RJ em Foco

Barricadas com explosivos encontradas pela PM na Cidade Alta tinham acionamento por controle remoto

Polícia Militar anunciou a ocupação da Cidade Alta. A permanência de um efetivo na comunidade faz parte de um plano para conter os confrontos na região

Agência O Globo - 22/08/2026
Barricadas com explosivos encontradas pela PM na Cidade Alta tinham acionamento por controle remoto
Barricadas com explosivos encontradas pela PM na Cidade Alta tinham acionamento por controle remoto - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Terceiro Comando Puro (TCP) revelou mais uma vez como transformou o Complexo de Israel — conjunto de cinco favelas na Zona Norte — em um território quase que inexpugnável. Durante uma operação realizada ontem, a Polícia Militar encontrou pelo menos cinco explosivos em carros e barricadas na Cidade Alta, em Cordovil. Os agentes foram surpreendidos pelas armadilhas, uma estratégia até então desconhecida. As barreiras estavam equipadas com detonadores que poderiam ser acionados à distância. Contudo, as equipes conseguiram isolar a área e remover os artefatos sem que houvesse explosões.

‘Tropa do Ódio’:

Vídeo:

A ação, que se estendeu às favelas Cinco Bocas e Pica-Pau, mobilizou 200 policiais e teve início de madrugada. A operação resultou em intenso tiroteio. Um suspeito morreu, e um motorista de ônibus que seguia a pé para o trabalho foi atingido no ombro por uma bala perdida. Douglas Santos de Souza foi socorrido por outro rodoviário e recebeu alta do Hospital Getúlio Vargas à tarde. Em decorrência do confronto, a Avenida Brasil e a Rodovia Washington Luiz foram fechadas temporariamente ao trânsito por questão de segurança, levando à suspensão das aulas em dezesseis escolas municipais na região.

— A nossa ação foi de extrema importância no sentido de demonstrar ao poder paralelo que as forças de segurança podem e devem se fazer presentes em qualquer território do Rio de Janeiro. Pudemos comprovar tamanha ousadia daqueles criminosos, que utilizaram explosivos com acionamento remoto, numa verdadeira estratégia de guerra — afirmou o secretário da Polícia Militar, Sylvio Guerra.

À tarde, a Polícia Militar anunciou a ocupação da Cidade Alta, com a permanência de um efetivo na comunidade, parte de um plano para conter os confrontos na região.

— Estamos instalando uma ocupação naquele território — divulgou o major Maicon Pereira, porta-voz da corporação, sem fornecer detalhes sobre a duração da medida ou o número de agentes empregados.

Guerra com o CV

Segundo o oficial, criminosos da Cidade Alta têm entrado em confronto, principalmente, com traficantes do Complexo da Penha e do Morro do Quitungo, ambos controlados pelo Comando Vermelho.

— Eles acabam deixando a população em risco. Estavam colocando até mesmo explosivos em drones, ou seja, há moradores que não estão envolvidos no confronto e que acabam ficando sujeitos a esses riscos — acrescentou o oficial.

O Complexo de Israel é controlado por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes do TCP. Além de ter batizado o conglomerado de favelas e espalhado pela região símbolos de Israel, ele transformou as comunidades em fortalezas. Uma de suas estratégias foi a abertura de valas profundas nas vias, como na Rua Jorge Coelho, em frente à estação Cordovil, que impede a passagem de carros da polícia, de rivais, prestadores de serviços públicos e moradores. Uma imagem registrada no local mostra um veículo quase caindo no fosso.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) demonstrou o funcionamento dos explosivos encontrados ontem.

— Esse é um acionador remoto para dispositivo explosivo improvisado que permite detonar uma carga à distância. Ele conecta (os polos) positivo e negativo nas terminações (do acionador), coloca (o equipamento) em um ponto específico e o aciona pelo controle remoto — explicou o policial.

‘Técnica de guerrilha’

Conforme a corporação, os artefatos estavam colocados em barricadas e em três carros no Complexo de Israel. Os dispositivos mostrados no vídeo foram retirados de uma barreira feita com pneus.

— É uma técnica de guerrilha; já somos preparados para isso — detalhou o major Pereira. — Encontramos cinco explosivos. Eles são incendiários e também podem lançar estilhaços, que podem machucar as pessoas a até dez metros de distância. Quanto mais próximo, maior o dano.

Para o escritor e especialista em segurança Alessandro Visacro, a adoção de novas táticas de combate demonstra uma expansão dos recursos do portfólio das organizações criminosas:

— Os grupos armados têm ampliado ao longo do tempo suas técnicas militares, e eles adquirem esse conhecimento, sobretudo, de forma empírica. O Rio vive um conflito de baixa intensidade urbana há muito tempo, e a gente se nega a admitir isso. E esses criminosos empregam técnicas que podem ser consideradas de terrorismo há longa data — afirmou. — Para entender o objetivo do uso de carros-bomba, é necessário saber qual era a carga destrutiva. Porque eles podem ter sido colocados para causar baixas em quem for retirar a barricada ou para prejudicar o veículo blindado.

*Ana Sobbe é aluna do curso Jornalismo do Futuro sob supervisão de Rafael Galdo

*Amanda Rosa é estagiária sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga