RJ em Foco

Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ acompanhará caso de homem morto ao ser confundido com bandido

Caso de Cláudio Rafael não é isolado. Em 2022, Moïse Kabagambe foi espancado até a morte na Barra.

Agência O Globo - 21/08/2026
Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ acompanhará caso de homem morto ao ser confundido com bandido
OAB-RJ - Foto: Reprodução / OAB-RJ

A Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) se colocou à disposição da família de Cláudio Rafael Landeiro Moreira para oferecer apoio jurídico. No entanto, independentemente de qualquer resposta, a comissão garantiu que irá monitorar o caso, conforme informou o presidente Sidney Guerra.

Barbárie em Copacabana:

Espancamento:

— Em situações de crimes violentos e desproporcionais, nós nos colocamos à disposição para dar toda a assistência jurídica correspondente aos fatos. Não podemos naturalizar nem banalizar um ato de violência como esse. Caso contrário, vamos ter a institucionalização da barbárie, o que não podemos admitir — disse Guerra, acrescentando que a comissão também acompanhará as providências que forem tomadas pela delegacia que investiga o caso, pelo Ministério Público e, posteriormente, pelo Judiciário.

Guerra ressalta que o caso de Copacabana, onde Cláudio Rafael foi brutalmente espancado até a morte ao ser confundido com ladrão de bicicletas, não é isolado.

— Infelizmente, essa é uma situação dramática que vivenciamos não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. Isso faz parte de um processo de violência sistêmica. Muitas pessoas partem para práticas agressivas e esquecem que estamos sob a égide de um estado democrático de direito e que devemos observar a lei e a ação dos poderes e instituições constituídas. Infelizmente, as pessoas têm optado por uma ação de vingança e pelas próprias mãos — afirmou.

‘Se eu dissesse que não existe medo, não seria verdade’

Segundo Guerra, esse tipo de comportamento reflete uma sociedade adoecida mentalmente e denota uma falta de educação no campo dos direitos humanos.

— É lamentável, e esperamos que haja uma conscientização por parte da sociedade como um todo, com maior capacitação em educação sobre direitos humanos. Muitas vezes, lidamos com situações de natureza psicológica, e não conseguimos entender como alguém em sã consciência pode proferir mais de 30 pauladas, levando à morte de uma pessoa que parecia ter algum problema psicológico. É uma situação dramática e triste, que clama por solidariedade — avaliou.

Um dos casos mais recentes registrados no Rio de Janeiro não resultou em espancamento ou morte apenas porque o alvo não foi encontrado. No final de junho, um grupo de entregadores invadiu uma casa na Rua Fernandes Guimarães, em Botafogo, na Zona Sul, arrombando a porta e destruindo parte do imóvel. A residência pertence a uma garçonete que não estava em casa na hora da invasão. Ela relatou que os invasores procuravam outro morador, mas entraram na casa errada ao confundirem a numeração dos imóveis.

Fios e cabos caídos viram armadilhas para pedestres:

A garçonete e o marido estavam trabalhando no momento da invasão e só perceberam o que aconteceu ao retornarem para casa. Durante o expediente, não tiveram acesso ao celular e não viram os avisos enviados pelos vizinhos em um grupo de WhatsApp. Os moradores encontraram a casa toda revirada e com a porta arrombada.

Segundo a moradora, o grupo buscava o proprietário do imóvel onde ela mora de aluguel. As numerações das casas são parecidas, o que gerou confusão entre os entregadores. Moradores afirmam que, antes da invasão, garrafas de vidro e pedras foram lançadas contra as casas da vila. A selvageria teria sido motivada por uma discussão entre o homem procurado e um entregador de aplicativo devido ao atraso na entrega de um pedido.

Justiçamento:

Um dos casos de maior repercussão envolveu a morte do congolês Moïse Kabagambe, espancado até a morte ao voltar ao quiosque onde trabalhou para cobrar dois dias de pagamento atrasado. O crime ocorreu em janeiro de 2022, na Barra da Tijuca. No final de 2023, o empresário Marcelo Rubim Benchimol foi agredido em Copacabana ao tentar ajudar uma mulher que estava sendo assaltada. Em agosto de 2024, o morador em situação de rua Luís Felipe Silva dos Santos foi morto a golpes de cassetete por Carlos Alberto Rodrigues do Rosário, condenado em fevereiro a 15 anos de prisão. O crime ocorreu na Praça Mauá, na Zona Portuária do Rio.

A psicóloga Andréia Dumas afirma que esse tipo de violência reflete o que ela chama de 'sociedade adoentada':

— Como psicóloga, o que mais me chama a atenção é como o caso de Cláudio Rafael foi interpretado, de forma banal, o que escalonou em um nível de violência extrema. Os agressores são um recorte da sociedade que vivemos, que possui extrema dificuldade de interpretação e que, de alguma forma, está tão adoecida que tenta fazer justiça com as próprias mãos. A situação é muito preocupante, e essas interpretações precipitadas atrapalham o comportamento — avaliou.

Ela destaca que, em casos como esse, os agressores, em vez de acionarem os agentes de segurança, acabam agindo impulsivamente e tomando o que consideram uma atitude de justiça com as próprias mãos.

Acidente no ar:

— Precisamos, enquanto sociedade, dialogar e ter mais paciência e calma para interpretar as situações e entender como podemos agir. É fundamental refletir sobre o ato em si que ocorreu. E, enquanto sociedade, devemos evitar julgar e agir em papéis que não nos cabem, para que ações violentas não aconteçam — sugeriu. — Precisamos recuperar a capacidade de parar, escutar e tolerar a dúvida. Devemos ver o outro como indivíduo e não como objeto, interpretando a pessoa diante de nós como alguém que tem uma história, uma vida, uma família.

A psicóloga também vê esses casos de agressão como um reflexo da escalada da violência e da impunidade, o que torna as pessoas acuadas e vulneráveis, a ponto de recorrer à violência como forma de proteção. Para ela, a saída está na conscientização social.

— É necessário trabalhar isso nas escolas e dentro das famílias, promovendo uma conscientização que prepare as pessoas para refletir e compreender seus sentimentos antes de agir, de modo que possamos ter mais cautela e diminuir a violência.