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Capoeirista e mãe solo, Isabela Beatriz salva operários arremessados em vendaval no Rio

Moradora de Duque de Caxias ajudou Leonardo Garcia, Vitor Silva e Wedson Silva Sales

Agência O Globo - 21/08/2026
Capoeirista e mãe solo, Isabela Beatriz salva operários arremessados em vendaval no Rio
Capoeirista e mãe solo, Isabela Beatriz salva operários arremessados em vendaval no Rio - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Isabela Beatriz Rodrigues, moradora de Duque de Caxias, de 37 anos, capoeirista e mãe solo de três filhos, foi quem salvou os três operários de um edifício na Barra, na Zona Sudoeste do Rio, no dia 29 de julho. No dia seguinte à ventania, O GLOBO contou o relato em uma entrevista com Leonardo Garcia, um dos operários salvos, ao lado de Vitor Silva e Wedson Silva Sales. Nesta sexta-feira (21), quando institutos de meteorologia preveem outro vendaval no território fluminense, Isabela conta o que aconteceu antes, durante e depois do episódio.

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— No condomínio, trabalham muitos rapazes. Naquele dia, eles estavam fazendo raspagem das paredes perto da varanda da minha patroa. Cedo, quando pararam um pouco, perguntei se iam sujar mais (risos). Minha patroa ia receber um irmão vindo dos Estados Unidos e estava preocupada com a sujeira. Então, perguntei: "Vocês vão sujar essa varanda até mais tarde?". Eles disseram que iam ficar só na pintura. Aí eu falei: "Cuidado com isso aí, hein! Como vocês conseguem ficar nesse negócio tão pesado?" — lembra Isabela Beatriz, ao narrar momentos antes de o vendaval surpreender os trabalhadores.

Leonardo Garcia, Wedson Sales e Vitor Silva, que trabalhavam numa obra num prédio de 23 andares do complexo Barra Bali, na Zona Sudoeste do Rio, viveram momentos de tensão com os ventos de mais de 100 km/h que atingiram a cidade: ficaram pendurados no equipamento e conseguiram se salvar se prendendo a uma das sacadas do prédio de mais de 20 metros, com a ajuda da esportista de pouco mais de um metro e meio. Leonardo Garcia, de 43 anos, contou que o momento foi de grande tensão. Enquanto isso, Isabela se preparava para agir. Não demorou para o andaime começar a bater nas paredes do sexto andar.

— Quando eu vi o andaime batendo, pensei: "Esses meninos ainda estão lá em cima com esse vento todo?" Fiquei naquele nervosismo, com preocupação. Fui para perto do muro da varanda. Lá a altura pega meu corpo quase todo — diz ela, que tem pouco mais de 1,50m, e prossegue: — (A mureta da varanda) fica abaixo do meu peito. Quando (o jaú) deu a batida mais forte, segurei e o menino ficou nervoso. Eu dizia "pula!", "pula!". Se o andaime continuasse batendo, talvez eles não conseguissem pular.

Veja vídeo:

A moradora de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, começa o expediente às 8h, em um trabalho com carteira assinada. Cerca de duas horas antes de bater o ponto, costuma se despedir dos três filhos: Ryan, de 13 anos, Igor, de 11, e Rayane, de 9. O pai das crianças mora em Maricá, na Região Metropolitana do Rio, e, segundo Isabela, “paga pensão quando pode”. Durante o período em que ela está no trabalho, na Barra, é o avô das crianças, pai de Isabela, quem fica responsável pelos netos.

Isabela conta que, no dia do vendaval que arremessou os operários do Edifício Orange Bali contra a parede, não hesitou em se prontificar a ajudar. Ela teria hesitado caso percebesse algum risco para si. Afinal, é mãe de três. Em seu perfil em uma rede social, registra com orgulho: “empregada doméstica, feliz por Deus me colocar em lugares certos na hora certa. Por salvar vidas!”. E foi exatamente isso que fez em 29 de julho. Quando um dos cabos do jaú se soltou e o equipamento ficou pendurado, Isabela o segurou, numa tentativa de evitar que a situação se agravasse. Naquele momento, o risco para os trabalhadores da Retoq Engenharia diminuiu.

— Eles estavam presos pela corda. Então, tiveram a reação de pularem, mas antes (o equipamento) tinha ficado pendurado. Eu soltei os ganchos de Leonardo e os do Wedson. O que tive mais dificuldade de soltar foi o do Vitor. E eu dizia: "O que vocês estão fazendo aí numa ventania dessa?" Mas é a vida em primeiro lugar. Depois que eles pularam, ficaram preocupados de terem me machucado. Eu só segurei. O importante era que eles tinham segurado. Depois, o vídeo foi para a internet e deu muita repercussão. E minha patroa ainda está chateada que a varanda está suja — relata.