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Tribunal do tráfico: julgamento de mulheres que tiveram cabelo raspado por bandidos foi transmitido para chefe do CV na prisão
Punições variam de acordo com a gravidade do que está sendo julgado, mas podem envolver advertências, espancamentos, expulsão da comunidade, torturas, imersão em banheira de gelo, mutilações e morte.
O julgamento de duas mulheres, que foram agredidas e obrigadas a fazer uma caminhada vexatória, foi transmitido ao vivo para um chefe do Comando Vermelho preso no Complexo de Gericinó, na Zona Oeste do Rio. O caso ocorreu em maio na comunidade do Risca Faca, no bairro Maria Paula, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Segundo as investigações, as duas foram levadas para uma região de mata fechada conhecida como “Mineirão”, onde foram submetidas, durante horas, a uma sessão de tortura que envolveu pauladas, socos e chutes. A sentença foi determinada por Flávio Vieira Bento, conhecido como “Mumu do Tuiuti”. Mesmo custodiado no Presídio Gabriel Ferreira de Castilho (Bangu 3), ele atuou como uma espécie de juiz do “tribunal” e acompanhou a execução da punição.
Em Cabo Frio:
Vídeo:
A investigação sobre o caso teve início quando as redes sociais foram inundadas por um vídeo em que as vítimas apareciam com os cabelos raspados, visivelmente abaladas e repetindo a frase: “Nunca mais vou dar golpe na favela”. A gravação mostra o que é chamado de “peregrinação vexatória”, determinada pelo tráfico na comunidade. Durante o percurso, elas foram acompanhadas por traficantes sob escolta armada, que comemoravam o ato, afirmando que era “para servir de exemplo”.
Apesar da humilhação pública a que foram submetidas, a caminhada pela comunidade foi apenas uma das penalidades decretadas pelos criminosos. A dimensão do poder exercido pelo grupo, baseada no medo, ficou ainda mais evidente durante o desenrolar das investigações, quando a polícia descobriu uma tentativa de fraude processual por parte dos traficantes, que utilizaram as próprias vítimas.
As mulheres foram filmadas indo até uma unidade de cartório e prestando depoimentos radicalmente opostos às primeiras declarações dadas quando estavam internadas no hospital. As câmeras de segurança do órgão registraram que elas usavam perucas e bonés e estavam sob a escolta de dois homens, que orientavam todo o procedimento.
No novo relato, incluído no processo, as vítimas inocentavam os traficantes e diziam ter sido agredidas por outras mulheres. Entretanto, essa versão não encontrava amparo nas evidências, já que o crime foi filmado e as imagens circularam nas redes sociais.
Apesar da mudança, a polícia obteve provas para enquadrar os bandidos na Lei Antifacção, de março deste ano. O caso foi o primeiro indiciamento pelo crime de domínio social estruturado, previsto na nova legislação, com pena de 20 a 40 anos de prisão. Após a investigação, 15 pessoas foram denunciadas pelo crime, e duas foram presas.
Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Penal (Seppen) informou que, assim que foi detectada a participação dele, o criminoso foi transferido para a Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino (Bangu 1), onde ficou em isolamento. A pasta também afirmou que solicitará a mudança do criminoso para o Regime Disciplinar Diferenciado.
Funcionamento do tribunal
As investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) mostram que, apesar de TCP e CV, as duas maiores facções do estado, terem suas próprias particularidades a respeito das punições — que também variam dependendo da comunidade —, as dinâmicas acontecem de forma semelhante e seguem uma hierarquia de decisão.
Assim que os chefes locais tomam conhecimento de alguma violação das regras impostas pelo grupo, que pode ser uma suspeita de colaboração com a polícia, relação com a facção rival, furto ou dívida, deliberam informalmente sobre o que será feito.
As punições definidas pelo grupo variam de acordo com a gravidade do que está sendo julgado, podendo envolver advertências, espancamentos, expulsão da comunidade, torturas, imersão em banheira de gelo, mutilações e, nos casos considerados mais graves, o decreto de morte.
— Dependendo da gravidade do caso, os chefes locais podem decidir autonomamente ou submeter a situação a integrantes de maior hierarquia, especialmente quando se trata de punições mais severas. Durante esse processo, a vítima costuma ser interrogada, coagida e, não raramente, submetida à violência física para obter uma suposta “confissão”. Não há qualquer garantia de defesa, contraditório ou produção imparcial de provas — explica o delegado Paulo Saback, da DRE.
Enquanto linchamentos ocorrem de forma pontual no asfalto, nas comunidades dominadas pelo tráfico e pela milícia, esse tipo de violência é uma rotina. Ali, organizações criminosas estabelecem seus próprios códigos de conduta, julgam, decretam sentenças e aplicam as penas, que vão de humilhações e agressões até a morte.
O delegado Paulo Saback destaca que o tribunal do tráfico busca um objetivo maior do que apenas punir quem descumpre as regras impostas pela facção:
— É um mecanismo de substituição do Estado, por meio do qual a organização busca monopolizar o exercício da força e da autoridade dentro da comunidade. Ao estabelecer um código próprio de conduta, a facção procura regular praticamente todos os aspectos da vida cotidiana, com o objetivo de fortalecer a autoridade da organização criminosa e consolidar sua influência sobre a população.
Um exemplo desse violento controle social foi a execução de Matheus Andrade de Freitas, morador da comunidade do Fubá, em Cascadura, área dominada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), em 2024. Ele foi considerado suspeito de envolvimento com o Comando Vermelho após abrir uma pizzaria com um amigo de infância próximo a uma área dominada pela facção rival. Freitas foi condenado à morte pelo tribunal do tráfico em uma sessão de crueldade, durante a qual os algozes se filmaram retirando partes do corpo da vítima. A família, que dava Freitas como desaparecido, só soube da execução quando o vídeo começou a circular na favela.
Em setembro do ano passado, dois usuários de drogas foram espancados na comunidade da Chatuba, em Mesquita, na Baixada, após terem vendido uma geladeira que estava na calçada da favela a um ferro-velho por R$ 15. Acusados de terem roubado o eletrodoméstico, foram torturados. Apenas um sobreviveu.
Nos dois casos, ocorreram indiciamentos dos autores pela polícia, mas nem sempre é simples obter provas ou testemunhas dispostas a apontar os acusados. Investigações da DRE mostram que, apesar de TCP e CV, as duas maiores facções do estado, terem seus próprios códigos a respeito das punições — que também variam de acordo com a comunidade —, as práticas são muito similares e seguem uma hierarquia de decisão.
Em São Gonçalo:
Assim que os chefes locais se deparam com uma violação das regras impostas pelo grupo, que pode ser uma suspeita de colaboração com a polícia, relação com a facção rival, furto ou dívida com a boca de fumo, deliberam informalmente sobre o que será feito. Dependendo da gravidade, o caso é submetido a superiores. Muitas vezes, a pena é decidida por bandidos que estão em presídios.
— Esse sistema não tem características de justiça jurídica ou comunitária. Não há garantias de defesa, contraditório ou produção imparcial de provas. É uma estrutura de violência organizada, utilizada para disciplinar moradores e integrantes da própria facção, sempre orientada pelos interesses próprios — reforça Saback.
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