RJ em Foco
De monte de oração dos evangélicos aos rituais druidas, uma Floresta da Tijuca encantada, onde religiosos se conectam ao sagrado
Ecumênico, o Parque Nacional da Tijuca é abrigo para crenças diversas, de evangélicos a druidas
“Se eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar”. O verso de Gilberto Gil poderia ser o mapa de bolso de quem subiu o Monte Cardoso Fontes na manhã de sol de terça-feira, 18. Às margens da Grajaú-Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio, uma fila de peregrinos avança em direção ao topo, povoando cada canto com gestos, louvores e até línguas exóticas. O que chama atenção não é apenas a fé, mas a vestimenta escolhida: homens de roupa social, mulheres de vestido ou saia longa e véu. Nos pés, sapatos de couro, sapatilhas ou chinelos de dedo. Nada do figurino esportivo de quem normalmente encara uma trilha de duas horas na Floresta da Tijuca. Eles não estão ali para se exercitar: estão ali para orar.
Durante uma semana, O GLOBO percorreu diferentes áreas do Parque Nacional da Tijuca e investigou como a floresta se transforma em lugar de conexão com o sagrado para pessoas de crenças distintas. Entre trilhas, cachoeiras, grutas e mirantes, há quem suba o monte para rezar, quem procure as águas para lavar guias e reverenciar os orixás, quem considere a própria mata um templo e quem realize ali rituais ligados a tradições indígenas. No caminho, a reportagem encontrou ainda usos católicos que também vão além do Cristo Redentor.
“É como se o filme da minha vida tivesse passado”: — É como se todos estivessem lendo em idiomas diferentes, mas quisessem chegar ao divino por meio dos signos da floresta — resume Ricardo Malta, autor de uma tese que mapeou os usos religiosos do parque e identificou diferentes tradições que encontram ali espaço para suas práticas.
A diversidade, porém, divide espaço com uma regra comum a todos: trata-se de uma unidade de conservação. Para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a floresta pode ser lugar de fé, mas não pode ser alterada em nome dela. É nessa fronteira entre o sagrado e a preservação que se desenrola parte dos conflitos e acordos entre quem procura Deus, orixás ou a natureza dentro da mata.
O Monte: Desde o início dos estudos de Malta, o Monte Cardoso Fontes já aparecia como um espaço de atenção. Nos últimos anos, porém, o lugar passou a atrair cada vez mais peregrinos. Logo na entrada, sentada junto a uma rocha onde alguém escreveu um salmo a tinta, a cuidadora de idosos Renata Alvarenga, de 46 anos, lê a Bíblia enquanto se prepara para mais uma subida. Ela passou a frequentar o monte há cerca de oito anos, três depois de se converter. Hoje, tenta encaixar a peregrinação entre as idas e vindas do trabalho e costuma subir uma vez por semana.
— Paro para orar na pedra e depois vou subindo, até o lugar em que Deus toca o meu coração — conta.
O percurso é íngreme, irregular e, em alguns trechos, exige que o visitante passe por baixo ou por cima de obstáculos deixados pela natureza. Nem mesmo os troncos espalhados pela trilha depois dos últimos vendavais parecem intimidar os peregrinos. Entre eles estão jovens e idosos, homens e mulheres, muitos vestidos como se estivessem num culto.
Entre os caminhantes estão as amigas Vera Augusto, de 54 anos, dona de casa, e Aparecida da Silva, de 69. Moradoras da Cidade de Deus, a cerca de nove quilômetros dali, as duas repetem a peregrinação há quase dez anos.
De véu branco que desce além da cintura e vestido de mangas longas, deixando à mostra apenas as mãos e os pés, estes calçados com um tamanco aberto, Vera emerge da trilha de barro e chega ao descampado de onde se avista parte da Zona Norte. Sob o olhar atento de Aparecida, abre e fecha os braços em direção ao céu. Para ela, a subida é uma forma de guerra espiritual:
— Quem vê a cracolândia, a violência, as coisas do mundo lá embaixo, precisa do espírito revestido. E, para isso, tem que subir o mais alto possível.
Perguntada até quando pretende encarar o caminho, Vera não hesita:
— Até o fim. Só paro quando morrer. É aqui que tenho força e revelações.
Também no cume está Eliseu Teixeira, de 31 anos, vidraceiro e morador do Tanque, na Zona Sudoeste. Membro da Assembleia de Deus Kadosh Santificados, em Curicica, ele conta que ali viveu uma experiência que descreve como um “batismo no espírito”. Algo diferente, explica, do batismo nas águas.
De calça social e camisa de botão, ele sobe carregando a Bíblia e, no fone, uma playlist de cânticos religiosos. Para Eliseu, o esforço físico faz parte da experiência religiosa.
— Gosto de vir aqui fazer uma leitura, ouvir um pouco de louvor. A Bíblia vai além do templo. Aqui, a gente sente na carne um contato íntimo com Deus.
Pouco depois, ajoelha-se na terra batida, apoia a cabeça sobre o livro sagrado e começa a orar.
Pelo caminho, outros grupos fazem o mesmo. Há pessoas cantando, gravando vídeos e parando diante das pedras para orar. Num clarão entre as árvores, uma mulher caminha em círculos, fala em línguas e ergue a voz em meio a palavras de ordem.
Entre os frequentadores, alguns pontos ganharam nomes próprios. Uma das áreas é chamada de Jardim Secreto. Outra formação rochosa é conhecida como Garganta do Céu.
Em seguida, Tamires de Souza, 30, e Thifany Duarte, 21, seguem pelo mesmo caminho. As duas são amigas e frequentam a Igreja Pentecostal Assembleia dos Santos em Missões, no Morro do Amor, no Lins, na Zona Norte. Tamires começou a subir o monte depois de se converter, há cinco anos.
Antes de iniciar a caminhada, os fiéis costumam escrever pedidos em pedaços de papel. No topo, alguns queimam as mensagens como parte do ritual.
— É um ato de fé, de propósito diante de Deus — define Tamires.
A prática é também um dos pontos em que a manifestação religiosa encontra os limites da preservação. A fumaça e as cinzas do papel queimado deixam resíduos na mata e o uso de fogo acrescenta um risco que preocupa os responsáveis pela unidade.
Natureza como altar: Do alto de uma pedra, a água desce em pequenas quedas pela mata na popular “Curva do S”, no Alto da Boa Vista. O som da cachoeira se mistura ao das vozes de quem chega para lavar guias, tomar banho e realizar trabalhos religiosos. Ali, a floresta também é terreiro.
Ailton Moraes, de 31 anos, e Laysa Maria Costa, de 26, foram até a Floresta da Tijuca pela primeira vez para lavar suas guias. Ele é umbandista; ela, candomblecista. Para ambos, a água, as árvores e as pedras não são apenas o cenário do ritual. Fazem parte dele.
Kleimar Ferreira, de 57 anos, mãe de santo do candomblé, conhece bem essa relação. Moradora do Méier, na Zona Norte, ela frequenta a mata há mais de duas décadas. Durante anos, conta, grupos ligados à sua casa levam roupas e comidas destinadas aos orixás para dentro da floresta.
Hoje, Kleimar diz ter incorporado um cuidado à rotina: tudo o que leva para a mata precisa voltar com ela.
— Trago uma vassoura e coloco tudo o que foi usado dentro de uma sacola, para não deixar nenhum resíduo.
No mesmo lugar, Mônica da Costa, de 58 anos, também mãe de santo, se prepara para entrar na água. Moradora do Encantado, na Zona Norte, ela visita a cachoeira duas ou três vezes por mês e levar água dali para casa. Ao seu lado está Marcos Pires, ogã da casa, responsável por tocar o atabaque e acompanhá-la nos trabalhos.
A cachoeira de referência do terreiro fica em Magé. A distância, porém, dificulta as visitas e faz da Curva do S uma alternativa.
— É longe demais para a gente ir com frequência. A Curva do S é mais próxima — explica a mãe de santo.
A devoção, porém, não impede Mônica de reparar no que acontece ao redor. Ao encontrar lixo entre as pedras, ela fica desgostosa.
— Fico triste de ver a sujeira. É a nossa casa sagrada — lamenta.
Em diferentes pontos do Alto da Boa Vista, o mapeamento de Ricardo Malta identifica uma espécie de sobreposição de usos. Áreas procuradas por praticantes de religiões de matriz africana também estão associadas a outras tradições, como druidismo, xamanismo e budismo. Não há placas indicando essas fronteiras. Elas existem para quem conhece os caminhos, os rituais e os significados atribuídos a cada trecho da floresta.
Para a druidesa Bandrui de Gergóvia, porém, não há separação entre a prática religiosa e o lugar onde ela acontece: a própria floresta é o templo. Bandrui descobriu o druidismo em 1986. Quatorze anos depois, ao chegar ao Rio, encontrou na Floresta da Tijuca o espaço onde poderia praticar uma tradição que considera a natureza sagrada. Há mais de duas décadas, conduz um grupo que realiza sete das oito celebrações sazonais na mata:
— Para nós, não existem templos. A floresta não é pano de fundo para as nossas celebrações, ela é o nosso próprio altar.
Cânticos, danças e preces fazem parte dos rituais. Algumas práticas, porém, foram adaptadas para respeitar as regras da unidade de conservação. No parque, o grupo deixou de fazer oferendas e rituais com fogo.
— Nós não fazemos mais as oferendas porque existe uma regra na floresta — confirma ela.
Já a terapeuta holística Vera Alves, de 60 anos, encara a floresta como um portal. Em 2014, ela fundou o grupo Fadas Brilhantes Diamantes. Todos são terapeutas e, segundo ela, a criação surgiu de forma intuitiva, a partir da orientação para abrir uma passagem no Recanto do Bom Retiro.
Desde então, reúnem-se pelo menos uma vez por mês em algum ponto do Parque Nacional da Tijuca. Fazem meditações e ancoram energia.
— Não é uma religião. É um estilo de vida — explica Vera.
A presença religiosa no Parque, porém, não se limita às manifestações menos conhecidas. No Alto do Corcovado, o Cristo Redentor concentra a expressão mais visível do catolicismo na unidade e recebe diariamente fiéis e visitantes de diferentes credos. Há outros exemplos, mais discretos. A Capela Mayrink, pequena construção cor-de-rosa cercada pela mata, recebe missas ao menos uma vez por mês. Já a Capela de São Silvestre, uma das menores capelas do Brasil, é outro marco da presença religiosa dentro da floresta.
Em meio ao verde, há ainda registros de manifestações ligadas a tradições indígenas. Em 5 de julho de 2025, um ritual associado ao povo Huni Kuin, também conhecido como Kaxinawá, foi realizado no setor Floresta da Tijuca. Durante a cerimônia, os participantes eram pintados e recebiam fumaça no rosto e no corpo, enquanto outros aguardavam sentados no solo da mata. Eram mais de dez participantes, sem contar os responsáveis pelo ritual.
Mais lidas
-
1DEFESA
Caça J-35 chinês com revestimento prateado mina posição aeronaval dos EUA, diz mídia
-
2POLÍTICA
Augusto Cury entra no estúdio da Band e deve participar de debate
-
3DEFESA
Chefe da Marinha britânica reconhece o poderio da frota submarina da Rússia
-
4ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
5TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
IT Forum abre edição de 35 anos com aposta em ecossistemas como nova força da inovação