RJ em Foco
'Overdose de ganância': Ronnie Lessa fala pela primeira vez após condenação
Ex-PM diz que vereadora estava dificultando projeto na Zona Oeste que renderia R$ 25 milhões.
Quase dois anos após a morte da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, o ex-policial militar e autor do crime, Ronnie Lessa, falou pela primeira vez sobre esse e outros casos que envolvem seu nome em entrevista à TV Record. A entrevista foi exibida nesta quinta-feira no programa Doc Investigação.
Durante a conversa, Lessa revelou que o primeiro alvo do grupo era o político Marcelo Freixo, à época deputado federal pelo PSOL, mas negou que participaria de um atentado contra ele. A vereadora estaria intervindo na divisão de terras realizada pelos bicheiros na Zona Oeste, o que desagradou à cúpula e, principalmente, Rogério de Andrade, que "administra" os pontos de jogo na região.
— Ela estava atrapalhando a grilagem de terras na Zona Oeste. Me falaram que ela não ia deixar a gente construir. Ela iria acabar com os condomínios. Só a minha parte eram R$ 25 milhões. Eu receberia 250 lotes de R$ 100 mil — afirmou.
Além dele, outro ex-policial militar envolvido no homicídio de Marielle e Anderson, Edimilson da Silva de Oliveira, o Macalé, receberia 250 lotes no mesmo valor. Outros 500 lotes ainda seriam divididos entre alguns bicheiros não especificados por Lessa.
Ao comentar o assassinato, Lessa reconheceu que estava "entorpecido pelo dinheiro" e definiu a ação como uma "overdose de ganância". Ele relembrou a cena e disse que o choque veio logo após os disparos:
— A Marielle e o Anderson foram os únicos inocentes que eu já matei. Nós chegamos à Casa das Pretas, deitamos o banco para disfarçar e aguardamos ela sair. Durante o caminho, Anderson estava correndo muito, parecia que ele tinha percebido, mas assim que emparelhamos o carro, eu disparei e o Élcio acelerou.
Lessa lembra que soube da morte de Anderson por um garçom. O crime ocorreu em 14 de março de 2018, na Zona Norte do Rio. Ele e Élcio de Queiroz foram assistir a um jogo em um bar logo após o homicídio. Ambos foram condenados em 31 de outubro de 2024. Neste ano, as penas foram aumentadas para 81 anos e 10 meses de prisão, no caso de Lessa, e para 76 anos e 6 meses, no caso de Élcio de Queiroz.
Ronnie Lessa atuou no Bope e foi reformado após um atentado à bomba, no qual perdeu a perna. Ele afirma que entrou para a Polícia Militar por vocação, mas a própria instituição "o levou à ilegalidade", já que não tinha uma arma para os dias de folga. Ele ficou conhecido como matador do Bope. Como era considerado um policial "com disposição", acabou sendo cedido à Polícia Civil, onde permaneceu por dez anos:
— Eu não matei mil pessoas, mas, se somar todas as operações de que participei, mil é pouco. Não era só o Lessa que era matador, era a polícia.
Lessa teria trabalhado como segurança de Rogério de Andrade e confirmou que, em 2018, fechou uma sociedade com o bicheiro para abrir um bingo na Barra da Tijuca. Ele nega que recebesse salário de bicheiro.
* Aluna do curso Jornalismo do Futuro sob supervisão de Sanny Bertoldo
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