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'Caçadores da Lua': quem são os fotógrafos que percorrem o Rio atrás da imagem perfeita

Amigos se reúnem pelo menos duas vezes por mês para tentar registrar o satélite natural alinhado a cartões-postais da cidade; GLOBO acompanhou uma dessas ‘caçadas’, que teve Igreja da Penha como alvo

Agência O Globo - 18/08/2026
'Caçadores da Lua': quem são os fotógrafos que percorrem o Rio atrás da imagem perfeita
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Há meses, os amigos Bruno Gargaglione, de 45 anos, e Marcelo Samuel, de 52, acompanhavam por um aplicativo de geolocalização o movimento da Lua e procuravam o ponto exato do Rio de onde conseguiriam fotografará-la homologada às torres gêmeas da Igreja da Penha. Nesta segunda-feira, a equipa do GLOBO, capitaneada pelo fotógrafo Custódio Coimbra, foi até à Ponte Velha do Galeão, na Zona Norte, para acompanhá-los nessa “caçada”. A reportagem chegou ao local por volta das 20h30, quando uma neblina ainda encobria o satélite natural. Por lá, havia quem tivesse os olhos voltados para o mar e quem apontasse as lentes para o céu. Naquela noite, pescadores e fotógrafos estavam atrás de seus próprios troféus.

Rio:

Em Brasília:

Atentos à água e aos peixes que eram içados pelas varas, em longas linhas lançadas sobre a Baía de Guanabara, os pescadores olhavam curiosos para as câmeras suntuosas conectadas em tripés. Gargaglione e Samuel, por sua vez, dividiram a atenção entre o que dizia o aplicativo e a direção em que a Lua, alaranjada e em quarto crescente, deveria se por no horizonte, exatamente no alinhamento com o templo. Um vento forte cortava a ponte. Para os fotógrafos, era uma esperança de que as nuvens fossem levadas para longe.

Faltavam cerca de 20 minutos para o horário previsto quando a Lua começava, aos poucos, a aparecer cada vez mais intensa. Os equipamentos foram montados pouco antes, com menos de uma hora de antecedência.

Dez minutos antes do momento planejado com rigor matemático, Gargaglione acionou o time-lapse da câmera, uma técnica de vídeo que junta várias fotos tiradas em um mesmo lugar com intervalos regulares de tempo, enquanto Samuel andava de um lado para o outro com o tripé em busca do ângulo perfeito. A partir de dali, cada minuto importava.

O relógio avançava. A névoa já não existia. E, por alguns instantes, a única tarefa dos dois era esperar que os cálculos finalmente fossem confirmados. Na hora marcada, 22h14, lá estava o satélite encontrando a silhueta da igreja, numa troca para lá de emocionante entre a natureza e uma obra humana cravada no alto do morro.

Veja alguns dos resultados a seguir:

A ciência por trás da 'caça'

Para quem vê a fotografia pronta, o resultado pode parecer um daqueles acasos perfeitos: a Lua enorme, no lugar certo, atrás de um cenário conhecido da cidade. Para quem está do outro lado da câmera, porém, a imagem é resultado de planejamento, cálculos matemáticos nos aplicativos, deslocamentos e muitas tentativas que não dão certo.

Gargaglione trabalha em uma empresa de tecnologia da informação e persegue a Lua há seis anos. Nesse período, passei a procurar diferentes pontos do Rio e de outras cidades onde o satélite pudesse se encaixar em roupas, monumentos e outros elementos da paisagem. O grupo de fotógrafos do qual faz parte com Samuel nasceu de encontros ocasionais nas ruas e do interesse em comum pelo tema, e costuma organizar pelo menos duas saídas por mês.

A Igreja da Penha entrou mais recentemente na lista.

— É um posicionamento bastante difícil. Foram cerca de um ano de experimento e, há aproximadamente um mês, conseguiram o encaixe perfeito da Lua entre as duas torres — contorno.

A busca foi tão precisa que ele passou a conversar com o padre Sardinha, um dos sacerdotes da Igreja da Penha, e, quando possível, a pedir mudanças nas luzes que iluminam as torres para favorecer o registro.

O resultado não é, para ele, uma fotografia feita para colecionar curtidas ou vendas, por mais que publique nas redes sociais ou comercialize alguns dos trabalhos.

— Não faço para viralizar ou ganhar dinheiro, não é esse o objetivo — disse Gargaglione, acrescentando que a atividade, como um todo, acabou se tornando uma maneira de treinar o próprio olhar e liberar a tensão do dia a dia: — Sempre tem uma coisa diferente por aí. É uma terapia, uma válvula de escape mesmo. Me sinto realizado quando tudo dá certo.

Já Samuel é empresário e fotógrafo informalmente há três décadas. Cerca de dez anos atrás, durante uma viagem ao Pantanal com um amigo, apaixonou-se pela fotografia de vida selvagem. A Lua entrou em sua rotina depois, justamente quando encontrou Gargaglione. A busca pelo enquadramento perfeito com algo de vício, compare Samuel:

— É como se eu estivesse tomando uma cachaça. É uma realização.

Hoje, eles brincam que praticamente carregam um calendário lunar na cabeça.

A vanguarda de Custódio Coimbra

A obsessão por encontrar no céu um enquadramento que transforma a cena carioca em fotografia não começou de agora — tampouco a Igreja da Penha é uma descoberta recente. Fotógrafo há 47 anos, 36 deles no GLOBO, Custódio acompanhou a noite na Ponte Velha do Galeão como quem regular o próprio ofício sendo repetido por outra geração: ele também passou décadas perseguindo a combinação entre a Lua e os cartões-postais da cidade, e foi justamente atrás das torres da igreja da Zona Norte que viveram uma de suas "caçadas" mais lembradas.

Em 2010, ele chegou "em cima do lance" para fotografar a Lua cheia sobre a Igreja da Penha. Era a sua terceira tentativa, lembra. Para conseguir chegar ao ponto de onde faria o registro, cruzou a Linha Vermelha a pé, pela manhã, desviando dos carros e clicando pelo caminho.

É dele também a primeira foto de uma Lua colada ao Cristo Redentor, publicada em 1997, às vésperas da visita do Papa João Paulo II ao Rio. A imagem que se tornou uma espécie de marco para quem viria a repetir a busca anos depois, como Gargaglione e Samuel.

Como os dois fotógrafos mais jovens, Custódio também sabe que a paisagem lunar não se repete: o mesmo monumento pode ser visitado por algumas vezes até que a posição do satélite, as condições do céu e a perspectiva finalmente se encaixam na imagem procurada.

— O barato é que nunca sai a mesma foto. Gosto de fotografar em reprodução. Sempre tem algo diferente — diz.

Nas quase cinco décadas clicando no Rio, ele confessa que a vida da metrópole moldou seu olhar:

— Essa cidade me foi construída como fotógrafo. Você precisa observar e entrar na rotina para conseguir levar isso para uma foto.