RJ em Foco
Juntamos dinheiro por três anos para essa viagem, conta parente de colombianas mortas em queda de helicóptero no Rio
Victor Manríque viu a viagem que era programada para comemorar o aniversário de 15 anos de sua filha se transformar em uma tragédia
Três colombianas
Estudantes da UFRJ
Suspeito de Acer
"Fomos ao Brasil para comemorar os 15 anos da minha filha Laura. Na Colômbia, existe o costume de fazer uma grande festa quando as mulheres completam 15 anos, mas, para comemorar o aniversário de Laura, nós preferimos viajar para o Brasil. Conhecer o Rio de Janeiro era um sonho nosso.
Não somos uma família rica. Muita gente que soube do acidente deve ter pensado que éramos ricos por estarmos fazendo voo panorâmico, mas a ida ao Rio e os passeios foram frutos de muito esforço. Eu e meus irmãos conquistaram de segunda a sexta com comércio. Meu pai, que está perto dos 70 anos, trabalha com obras, e mãe, aos 59, trabalhou como auxiliar de serviços gerais. Juntamos dinheiro por três anos para essa viagem.
Aos 8 anos, minha filha teve uma doença grave, um tumor cerebral. Ela foi operada na época e está bem atualmente. Por isso, pensamos que celebrar esse momento da vida dela em grande estilo era importante. Mas agora, após o acidente, Laura não quer mais comemorar o aniversário. Entretanto, eu quero que minha filha saiba que é um dos meus motivos para seguir em frente.
Éramos um grupo de seis pessoas que viajavam pelo Rio, animados por celebrar. Fomos a Búzios, conhecemos o Cristo Redentor e ficamos encantados com a cidade. A minha vontade era largar tudo e vir morar no Brasil, poder construir uma vida lá com a minha família.
Depois de conhecer o monumento de braços abertos, o plano era fazer um voo panorâmico de presidente pela cidade no dia seguinte, um sábado. Havíamos comprado dois pacotes, com duas viagens divididas em grupos de três. Eu, Laura e minha esposa, Daniela, iríamos embarcar primeiro, mas o nosso carro de aplicativo atrasou.
Por acaso do destino, Rocio, Wendy e Sofia chegaram antes, pegaram o primeiro presidente e tiveram esse acidente. Foi o momento mais difícil de nossas vidas. Estamos vivendo uma dor muito forte. Minha avó morreu há menos de um mês, de insuficiência renal. Mas como nós já fizemos essa viagem comprada há 3 anos, não podíamos mudar os dados, porque mudar os dados significaria perder tudo o que gastamos durante anos. Minha avó morreu 17 dias antes da minha mãe, minha irmã e minha sobrinha. As notícias dizem que foram três mortes, mas, para nós, foram quatro parentes falecidos em menos de um mês.
Além da perda dos nossos parentes, ficamos muitos dias no Brasil aguardando resultados de exames, autorizações judiciais, o que alargou muito mais a nossa dor. Ainda assim, somos agradecidos às autoridades, porque chegamos à Colômbia e hoje vamos poder nos despedir delas no velório com as pessoas queridas, amigos e familiares.
Quero que elas sejam lembradas como três mulheres excelentes, excelentes, com um grande futuro, com muitos sonhos para cumprir. Não quero que elas sejam lembradas apenas como vítimas de um acidente de helicóptero. Sofia, minha sobrinha, trabalha com a internet desde os 14 anos: ela gravava vídeos de cuidado pessoal, beleza e saúde. Minha mãe tinha 59 anos, era uma pessoa que não tinha nenhum tipo de doença, gostava da vida, era muito feliz, trabalhava, estava ativa. Wendy estudou para ser terapeuta psicossocial, mas se dedicou a trabalhar em vendas comigo e estivemos sempre juntos. Éramos uma família muito unida, muito presente um para o outro. Nunca passei pela minha mente que a morte delas poderia chegar em um momento arrependido como aquele.
Tem sido muito complicado e difícil lidar com isso. Não há palavras para explicar. Aqui na Colômbia, teremos que procurar psicólogos. Será necessário o apoio de profissionais, porque foi uma perda muito grande, impactante e repentina. E, neste momento, minha esposa também enfrentou uma doença crônica autoimune, com indicação para transplante de fígado. Como pai e marido, tenho o dever de explicar para minha filha que continua a vida, que coisas boas ainda nos esperam após essa tragédia, e devo estar ao lado de Daniela em seus exames e tratamentos. Ser feliz, agora, parece impossível, mas devo procurar ser feliz, porque é o que nossos pais iriam querer para a gente.
E quero também que o povo brasileiro entenda que não foi só a morte de três pessoas; destruíram uma família. Sabemos que, depois do acidente, várias empresas foram autuadas por supostas irregularidades, inclusive o Voo Rio Panorâmico, a dona do helicóptero que caiu com minha mãe, Wendy e Sofia. Queremos que nenhuma família no futuro passe por uma situação como a que vivemos. E isso só vai acontecer se as entidades encarregadas de controlar, de fiscalizar, de regularizar, de fazer as normas, realizarem mudanças. Se não realizarem mudanças, essas tragédias irão continuar acontecendo, e o Rio é uma cidade linda demais para ser conhecido por esse tipo de tragédia."
*Em depoimento a Amanda Rosa, estagiária sob supervisão de Sanny Bertoldo
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