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Super Alvinho: com altas habilidades, jovem gênio da Maré vive hoje em abrigo com a mãe

Adriano Álvaro Melo, aos 7 anos de idade, já traçava um destino promissor ao desenvolver o jogo “Super Alvinho”, após participar de um curso on-line de programação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos

Agência O Globo - 31/08/2026
Super Alvinho: com altas habilidades, jovem gênio da Maré vive hoje em abrigo com a mãe
Super Alvinho - Foto: Reprodução Redes Sociais

Aos 7 anos, Adriano Álvaro Melo já traçava um destino promissor. O pequeno gênio do Complexo da Maré, no Rio, havia desenvolvido o jogo "Super Alvinho" após participar de um curso on-line de programação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Sua inteligência e esperteza o destacavam no xadrez e em uma turma de robótica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No entanto, a vida impôs obstáculos extras ao futuro do menino, que almejava sair da favela e conquistar o mundo. Recentemente, seu último aniversário, de dez anos, em abril passado, foi celebrado em um abrigo temporário para pessoas em situação de rua, abandono ou vulnerabilidade social. Atualmente, ele e sua mãe, Priscila Melo, de 42 anos, residem em um abrigo no Grajaú, Zona Norte do Rio. Apesar das dificuldades enfrentadas na infância, Alvinho mantém seus sonhos vivos.

Em Cabo Frio:

Vídeo:

— Meu desejo maior é estudar na Europa e ser um grande construtor de robôs — declara o garoto, com um olhar que une esperança à sagacidade.

Saúde abalada

Os solavancos na trajetória de Alvinho e Priscila não cessam desde que a mãe foi diagnosticada, em outubro do ano passado, com tuberculose resistente aos medicamentos. Mesmo doente, ela se mudou com o filho, no início de 2026, da capital para Cabo Frio, na Região dos Lagos, em busca de uma oportunidade de emprego que logo se revelou frustrante.

— Estava desesperada por não ter como sustentá-lo no Rio. Em Cabo Frio, também não consegui nada — relata Priscila, que costumava ser microempreendedora e, nos últimos anos, sobreviveu de bicos.

Sem condições de arcar com as despesas cotidianas, foram parar em uma casa de passagem — onde Alvinho passou o aniversário — no município, também no interior do Rio. Sensibilizado pela história, o diretor da instituição conseguiu para Alvinho uma bolsa de estudos integral em uma escola particular, mas ele só conseguiu frequentá-la por dois meses, pois a mãe teve que retornar ao Rio para tratar de sua saúde na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma vez que não tinha condições de acompanhamento na Região dos Lagos.

Peça foi devolvida:

— Assim que terminar o tratamento, previsto para outubro, pretendo voltar a Cabo Frio, para que ele possa concluir o ano letivo — planeja Priscila, que passou com o filho por um abrigo na Ilha do Governador, até encontrarem acolhimento na Unidade de Reinserção Social (URS) Maria Tereza Vieira, no Grajaú. — Meu filho precisou interromper sua rotina. Estamos sem moradia e vivendo em abrigos, mas esperamos por novas oportunidades.

Priscila fala com a perseverança de quem nunca desistiu. Se tudo parece nebuloso agora, no passado o caminho também não foi fácil.

A mãe lembra que a suspeita da facilidade incomum de aprendizado de Alvinho surgiu quando ele tinha 3 anos. Aos 4, em meio à pandemia da Covid-19, aprendeu a ler e escrever com a ajuda do aplicativo GraphoGame, do Ministério da Educação, indicado para crianças do 1º e 2º ano do ensino fundamental. Após, um teste confirmou as altas habilidades do pequeno prodígio.

O jogo “Super Alvinho”, por exemplo, foi criado todo em inglês, idioma que ele estudou em um aplicativo, e contava a história de um extraordinário cientista que queria usar seus superpoderes para construir robôs agrícolas e investigar formas de melhorar a produção e a distribuição de alimentos no planeta. Sua inventividade lhe rendeu destaque no GLOBO, em dezembro de 2023, ao ser palestrante em um evento sobre Pedagogia Social na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Em São Gonçalo:

Vivendo de favor

Mas a situação financeira já se deteriorava. Naquela ocasião, Priscila e o filho se viam vivendo de favores no Complexo da Maré, após ela perder o apartamento em Itaboraí, na Região Metropolitana. A mãe conta que foi vítima de um golpe imobiliário que arruinou seu sonho da casa própria, afetou seu FGTS e a estabilidade de seu filho — um caso que ainda está na Justiça. Separada e com o filho pequeno, ela se viu sem ter onde morar.

Por um tempo, parecia que as coisas melhorariam. Em fevereiro de 2024, Alvinho aproveitou uma passagem do presidente Lula pela Maré para entregar a ele uma carta com o projeto de construção de uma escola para atender, dentro da comunidade, crianças com altas habilidades, como ele. O pequeno competiu em torneios de xadrez e robótica, conquistou troféus e foi condecorado na Câmara do Rio, em dezembro de 2024, com a Medalha Pedro Ernesto, por seu destaque na educação. O gênio da Maré se tornava assim a pessoa mais jovem a receber a comenda.

Contudo, novas dificuldades surgiram. Alvinho nunca teve acesso ao colégio que almejou. E Priscila, desempregada e incapaz de fazer seus bicos por conta da doença, somente na semana passada conseguiu receber a primeira parcela do Bolsa Família, no valor de R$ 650. Neste mês de agosto, obteve também seu cartão de alimentação para pacientes com tuberculose, no valor de R$ 250. Embora essa quantia seja modesta, é um alívio para cobrir os cerca de R$ 50 que estima precisar por dia para garantir as refeições de Alvinho, que apresenta um quadro de seletividade alimentar, condição em que a pessoa rejeita alimentos por características como textura ou cor.

Esperança persistente

Até então, a renda da família era uma bolsa estudantil, que a mãe conseguiu com a ajuda da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), no valor mensal de R$ 1.200, pagos entre março e novembro. Priscila não desistiu de seus sonhos e quase diariamente eles vão a um coworking em um shopping de Vila Isabel, bairro vizinho ao Grajaú, onde a mãe utiliza o computador para trabalhar em sua dissertação de mestrado em Tecnologia Social, enquanto Alvinho estuda por conta própria. Às vezes, também utilizam a área recreativa gratuita de um shopping na Tijuca.

— Hoje, vejo nossa situação como a negação dos nossos direitos humanos mais básicos. Mas, ainda assim, mantemos a esperança de que coisas boas aconteçam. Pretendo concluir meu mestrado e meu desejo sempre foi realizar um doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal. Mesmo que meus sonhos pareçam distantes, quero que um dia meu filho realize os dele — afirma Priscila.

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