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Ensino médio estadual do Rio está entre os piores do país; especialistas apontam saídas

Propostas incluem ampliar o tempo integral, reforçar a contratação e valorização de professores, além de agir mais cedo na recuperação de alunos com dificuldades

Agência O Globo - 16/08/2026
Ensino médio estadual do Rio está entre os piores do país; especialistas apontam saídas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Diante de uma rede estadual com falta de professores, baixo desempenho dos alunos e uma das piores notas do país no ensino médio, especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam caminhos para tentar reverter o quadro da Educação no Rio. As propostas vão da ampliação do ensino em tempo integral e da contratação de professores com dedicação exclusiva à criação de metas específicas para cada escola, reforço imediato para alunos com dificuldades e definição mais clara do conteúdo que deve ser ensinado ao longo do ano.

Atualmente, a rede estadual conta com cerca de 28 mil professores para mais de 605 mil estudantes e enfrenta carência de docentes principalmente em Química, Física e Matemática. No Ideb, o ensino médio estadual do Rio recebeu nota 3,7, a segunda mais baixa do país. No ranking de aprendizagem, o estado divide a última posição com a Bahia.

Embora partam de diagnósticos diferentes, os especialistas convergem em alguns pontos: é preciso agir antes que as deficiências de aprendizagem se acumulem, dar mais estabilidade e melhores condições de trabalho aos professores e estabelecer uma política educacional que tenha continuidade. Veja o que cada um propõe:

Claudia Costin: mais tempo integral, dedicação exclusiva e professores efetivos

Ex-diretora global de Educação do Banco Mundial e presidente do Instituto Salto, Claudia Costin defende a ampliação das escolas em tempo integral. Hoje, apenas 11% dos alunos da rede estadual estão matriculados nessa modalidade.

A expansão enfrenta um obstáculo especialmente na capital: muitos colégios estaduais funcionam à noite em prédios da rede municipal. Para ampliar o tempo integral, portanto, pode ser necessária a construção de novas unidades.

Costin também propõe aumentar a oferta de vagas para que professores possam migrar para o regime de 40 horas semanais, com dedicação exclusiva a uma escola. A ideia é permitir um acompanhamento mais próximo dos estudantes e fortalecer o vínculo entre professores e comunidade escolar.

Outra proposta é priorizar a contratação definitiva de professores, em vez de recorrer a contratos temporários. Na avaliação da especialista, a maior estabilidade dos profissionais ajudaria a reduzir o troca-troca de docentes nas escolas e a fortalecer a relação com os alunos.

Gabriel Corrêa: detectar a dificuldade antes e agir rápido

Diretor de Políticas Públicas do movimento Todos Pela Educação, Gabriel Corrêa defende uma atuação em rede, coordenada pela Secretaria estadual de Educação. Para ele, o órgão central deve estabelecer diretrizes sobre o que precisa ser ensinado a cada bimestre, além de apoiar a preparação dos professores.

Corrêa também propõe que as dificuldades dos estudantes sejam identificadas durante o ano, e não apenas quando eles chegam ao fim do período letivo sem dominar determinados conteúdos. A partir desse diagnóstico, o aluno deveria receber reforço imediatamente, com material específico, para recuperar a aprendizagem o mais rápido possível.

Outra frente seria a oferta de bom material didático e avaliações capazes de identificar quem está ficando para trás.

Corrêa defende ainda a criação de metas individualizadas de desempenho, levando em consideração a realidade de cada escola. Para ele, seria necessário definir tecnicamente um plano de ação para melhorar a qualidade do ensino e oferecer assessoria aos professores para eventuais mudanças.

Ele também sugere padronizar o material didático usado pela rede. A medida facilitaria a adaptação de estudantes que precisassem mudar de escola.

— É preciso oferecer um bom material didático e processos de avaliação que identifiquem e ajudem os alunos com mais dificuldade a se recuperar o mais rápido possível — defende o especialista.

Rita Jobim: metas de acordo com a realidade de cada escola

Diretora-executiva da ONG Parceiros da Educação-Rio, Rita Jobim chama atenção para a necessidade de dar continuidade aos projetos pedagógicos — um problema numa rede que teve oito secretários de Educação desde 2015. Para ela, porém, não basta simplesmente ter um projeto pedagógico. É preciso estabelecer metas de melhoria específicas para cada unidade, considerando a realidade dos estudantes e da comunidade em que a escola está inserida.

Ao lado de Gabriel Corrêa, Rita defende, portanto, que as escolas tenham objetivos de desempenho individualizados, em vez de uma estratégia que desconsidere as diferenças existentes dentro da própria rede estadual.

Carla Jucá: mais recursos e ICMS Educação

Diretora-executiva do Movimento Educação Rio, Carla Jucá critica a progressão parcial adotada pela rede estadual, que classifica como uma espécie de “aprovação automática disfarçada”.

Entre as medidas defendidas por ela está a ampliação dos recursos destinados à Educação nos municípios por meio do ICMS Educação, mecanismo que leva em consideração indicadores educacionais na distribuição de recursos.

Beatriz Lugão: valorização, contratação e piso do magistério

Para Beatriz Lugão, da Secretaria de Assuntos Educacionais do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe), a recuperação da rede passa necessariamente pela valorização dos profissionais da Educação.

Ela defende a contratação de professores e o cumprimento do piso nacional do magistério, reivindicação da categoria. Na avaliação de Lugão, projetos pedagógicos terão pouco efeito se os profissionais responsáveis por colocá-los em prática precisarem trabalhar em vários turnos e até nos fins de semana para garantir renda.

Andrea Ramal: recuperação sem reprovação automática

Doutora em Educação pela PUC-Rio, Andrea Ramal critica tanto uma reprovação que não ofereça novas oportunidades aos estudantes quanto o atual sistema de progressão parcial.

— Reprovar sem dar outra oportunidade favorece o aumento dos índices de evasão — avalia.

Por outro lado, permitir que as deficiências de aprendizagem se acumulem pode fazer com que os estudantes terminem a escola sem dominar conteúdos básicos, prejudicando o desempenho no Enem e as chances de conseguir empregos mais qualificados.

Ramal aponta a necessidade de oferecer ao aluno uma oportunidade real de superar as deficiências de aprendizagem, sem que a solução seja apenas a reprovação ou a passagem para a série seguinte com lacunas acumuladas.