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Capital das bets: o que faz o Rio de Janeiro ser a cidade com mais apostadores do Brasil?
Segundo o Ministério da Fazenda (MF), 1,8 milhão de pessoas realizaram apostas esportivas na cidade em junho
Uma vida de luxo. Festas, camarotes em jogos de futebol e viagens internacionais. Tudo pago por uma casa de apostas on-line, que buscava fazer com que Breno (nome fictício), empresário de 37 anos, investisse cada vez mais dinheiro em suas plataformas. Até que ele perdeu tudo: do casamento e do tempo precioso com os dois filhos ao imóvel que ganhou do pai. Hoje, ele tenta se recuperar no grupo de ajuda Jogadores Anônimos.
Entenda:
Emojis do crime:
— Cheguei a enganar diversas pessoas para conseguir dinheiro para jogar, e isso me custou muito caro. Perdi a confiança da minha família e dos meus amigos. Tenho uma filha de 14 anos e um filho de 4 meses, deixei de viver momentos com eles porque ficava no celular cerca de 13 horas por dia, a maior parte do tempo jogando. São momentos que não consigo recuperar. Minha filha falava comigo, e eu não dava atenção. Eu saía com minha esposa, mas ficava apenas no telefone — lembra.
1,8 milhão de apostadores
Breno está entre 1,8 milhão de pessoas que realizaram apostas esportivas na cidade do Rio em junho, conforme dado do Ministério da Fazenda (MF), o equivalente a 26,89% da população. Em São Paulo, por exemplo, com população quase duas vezes maior que a da capital fluminense, o percentual foi de 15,75%.
Diante desse cenário, a Secretaria municipal de Saúde do Rio criou um programa para cuidar de pessoas com o transtorno do jogo. Agora, em todo atendimento na rede, são feitas duas perguntas ao paciente: se ele já sentiu vontade de jogar e se já precisou mentir sobre isso para alguém. Uma resposta positiva o encaminha ao tratamento especializado.
— Normalmente as pessoas não chegam às unidades de saúde pela porta principal para buscar tratamentos relacionados a vícios em jogos. Não é uma doença tão fácil de tratar, até porque geralmente há uma questão de ansiedade, insônia, depressão e outras doenças atreladas a esse vício. Estamos tentando tratar de forma precoce — explica o secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado.
Já nas primeiras semanas de atendimento, foi possível identificar um perfil de apostadores: quase 60% eram homens e 53% tinham entre 18 e 39 anos. Já entre os parentes afetados, 85% são mulheres com mais de 40 anos, a maioria delas mães e esposas dos entrevistados.
Diferentes variáveis ajudam a traçar os motivos que fazem do Rio a capital das bets.
— A propensão do carioca ao jogo é maior, e isso tem a ver com a expectativa de renda, que é menor aqui do que em São Paulo, além da questão da informalidade e da grande quantidade de funcionários públicos, com maior acesso a crédito consignado e taxas de juro mais baixas, o que gera uma tendência maior ao endividamento — avalia o diretor do Instituto de Economia da UFRJ, Carlos Frederico Leão Rocha.
Rock in Rio terá aguadeiros, borrifadores e laboratório móvel:
Gabriel (nome fictício), integrante do grupo Jogadores Anônimos, por exemplo, passou em dois concursos públicos, mas pôs todas as economias em caça-níqueis e, depois, em apostas on-line, até reiniciar o tratamento do vício pela terceira vez.
— O jogador compulsivo não tem noção de dinheiro. Para ele, R$ 2 e R$ 100 são a mesma coisa dentro da máquina. Para alguém ganhar hoje, outra pessoa tem que perder — relatou ele, em reunião do grupo acompanhada pelo GLOBO.
Professor do curso de Administração do campus de Macaé da Universidade Federal Fluminense (UFF), Gabriel Correia afirma que a renda não explica sozinha esse alto número de apostadores no Rio. Segundo ele, há uma perspectiva cultural e histórica, associada à normalização do jogo do bicho.
— O jogo do bicho tem uma relação histórica com o Rio. É preciso relacionar essa intenção forte de apostas com as sociabilidades que foram sendo construídas em torno do jogo, das culturas populares e dos bairros. Foi construída uma ideia de que é possível colocar um dinheiro na banca, e, às vezes, ganhar e comprar um eletrodoméstico de que se está precisando, por exemplo. As bets se aproveitam disso, atualizando essa relação — explica Correia.
Nos Jogadores Anônimos, as dívidas contraídas com jogos são relatadas pela maioria das pessoas que buscavam tratamento contra o vício.
— Minha esposa teve câncer e cheguei a usar a doença dela para pedir dinheiro a amigos e familiares. Ela nem sabe disso, usei tudo o que consegui para apostar — contou uma das pessoas em tratamento.
Este ano, o Brasil atingiu um recorde de endividamento: 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, segundo dados do Serasa, divulgados em julho de 2026. O Rio é o quinto estado com mais gente no vermelho, com 45% dos fluminenses devendo. A pesquisa mostrou ainda que 46% dos inadimplentes já apostaram em bets — quase metade diz que jogou com a esperança de quitar suas dívidas.
— Eu perdia dinheiro e tentava recuperar o que havia perdido. Não conseguia e, com isso, colocava ainda mais dinheiro no jogo. Era um ciclo que só fazia a situação piorar — conta Breno.
A fé contra o mal:
Numa tentativa de proteger o apostador, o governo federal implantou ações de prevenção ao transtorno do jogo, como a exibição obrigatória de alertas, que desassociam apostas de investimentos e esclarecem sobre a possível perda de dinheiro. O jogador pode ainda pedir o bloqueio (no portal gov.br) de seu CPF em todos os sites de apostas on-line oficiais.
Mas as iniciativas nem sempre são eficazes. Breno, por exemplo, solicitou a autoexclusão, mas segue sendo bombardeado no telefone por mensagens de empresas ilegais.
— Quando você entra em contato com essas empresas pedindo para excluir a conta, algumas informam que ela não pode ser excluída e que é só você parar de jogar — diz.
Foi por conta própria que Júnior (nome fictício), estudante de tecnologia da informação, encontrou uma saída: usou os próprios conhecimentos técnicos para bloquear anúncios, mensagens e qualquer conteúdo relacionado a apostas em suas redes:
— Hoje, eu consigo utilizar minhas redes sociais sem passar por qualquer gatilho. Consegui usar a meu favor o que eu aprendi sobre tecnologia, mas, infelizmente, essa não é a realidade da maioria das pessoas em tratamento.
O professor Gabriel Correia destaca essa desproporção entre a publicidade massiva e as campanhas de conscientização:
— É preciso mudar a cultura que foi criada, com ação do poder público e conscientização da população. É um problema coletivo. Por que não exigir que, a cada minuto de propaganda de bet, haja o triplo de conteúdo mostrando os problemas das apostas? — sugere.
Uma doença
Há quase 50 anos, a Ludopatia, também chamada Transtorno do Jogo, é classificada como transtorno mental e comportamental pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Com o aumento das bets, as demandas por serviços de saúde cresceram e os atendimentos precisaram ser reformulados. De acordo com o Ministério da Saúde, desde o fim de março, 27.703 pessoas se cadastraram no Brasil para o teleatendimento em saúde mental do SUS voltado a jogadores e apostadores. Do total, 2.448 são do Estado do Rio.
Além do Ministério da Saúde e da prefeitura do Rio, o programa Dependências — Droga, Jogo e Álcool, da UFRJ, lançou um projeto para atender jogadores. Segundo o psiquiatra Marcelo Santos Cruz, coordenador da iniciativa, o número de pessoas dependentes cresceu com a facilidade de acesso a jogos na internet:
— Antes, era necessário sair de casa para jogar, tinha que ir ao Jockey, ao cassino ou ao bingo. Agora, é possível apostar de qualquer lugar, pelo celular, e quantas vezes quiser.
As apostas de quota fixa, para eventos esportivos reais, popularmente conhecidas como bets, foram legalizadas em 2018 pelo governo federal. Em 2023, foram incluídos os jogos on-line de cassino (como o do tigrinho). A regulamentação saiu só no ano seguinte, com o início da operação em 1º de janeiro de 2025. O Estado do Rio também criou regras próprias para registrar as empresas.
* Alunas do curso Jornalismo do Futuro, sob a supervisão de Rafael Galdo
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