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Educação estadual no fim da fila do Ideb: especialistas apontam os problemas nas escolas e as saídas

Reportagem percorreu escolas e ouviu alunos sobre os desafios dentro e fora da sala de aula

Agência O Globo - 16/08/2026
Educação estadual no fim da fila do Ideb: especialistas apontam os problemas nas escolas e as saídas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Aos 18 anos, o estudante André Monteiro divide seu tempo entre a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), as aulas no Colégio Estadual Max Fleiuss, na Pavuna, e os treinos de boxe, seu esporte favorito. O rapaz sonha cursar Educação Física em uma boa faculdade, mas teme não estar em condições de igualdade para disputar uma vaga, diante da fragilidade do ensino que recebe. Para compensar as deficiências, reforça os estudos em casa. Dilema semelhante enfrenta Ícaro Lucas de Oliveira, de 19, que cursa o último período da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Estadual Castelnuovo, em Copacabana, na Zona Sul. Sua queixa é a falta de professores. No ano passado, ele conta, não teve sequer uma aula de Química.

— Vai fazer diferença quando chegar a hora do Enem. A gente fica em desvantagem. É um desfalque. É essencial ter todas as matérias — cobra Lucas, que trabalha como entregador e também pretende cursar Educação Física.

Os colégios onde os dois estudam estão entre os que amargam as piores classificações no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A avaliação da rede estadual como um todo também não é das melhores.

Na última colocação

Criado em 2007, o Ideb é calculado a cada dois anos a partir do desempenho dos estudantes no Saeb (que avalia os conhecimentos de Português e Matemática) e das taxas de aprovação. A rede estadual do Rio ocupa a penúltima colocação, junto com Roraima, Amapá e Amazonas, à frente apenas do Distrito Federal. No ranking de aprendizagem, divide a última posição com o estado da Bahia.

— As aulas não têm sido suficientes (para aprender o conteúdo). Em Matemática, conto com a ajuda do meu irmão, que estuda Contabilidade. Nas outras disciplinas recorro a vídeos que encontro no YouTube — conta André.

Na avaliação de especialistas em educação pública, alguns fatores contribuem para o estado ficar tão mal posicionado nesses sistemas de avaliação. A indefinição de uma política pública de educação, a oferta reduzida de aulas de reforço e o número baixo de alunos no ensino integral — apenas 11% dos matriculados na rede estadual — estão entre eles.

Com cerca de 28 mil professores para mais de 605 mil alunos, a rede enfrenta carências de docentes, principalmente em disciplinas como Química, Física e Matemática. O mau desempenho nos sistemas de avaliação também aparece nos resultados do Enem, porta de entrada para o ensino superior: no último exame, as escolas estaduais apresentaram pontuação média de 487, enquanto as da rede privada, 587.

No Ideb, a nota do ensino médio na rede estadual no Rio foi 3,7, a segunda mais baixa entre todos os estados. Para efeito de comparação, o Paraná, primeiro colocado, obteve 5,1. A situação poderia ter sido pior, dizem os especialistas. É que, desde o fim do ano passado, uma mudança permite que alunos do 1º e do 2º ano sejam aprovados, mesmo sem obter a nota mínima em até seis disciplinas, com direito a aulas de reforço no ano seguinte. Os que estão no último ano do ensino médio podem ficar em dependência em até três matérias. A medida aumentou o índice de aprovação dos alunos, melhorando a nota do Ideb.

Carla Jucá, diretora-executiva do Movimento Educação Rio, chama o mecanismo de “aprovação automática disfarçada”.

— Se o Rio, mesmo com essas alterações, ficou em penúltimo, isso é mais uma demonstração de como regredimos na qualidade do ensino — avaliou.

Para Beatriz Lugão, da Secretaria de Assuntos Educacionais do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe), nem essa “maquiagem” dos dados ajudou a melhorar os índices do Rio:

— Não vamos sair desse fundo de poço se não tivermos uma modificação grande, e a primeira delas é a valorização do professor.

Um aluno do 2º ano do Colégio Estadual Senador Teotonio Vilela, na Praça Seca, reprovado em três disciplinas —Geografia, Matemática e Química — disse não saber que poderia contar com o reforço escolar. Mesmo assim, acha que teria dificuldade em acompanhar mais conteúdos.

— Perdi muitas aulas no ano passado porque precisei trabalhar — justificou o aluno, que não quis se identificar.

Andrea Ramal, doutora em Educação pela PUC-Rio, também faz críticas ao sistema de aprovação do estado:

— Reprovar sem dar outra oportunidade favorece o aumento dos índices de evasão. Mas, com essa política atual, vamos formar analfabetos funcionais com efeito de uma bola de neve. Essa deficiência terá consequências, não só na futura nota do Enem, mas também na perspectiva de ter um emprego mais qualificado.

Kauan de Souza, de 18, também aluno do 2º ano do Teotonio Vilela, que funciona no turno da noite no prédio de uma escola municipal, uma parceria muito comum na rede do Rio, reclama do desestímulo tanto de alunos como de professores:

— Temos algumas aulas monótonas e, por isso, muitos alunos, quando não faltam, começam a gritar, brincar, falar mais alto que o professor.

Para os especialistas, os resultados ruins nos sistemas de avaliação da rede são frutos da falta de continuidade dos projetos pedagógicos, com a sucessiva troca de secretários de Educação. Desde 2015, passaram pela pasta oito secretários, incluindo Luciana Calaça, no posto desde fevereiro.

— Não é apenas ter um projeto pedagógico. Mas instituir metas de melhoria individualizadas pelas unidades que levem em conta a realidade dos estudantes de cada comunidade — acrescentou Rita Jobim, diretora-executiva da ONG Parceiros da Educação-Rio.

Com um orçamento previsto de R$ 10,89 bilhões para este ano, a Educação não escapa das indicações políticas. Em maio, o então deputado Thiago Rangel (Avante) foi preso sob suspeita de atuar em fraudes sistemáticas na compra de materiais e contratação de serviços, incluindo obras de reforma, no âmbito da Secretaria estadual de Educação. Rangel, que renunciou ao mandato na semana passada, é aliado de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, que indicou a ex-secretária da pasta, Roberta Barreto. Bacellar está preso, suspeito de obstruir investigações. Ambos negam as acusações.

A pobreza justifica?

Com apenas 86 alunos em três turmas, o Colégio Estadual Acari, na Zona Norte, teve o pior desempenho no Saeb e ficou em antepenúltimo no ranking do Ideb entre as 1.236 unidades da rede estadual. A direção da unidade atribui as notas ao fato de a escola estar localizada numa região carente e com um dos piores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade. Para Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do movimento Todos Pela Educação, isso não justifica o mau desempenho.

— Não é desculpa. O Estado do Rio precisa de uma estratégia em rede: o nível central deve estabelecer diretrizes do que ensinar por bimestre e ajudar no treinamento dos professores para isso. É preciso também oferecer um bom material didático e processos de avaliação que identifiquem e ajudem os alunos com mais dificuldade a se recuperar o mais rápido possível — disse.

A babá Ivanete Azevedo Amorim, de 58 anos, aluna da EJA na Castelnuovo, tem a mesma opinião.

— Acho que devia ter uma triagem para avaliar o grau de dificuldade que o aluno está enfrentando. Fazer algo para melhorar o rendimento deles antes de reprovar — sugere a estudante, que voltou à sala de aula depois de 20 anos.

Ex-diretora global de Educação do Banco Mundial e presidente do Instituto Salto, Claudia Costin, diz ser necessário investir recursos na ampliação da oferta de tempo integral e na contratação de professores com dedicação exclusiva (40 horas), para ter um melhor acompanhamento dos estudantes.

Procurada, a Secretaria estadual de Educação informou, por meio de nota, que 14 mil professores passaram do regime de 18 horas para o de 30 horas semanais, a fim de aumentar a carga horária para os alunos. Para suprir carências de professores, tem oferecido vagas temporárias na rede e jornadas extras. A pasta negou que a progressão parcial configure uma aprovação automática.

Violência urbana, mais um fator na equação

O mau desempenho dos estudantes do ensino médio no Rio também sofre influência de fatores externos. Um deles é a violência. Pai de uma adolescente de 17 anos, que ingressou este ano no ensino médio no Colégio Estadual Max Fleiuss, na Pavuna, um marceneiro de 62 anos, que mora no Complexo da Pedreira, diz que adotou como regra ligar para a escola para saber se há algum tiroteio antes de a menina sair de casa.

— Quando tem uma operação policial na Pedreira, a tensão é ainda maior. Minha filha sofre de ansiedade, e esse clima de medo piora ainda mais o quadro — contou o pai.

Levantamento produzido em 2025 pelo Instituto Fogo Cruzado, em conjunto com a UFF e a Unicef, e apresentado na Alerj, revelou que houve mais de 2,2 mil interrupções no funcionamento de escolas de todas as redes devido à violência em apenas 18 meses. A educadora Andrea Ramal observa que a violência urbana afeta o rendimento do aluno, assim como sua estabilidade emocional:

— Um adolescente precisa estar focado em aprender. Para isso, não pode viver sempre com medo. Somam-se a isso as constantes suspensões de aulas por causa de tiroteios, que prejudicam a assimilação do conteúdo pedagógico. Há assuntos que precisam ser repassados mais de uma vez. Se um aluno perde dois ou três dias de aula por causa da violência, pode ser preciso repassar tudo do início, em vez de tratar de novos temas.