazendo bicos.

Longe da escola enquanto a mãe se trata

Sem condição de se sustentar em Cabo Frio, eles foram parar na casa de passagem. Sensibilizado com a inteligência do menino, o diretor do local conseguiu para Alvinho uma bolsa de estudos integral numa escola particular. No entanto, o menino só frequentou dois meses, pois a mãe teve que voltar ao Rio para tratar da saúde na Fiocruz, uma vez que não tinha como fazê-lo na Região dos Lagos.

— Quando terminar o tratamento, que deve acontecer até outubro, penso em voltar a Cabo Frio para tentar fazer com que ele ao menos conclua o ano letivo — planeja ela.

O garoto que enfrentou dificuldades nas escolas públicas por onde passou, devido à falta de suporte para acompanhamento de alunos, em fevereiro de 2024 aproveitou a ida do presidente Lula à Maré para entregar a ele uma carta com o projeto de uma escola para atender crianças com altas habilidades, como ele, na comunidade.

Alvinho também tem seletividade alimentar, o que dificulta a adaptação à merenda escolar. No dia a dia, Priscila recorre a restaurantes do tipo self-service, em busca de variedade no prato; isso, quando pode pagar. Ela estima uma despesa diária de R$ 50 com alimentação do filho.

O gosto pelos estudos vem de família

Priscila recebeu, na última semana, a primeira parcela do Bolsa Família, de R$ 650. Em agosto, teve acesso pela primeira vez ao cartão de alimentação para pacientes com tuberculose, de R$ 250. Também conta com uma bolsa estudantil de R$ 1.200, obtida por intermédio da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Alerj, paga entre março e novembro.

Hoje, mãe e filho vivem na Unidade de Reinserção Social Maria Tereza Vieira, no Grajaú, mas passam a maior parte do tempo fora do abrigo. Em geral, ficam no espaço de coworking de um shopping no bairro vizinho de Vila Isabel, onde Priscila usa o computador para trabalhar em sua dissertação de mestrado em Tecnologia Social, enquanto Alvinho estuda por conta própria. Às vezes, vão a outro shopping, este na Tijuca, também próximo, onde o menino aproveita a área recreativa que tem entrada gratuita. Enquanto isso, assim como o filho, Priscila também tem seus sonhos:

— Desde o início deste ano, meu filho precisou interromper a rotina dele. Estamos sem moradia e vivendo em abrigos. Ele está sendo privado de uma alimentação saudável e de acesso à saúde. Nossa expectativa é de que daqui para frente haja novas oportunidades. Pretendo terminar meu mestrado e quero que, um dia, meu filho possa realizar os sonhos dele. O meu sempre foi o de fazer um curso de doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal.