RJ em Foco

Golpe da fé: polícia confirma sete vítimas de bando responsável por esquema de pirâmide que deu prejuízo de mais de R$ 1 milhão

Caso aconteceu em São Gonçalo e Niterói. Investigações confirmam a existência de sete ocorrências. Promessa era de lucro de 10% ao mês sobre os valores investidos

Agência O Globo - 18/08/2026
Golpe da fé: polícia confirma sete vítimas de bando responsável por esquema de pirâmide que deu prejuízo de mais de R$ 1 milhão
Polícia Civil do Rio de Janeiro

A Polícia Civil confirmou que pelo menos sete pessoas foram vítimas de uma organização criminosa especializada em aplicar golpes financeiros e lavar dinheiro por meio de um falso banco digital vinculado a uma igreja evangélica em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Conhecido como “Golpe da Fé”, o esquema funcionava em forma de pirâmide e prometia rendimentos mensais de 10% sobre o valor aplicado. A estimativa é de que a ação tenha causado prejuízo superior a R$ 1 milhão. Um pastor é investigado por suspeita de ser um dos responsáveis pela fraude.

De acordo com as investigações, algum tempo após a captação dos recursos, os rendimentos prometidos deixavam de ser creditados aos clientes. Nesta terça-feira, policiais da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD) deflagraram uma operação para cumprir 38 mandados de busca e apreensão em 21 endereços ligados a integrantes do esquema, no Rio, Niterói, São Gonçalo, Duque de Caxias e na cidade de São Paulo, na capital paulista. Os agentes apreenderam eletrônicos e documentos.

Segundo a polícia, o pastor Roberto Vieira Soares, da Igreja Apostólica Vida e Adoração, que inicialmente funcionava em São Gonçalo e atualmente está instalada em Niterói, usava sua posição para conquistar a confiança de fiéis e de outras pessoas de sua rede de influência. De acordo com as apurações, ele convencia as vítimas a investir em uma plataforma operada por uma empresa conhecida entre os investidores como “Banco do Pastor”.

— É um segundo momento de uma investigação na qual foi identificado que um pastor e seus familiares aplicavam uma série de golpes em fiéis e terceiros interessados. Era um esquema de pirâmide. Ele arrecadava valores sob a promessa de devolver tudo com 10% de lucro por mês. Só que depois de um certo tempo, os valores eram subtraídos e não voltavam mais. O objetivo da operação desta terça-feira foi desmontar essa estrutura financeira e ainda apreender bens e valores para compensar as vítimas — disse o delegado Vinícius Miranda, da DCOC-LD.

Segundo o delegado, ao aceitar investir suas economias, fiéis e outras pessoas captadas assinavam um contrato. No documento, a empresa responsável pelo golpe garantia o pagamento de 10% de lucro sobre o investimento em até 30 dias após a aplicação. De acordo com a polícia, a Justiça já determinou o bloqueio de R$ 1,1 milhão em contas bancárias de suspeitos de integrarem o esquema. Os agentes identificaram, até o momento, sete registros de ocorrência relacionados a vítimas da quadrilha.

Uma delas, segundo o RJTV, relatou em depoimento ter recebido a promessa de que todo o valor investido seria devolvido em 12 meses. Por se sentir confortável com o que havia sido combinado, fez dois depósitos, investindo um total de R$ 150 mil.

Já outra pessoa, responsável por aplicar R$ 120 mil, informou que o pastor teria relatado que quem não fosse membro da igreja receberia apenas 5% sobre o investimento, e não os 10% oferecidos aos fiéis.

Segundo as investigações, os valores captados das vítimas teriam sido direcionados para contas pessoais do pastor e para empresas ligadas a ele, incluindo negócios dos setores de construção civil, laboratório, consultoria contábil e instituição de pagamentos.

As apurações identificaram ainda uma conta de uma instituição de pagamentos que teria funcionado como uma espécie de passagem do esquema. Somente nessa conta, foram registradas mais de R$ 5,4 milhões em operações classificadas como estornos entre 2020 e 2025.

A investigação apontou ainda a participação de integrantes do núcleo familiar do principal suspeito de ser o responsável pela estrutura criminosa. A mulher e o filho dele figurariam como sócios de empresas utilizadas para movimentar recursos e realizar saques de grandes quantias em espécie.

A investigação indica ainda que a estrutura do grupo era mais complexa do que uma simples captação irregular de investimentos. Os suspeitos faziam uma divisão de tarefas entre captação de clientes, operadores financeiros e pessoas físicas e jurídicas utilizadas para administrar e movimentar o dinheiro das vítimas.

Segundo a polícia, alguns integrantes alegavam aos investidores que as contas estavam bloqueadas ou que a empresa alvo do investimento enfrentava problemas de fluxo de caixa. As justificativas seriam usadas para explicar o não pagamento dos lucros prometidos.

O quadro societário da empresa responsável pelo suposto banco digital também virou um ponto de atenção. O capital social declarado era de R$ 5 milhões, segundo a polícia, mas alguns dos sócios registrados não apresentavam capacidade financeira compatível com os valores envolvidos.

Segundo os agentes, esse cenário indica a possível utilização de “laranjas” para ocultar os verdadeiros controladores e beneficiários do negócio.

De acordo com a polícia, os suspeitos de participar do esquema, incluindo o pastor, são investigados por crimes de estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O Globo ainda não conseguiu contato com o religioso ou com sua defesa.