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Artigo: Linchamentos não são novidade no Rio de Janeiro

O que soa como um sinal inquietante de que a intolerância e o desprezo pela vida alheia ampliaram seu espectro

Agência O Globo - 25/08/2026
Artigo: Linchamentos não são novidade no Rio de Janeiro
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: OpenAI (GPT Image)

O linchamento, ocorrido no dia 11 de agosto deste ano, em Copacabana, não pode ser reduzido a um caso isolado de barbárie. Sua morte, perpetrada por entregadores e seguranças, nos obriga a refletir sobre o ambiente social e político em que vivemos. Nele, algumas pessoas passam a se considerar autorizadas a identificar suspeitos, julgá-los e aplicar-lhes a pena capital, que sequer existe no nosso ordenamento legal.

Preso em operação

Caso Cláudio Rafael:

Linchamentos não são novidade no Rio de Janeiro. Em maio de 2025, também em Copacabana, um homem foi espancado por, supostamente, mostrar suas partes íntimas para uma mulher. Há pouco mais de um mês, no Leme, outro homem se tornou suspeito de roubar o cordão de um turista e foi espancado. Essa nova ocorrência, em uma área nobre e intensamente policiada da cidade, contrasta com as situações historicamente observadas em favelas, nas zonas Norte e Oeste ou em outros municípios da Região Metropolitana. O que soa como um sinal inquietante de que a intolerância e o desprezo pela vida alheia ampliaram seu espectro.

Esse fenômeno não pode ser dissociado do ambiente político dos últimos anos. A retórica difundida por grupos de extrema direita, segundo a qual direitos humanos protegem criminosos, serve de senha para que a violência constitua uma resposta para administrar conflitos, ampliando socialmente a tolerância ao justiçamento privado. O que se coaduna com uma dimensão institucional. Durante os governos Wilson Witzel e Cláudio Castro, a segurança pública fluminense transformou-se em sinônimo de operações policiais e enfrentamento armado. Consequentemente, pouco se avançou na construção de políticas mais eficazes para lidar com conflitos sociais.

É nesse vazio que prosperam soluções privadas ou informais de segurança. E é também nele que a Prefeitura do Rio encontrou espaço político para criar uma força municipal armada, sua “tropa de elite”, ostentando, inclusive, armamento de maior poder ofensivo. Logo, muda-se a corporação ou esfera executiva, mas preserva-se a crença de que produzir segurança significa ampliar a capacidade de produzir violência.

O linchamento de Copacabana deveria servir de um chamado para tomarmos outra direção. Para incrementar a segurança pública, exigem-se instituições capazes de intervir nos conflitos antes que eles se convertam em violência. O que requer compromisso com prevenção e inteligência. Na ausência de tais premissas, há pessoas que se veem autorizadas a definir quem é suspeito e puni-lo. Disseminam-se, assim, o medo, a intolerância e o arbítrio.

O que aconteceu com Cláudio Rafael é mais do que um crime brutal. É um alerta sobre a sociedade que estamos nos tornando, naturalizando o tipo de Estado que, cada vez mais particularizado, dá as costas à cidadania.

*Lenin Pires é antropólogo, professor do Departamento de Segurança Pública da UFF e pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC)