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Após linchamento e morte de Cláudio Rafael, o serviço de segurança de rua em Copacabana será investigado

Delegado afirma que serviço prestado ao comércio por dois dos acusados da morte de ciclista era clandestino; reportagem do Fantástico revelou que vítima levou 63 pauladas, segundo laudo da perícia

Agência O Globo - 24/08/2026
Após linchamento e morte de Cláudio Rafael, o serviço de segurança de rua em Copacabana será investigado
- Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A investigação sobre o espancamento que resultou na morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, em Copacabana, expôs uma rede informal de homens que atuavam como “seguranças de rua” no bairro. Em depoimentos à Polícia Civil, dois dos acusados do crime revelaram ter sido contratados por um homem responsável por recrutar vigilantes para trabalhar na região. Essa estrutura será investigada pela polícia.

Para o delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP (Copacabana), a atividade desempenhada pelo grupo era clandestina. Segundo ele, a legislação que regulamenta a segurança privada não prevê a atuação de seguranças privados nas ruas.

- O termo mais correto é segurança clandestina. Existe uma lei federal, o Estatuto da Segurança Privada, e qualquer tipo de serviço fora desse regulamento é considerado uma segurança clandestina - disse Lages.

Quatro pessoas estão presas pela morte do ciclista, espancado após ser confundido com um ladrão de bicicleta — o veículo pertencia à sua irmã. As prisões foram mantidas pela Justiça no último fim de semana. Os seguranças Davi Santos Machado, o vigilante Jorge Luiz Ricardo Dias e os entregadores Ailton José da Silva e Felipe Eduardo dos Santos Silva serão indiciados por homicídio triplamente qualificado — por meio cruel, motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima. A investigação busca identificar um quinto acusado.

O delegado também ressaltou que, no caso investigado, a atuação dos seguranças ocorreu em espaço público. Cláudio Rafael foi abordado em uma calçada na Rua Barata Ribeiro e posteriormente agredido na Rua Felipe de Oliveira.

- A vítima foi abordada na calçada, na via pública — afirmou Lages. — Ninguém além do Estado pode prestar esse serviço. A segurança privada é somente intramuros, ou dentro do condomínio, ou dentro da residência, ou da porta do comércio para dentro. Então, segurança de rua não existe.

Em seu segundo depoimento, Davi Machado afirmou que trabalhava em uma lanchonete na Rua Barata Ribeiro. Segundo ele, eram cinco seguranças na rua, todos contratados pelo mesmo homem. Informou à polícia que telefonou para essa pessoa para avisar sobre a situação com a bicicleta de Cláudio Rafael e recebeu a orientação de fotografar o veículo.

Davi também mencionou participar de um grupo de WhatsApp chamado “Segurança Ativada”. Em seu depoimento, citou outro grupo, o “Segurança da Orla”, que seria usado “apenas para serviços extras”, contratados por um policial militar. O acusado, no entanto, não detalhou se o PM era administrador do grupo ou se participava diretamente da contratação dos seguranças. Já Jorge Luiz Dias, outro investigado, afirmou ter sido contratado para fazer a segurança de estabelecimentos na Rua Duvivier.

Uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, revelou que Cláudio Rafael levou 63 pauladas, de acordo com laudo da perícia. Imagens obtidas pelo programa mostram o passo a passo da barbárie, desde o momento em que a vítima saiu de casa, em Botafogo, até ser espancada em uma calçada em Copacabana. Pelo menos sete pessoas teriam se mobilizado na perseguição. Um funcionário de uma loja relatou que, pouco antes de ser abordado por Davi Machado, o ciclista lhe pediu um cigarro:

- Ele tinha entrado (na loja) pra pedir um cigarro, se eu poderia dar um cigarro. Aí eu falei que não tinha como, só pagando. Aí ele desistiu e foi para fora.

Uma das imagens mostra Jorge Luiz com a bicicleta da irmã de Cláudio Rafael na Avenida Atlântica, pouco depois de tomar o veículo da vítima na Rua Barata Ribeiro. Cruzando os vídeos, a reportagem conseguiu mostrar que Jorge Luiz acompanhou de perto o espancamento.

A irmã de Cláudio Rafael, Fabiana Motta Landeiro, afirmou que não deixará esse caso cair no esquecimento:

- Por mais que eles já estejam presos, tem que dar continuidade a todo o processo. Eu não vou parar, não vou desistir. Ele era muito protetor comigo, principalmente por ser sua irmã mais nova, mulher. Uma pessoa muito tranquila, muito doce. Ele falava com todo mundo, sempre alegre.