RJ em Foco
A UFRJ não aceita nazismo, antissemitismo nem qualquer forma de discriminação, mas também repudia a violência
Roberto Medronho afirma que a universidade estuda punições e busca criar um conselho consultivo de humanidades para tratar de situações como a do jovem atacado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Na última terça-feira, um estudante foi agredido por colegas dentro do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), no Largo de São Francisco, no centro do Rio. Ele foi acusado de fazer apologia do nazismo: vestia uma camiseta da banda inglesa Death in June — cujo nome é inspirado na “Noite das facas longas”, data histórica em que foram assassinados 85 integrantes do partido nazista considerados ameaças a seu líder. Além do repertório, o grupo é conhecido por adotar símbolos associados ao regime de Adolf Hitler. O jovem também tinha, na jaqueta, um button com uma suástica cortada pelo símbolo universal de "proibido". Escorraçado do prédio, ele ainda foi perseguido e voltou a apanhar na rua. “Nunca tinha visto nada semelhante”, disse Roberto Medronho, reitor da UFRJ, na entrevista a seguir.
Em Cabo Frio:
Vídeo:
Como o senhor recebeu a notícia do que havia acontecido?
Estou há 50 anos na UFRJ e fiquei chocado com esse evento. Nunca tinha visto nada semelhante. Isso me preocupa muito porque a gente ainda vai viver momentos de muita tensão. Temos que ter a firmeza e a tranquilidade necessárias para que não haja uma escalada dessas posições. A UFRJ não aceita o nazismo, o antissemitismo, nem qualquer forma de discriminação. Mas também repudia de forma clara a violência. Diante de um assunto como esse, tipificado como crime, que é a apologia à simbologia nazista, o que deve ser feito é chamar a polícia, as autoridades policiais, para que elas intervenham. Não há justificativa para o uso da violência.
As agressões começaram dentro do IFCS e continuaram na rua. Que providências já foram tomadas para o esclarecimento dos fatos?
A Polícia Civil tomou ciência e abriu inquérito para fazer as apurações. Enviou ofício e vai nos ouvir. Nós imediatamente determinamos a abertura de uma comissão de sindicância que vai avaliar todos os fatos, desde a suposta manifestação de apologia ao nazismo até os graves acontecimentos de agressões físicas. O fato de haver a apologia a um regime execrável não justifica o castigo de outras pessoas. É preciso enquadrar no Código Penal, dentro do Estado Democrático de Direito, julgar, condenar ou absolver de acordo com o que o inquérito apurar. No âmbito da UFRJ, os envolvidos serão chamados, obviamente com direito à ampla defesa. Comprovada a ilicitude, haverá consequências.
O que a UFRJ prevê em termos de regulamento disciplinar, o que pode acontecer com os envolvidos, uma vez definida a infração que cada um cometeu?
Depende da gravidade. Nós temos o nosso código disciplinar, que pode ir desde a repreensão, verbal ou por escrito, até a suspensão. Nos casos mais gravosos, pode haver a expulsão do aluno.
Em São Gonçalo:
O senhor manifestou preocupação com o acirramento da violência, no lugar do diálogo, fenômeno que está por toda parte, principalmente nas redes sociais. É possível fazer uma analogia entre o que aconteceu no IFCS e outro caso recente, o do linchamento de Copacabana?
Não enxergo essa analogia. Aquilo ali foi o absurdo do absurdo (o assassinato, a pauladas, de Cláudio Rafael Landeiro, injustamente acusado de ter roubado uma bicicleta). Mas, de certa forma, me preocupa que, diante de um fato que afronta literalmente a democracia e os direitos humanos (a apologia do nazismo), as pessoas respondam com mais violência. A universidade é o lugar do debate, da criatividade. É o lugar da liberdade, mas há um limite. Se houver atos criminosos, como o que aparentemente esse aluno fez, ele precisa se haver com a Justiça. Mas não a feita com as próprias mãos, não o espancamento. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, antes e acima de tudo, forma cidadãos. E atos como esse vão contra a formação que a gente quer dar para os nossos alunos.
Pode-se dizer, portanto, que houve infrações de lado a lado neste conflito ocorrido no ambiente da universidade?
Estamos falando aqui de violências. O regime nazista foi de uma violência como nunca se viu na humanidade. Por outro lado, não se pode combater a violação da lei com outra forma de violência. A universidade tem que abrigar cidadania, direitos humanos, convivência social, para enfrentar os desafios contemporâneos.
De tirar o sono:
Esses desafios estão presentes no campus?
O que ocorre na sociedade tem reflexo direto no corpo social da universidade. A polarização e a intolerância estão lá. A gente busca educar os nossos alunos para não agirem desta forma. Agora, é muito difícil. Temos atos de machismo. Fazemos campanhas, e os casos comprovados são punidos. Mas estamos vivendo em bolhas que se odeiam, que não querem conversar, porque acham que cada um tem a sua própria verdade. É preciso observar que a liberdade acadêmica, o pluralismo que temos e o pensamento crítico não significam que somos neutros diante de crimes, de ideologias que pregam a eliminação dos direitos, e também da violência contra pessoas.
Como está sendo encarada a repercussão do episódio?
As narrativas que a gente encontra são inúmeras. Há a de que ele teria sido agredido porque chamou um menino negro de macaco e puxou o cabelo dele, mas nada disso tem comprovação. São relatos das pessoas envolvidas. Não podemos dar credibilidade. Diante desse fato, e da nossa preocupação com outros que possam vir a acontecer, estamos buscando criar um conselho consultivo de humanidades. Temos na UFRJ grandes professores, estudiosos, pessoas de notório saber que vão nos assessorar, e, junto com campanhas e conversas com os alunos, fazer com que o problema se torne cada vez menor. Agora, isso não significa que toleraremos qualquer tipo de violência.
Como a UFRJ lida com essa realidade no dia a dia?
É um trabalho contínuo que nós estamos fazendo com nossos alunos, sempre levando em conta que somos reflexo da sociedade. Consolidei a ouvidoria da mulher na UFRJ. Episódios de machismo e até mesmo de misoginia ocorrem dentro da universidade. Há casos de assédio sexual. Acabamos de demitir um professor por causa disso. Somos um espelho da sociedade, estamos em situação melhor do que a de outros lugares, mas também temos os misóginos, machistas, antissemitas, nazistas. Porém, isso dentro de uma universidade não pode prosperar e nós temos todo um trabalho para que não só não prospere, mas que as pessoas reflitam sobre a gravidade do que estão fazendo ou dizendo.
União entre paramilitares e traficantes:
Quando o senhor menciona a preocupação com o acirramento dos ânimos, está se referindo à aproximação das eleições?
Estamos muito preocupados. Isso aconteceu hoje na UFRJ, mas pode ocorrer em qualquer universidade do país. Estamos conversando com os alunos, nos preparando. Na UFRJ já apareceram candidatos a deputado armados, dizendo que aqui só havia devassos, comunistas, com aquele comportamento clássico para ganhar likes e depois conquistar votos. Há preocupação muito grande de fazer com que nossos alunos, que são jovens, não respondam, repudiem essa atitude, mas não partam para a agressão física. Não estou falando do caso desse menino, que fique claro. Desse menino não sei nada ainda. Com a chegada das eleições, tememos que casos semelhantes se espalhem. Esse episódio, em especial, nos deixou muito tristes.
Mais lidas
-
1DEFESA
Caça J-35 chinês com revestimento prateado mina posição aeronaval dos EUA, diz mídia
-
2POLÍTICA
Augusto Cury entra no estúdio da Band e deve participar de debate
-
3TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
IT Forum abre edição de 35 anos com aposta em ecossistemas como nova força da inovação
-
4ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
5ESPORTE
Leila tira foto com enteado e camisa do Vasco antes do jogo do Palmeiras