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Barbárie em Copacabana: em nove minutos de agressão, Cláudio Rafael levou 63 pauladas, diz laudo da perícia

Ele ficou 30 minutos agonizando até a chegada do Corpo de Bombeiros; foi socorrido no Hospital Miguel Couto, na Gávea, mas morreu horas depois, na madrugada do dia 12.

Agência O Globo - 24/08/2026
Barbárie em Copacabana: em nove minutos de agressão, Cláudio Rafael levou 63 pauladas, diz laudo da perícia
- Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Cláudio Rafael, de 37 anos, foi morto após ser submetido a uma sessão de espancamento em Copacabana, na Zona Sul do Rio. Levou 63 pauladas em nove minutos de agressão, conforme laudo da perícia obtido pelo Fantástico, da TV Globo. Novas imagens mostram a cronologia dos fatos e a participação dos seguranças de rua clandestinos Davi Santos Machado e Jorge Luiz Ricardo Dias e dos entregadores de aplicativo Felipe Eduardo dos Santos Silva e Ailton José da Silva, que já estão presos temporariamente. Eles são investigados por linchar a vítima após confundirem-na com um ladrão.

As novas imagens obtidas pelo Fantástico mostram Cláudio Rafael deixando a vila onde morava, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, às 22h26 do último dia 11 e chegando a uma loja de conveniência na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, 28 minutos depois. Rafael saiu da loja, cumprimentou dois homens e encostou na parede.

— Ele tinha entrado para pedir um cigarro. Perguntou se eu poderia dar um cigarro para ele. Respondi que não tinha como, só pagando. Ele desistiu e foi para fora — contou o atendente da loja, que preferiu não se identificar, ao Fantástico.

Às 23h21, o segurança Davi Santos Machado conversa com Rafael na frente da loja. De acordo com as investigações, ele perguntou a Rafael de quem era a bicicleta. O funcionário da loja confirmou que a pergunta foi feita três vezes, ao que Rafael respondeu dizendo que não era o dono. A bicicleta pertencia a uma das irmãs da vítima.

O funcionário prendeu a bicicleta com cadeado e, em seguida, Davi acionou outro segurança de uma rua próxima pelo celular.

Às 23h37, Jorge, o outro segurança, surge pela primeira vez nas imagens e, em seguida, monta na bicicleta e vai embora com ela. Rafael tenta impedir, e Davi tenta contê-lo. Segundos depois, Davi entra em um restaurante e volta com um porrete, que usou para atacar Rafael. Ao final, Jorge consegue deixar o local com a bicicleta e pedala até a praia, conforme as imagens. Após discutir com Davi e receber os primeiros golpes, Rafael atravessa a rua e segue para outra via.

Por volta da meia-noite, a informação de que havia um ladrão de bicicleta na área circulou entre os entregadores. Felipe e Aílton chegam ao local onde Rafael foi agredido. David os avisou que o suposto ladrão havia acabado de passar. Os entregadores encontraram Rafael na Rua Felipe Oliveira, sentado na escadaria de um prédio. Davi e um homem de camisa branca vinham logo atrás.

Felipe e Aílton chamaram Rafael de ladrão, e Davi chegou correndo para iniciar o linchamento. Um homem não identificado apareceu na cena e deu um chute. Rafael caiu no chão, já sem forças. Davi continuou dando pauladas nele e chutou violentamente seu rosto. Após nove minutos de brutalidade, o grupo se afastou. Ele ficou 30 minutos agonizando até a chegada do Corpo de Bombeiros. Foi socorrido no Hospital Miguel Couto, na Gávea, mas morreu horas depois, na madrugada do dia 12.

— A equipe ficou muito estarrecida com essas imagens. Todos os investigadores que tiveram acesso às imagens ficaram consternados com as agressões. Ele recebeu pauladas não só no corpo, mas também várias na cabeça. Ele ficou cerca de 30 minutos aguardando o socorro e percebemos que ele estava lutando pela vida, tentando se levantar até que o Corpo de Bombeiros chegou — afirmou Ângela Lages, delegada responsável pelas investigações.

Imagens das câmeras de segurança das ruas de Copacabana revelam que pelo menos sete pessoas se mobilizaram na perseguição a Cláudio Rafael.

— Todas as pessoas que presenciaram essa cena serão identificadas. Pretendemos ouvi-las, pois podem responder pelo crime de omissão de socorro. Embora não tenham agredido a vítima, elas presenciaram e nada fizeram — destacou Lages. — A sociedade não deve aceitar esse tipo de conduta (justiçamento). A Justiça é um monopólio do Estado. Somente as polícias devem agir na segurança pública, conforme previsto no ordenamento jurídico, e todos têm direito ao devido processo legal.

Em junho, a própria vila onde Cláudio Rafael morava já foi alvo de ataque de justiceiros. Um grupo de 20 entregadores arrombou o portão e promoveu um quebra-quebra à procura de um homem acusado de dar calote, afetando moradores que nada tinham a ver com o caso.

— Justiça com as próprias mãos não existe. O trabalho deve ser da polícia. Mesmo que estejam presos, é necessário dar continuidade ao processo e não deixar isso cair no esquecimento. Se depender de mim, não vou parar. Lutarei até o fim pelo meu irmão — garantiu Fabiana Motta Landeiro Hansen, 25 anos, irmã de Rafael. — Ele era muito protetor comigo, especialmente por eu ser sua irmã mais nova e mulher. Sempre foi uma pessoa tranquila, muito doce.

Prisões mantidas

No fim de semana, a Justiça do Rio decidiu manter as prisões temporárias dos quatro envolvidos no caso, após audiência de custódia. Eles estão custodiados no Presídio José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte da cidade.

Os juízes Rafael de Almeida Rezende e Laura Noal Garcia, da Central de Audiência de Custódia da Capital, consideraram que os mandados de prisão foram regularmente expedidos e permanecem dentro do prazo de validade, justificando que os fundamentos que levaram à decretação das prisões temporárias ainda são válidos.

— Recebemos com respeito a decisão que manteve as prisões temporárias, reconhecendo a importância da continuidade das investigações neste momento. Esperamos que, com o encerramento do inquérito policial, haja a completa individualização das condutas e a devida análise, pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário, da necessidade de conversão das prisões temporárias em preventivas daqueles contra os quais estejam presentes os requisitos legais — disse Bryan Rojenberg, advogado que representa a família da vítima.

'Você vai ficar rindo?'

Principal autor da agressão e encarregado de fazer vigilância clandestina de uma rua do bairro, Davi Santos Machado chegou a filmar o espancamento com um celular enquanto agredia a vítima com um cassetete. As cenas foram divulgadas em um grupo de conversas de aplicativo usado por entregadores.

O segundo segurança é suspeito de participação indireta no crime, pois retirou a bicicleta usada pelo ciclista do local onde começou a agressão, na Rua Barata Ribeiro. A Polícia Civil investiga a participação de uma quinta pessoa na morte do ciclista: um homem de casaco cinza com listras que aparece quando a vítima já estava sendo espancada, em um segundo momento, por Davi e os entregadores na Rua Felipe Oliveira. A sessão de espancamento foi flagrada por uma câmera de segurança.

O segurança Jorge Luiz Ricardo Dias afirmou à Polícia Civil que tentou advertir Davi Santos Machado, colega de trabalho, durante o espancamento. Cláudio estava caído na calçada e sem qualquer reação quando continuava sendo agredido. Após deixar o local, Jorge questionou Davi: “Você vai ficar rindo? Tem noção do que você fez?” Segundo seu depoimento, Davi não respondeu e continuou “rindo”, “achando graça”.

No depoimento à Polícia Civil, Jorge afirmou que foi Davi quem o chamou inicialmente para o local onde Cláudio foi abordado por causa da bicicleta e que o colega conhecia e convidou os dois entregadores que participaram das agressões. De acordo com Jorge, Davi estava “muito agressivo” e acredita que tenha sido ele quem deu ordens e incentivou os demais a atacar a vítima.

Ao chegar ao local, segundo relato dele, encontrou Davi, a bicicleta e Cláudio. Davi pediu que Jorge guardasse o veículo até a chegada do proprietário. Jorge contou que a vítima não permitia que levassem a bicicleta, mesmo afirmando que não lhe pertencia. Diante dessa situação, Davi começou a agredir Cláudio com socos.

Conforme relato de Jorge, Davi entrou em um bar e restaurante, pegou um cassetete e passou a desferir golpes contra Cláudio. A vítima conseguiu fugir do local, mas retornou logo em seguida para buscar a bicicleta. Davi ameaçou agredi-lo novamente.

Depois disso, Jorge seguiu pela Rua Belford Roxo em direção à Rua Duvivier, onde permaneceu até o fim de seu horário de trabalho.

Ao sair, ele disse que procurou Davi portando um cassetete preto que, segundo ele, costuma levar para casa. Na Rua Felipe de Oliveira, encontrou Davi e dois entregadores agredindo Cláudio.

Segundo Jorge, o ciclista já estava caído na calçada e sem qualquer reação quando era atacado pelos três homens. Ele gritou para Davi: “Davi, sai daí! Vai ficar batendo no rapaz? Olha, se aparecer uma viatura, você vai rodar!”, segundo o depoimento.

Jorge afirmou que Davi foi em sua direção e os dois deixaram o local juntos, seguindo pela Rua Belford Roxo. Durante o percurso, questionou novamente Davi: “Você vai ficar rindo? Tem noção do que você fez?”, mas Davi não respondeu e continuou rindo.

Jorge também afirmou que não agrediu Cláudio e, embora tenha tentado advertir Davi durante o espancamento, não solicitou socorro para a vítima, não acionando a Polícia Militar, a Polícia Civil, o Samu, o Corpo de Bombeiros ou qualquer outro serviço público.