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Amendoeira: árvore trazida da Ásia para o Rio virou carioca e cobre de folhas e beleza, no inverno, as ruas da cidade

Apesar de estrangeira, a árvore se consolidou como integrante da identidade carioca

Agência O Globo - 15/08/2026
Amendoeira: árvore trazida da Ásia para o Rio virou carioca e cobre de folhas e beleza, no inverno, as ruas da cidade
Amendoeira: árvore trazida da Ásia para o Rio virou carioca e cobre de folhas e beleza, no inverno, as ruas da cidade - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Importadas de outros continentes para o Rio de Janeiro, as amendoeiras das ruas e praças renegam as origens estrangeiras e gostam de se afirmar como parte da identidade carioca. Apesar de peculiar, aos poucos a espécie conquistou espaço — e corações. Ela deixou suas raízes pela história do município, compôs projetos urbanísticos e virou tema de crônica do poeta Carlos Drummond de Andrade . Mesmo sem ser mais plantada em espaços públicos, é uma das protagonistas das ruas da cidade e se recusa a seguir o calendário: em lugar de perder as folhas no outono, escolheu o inverno para cobrir de vermelho, amarelo e marrom a cidade, enfeitando as ruas e encantando quem passa embaixo de seus arbustos.

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— É o momento em que aqui fica mais bonito. A gente tem essa sensação de que o vento vai se espalhando por toda a Praça Paris. Fica aquele monte de folhas avermelhadas no chão e os meus cachorros favoritas — afirmou o ator Ed Lopes , que vive na Glória há 18 anos e gosta de admirar a mudança na paisagem provocada pelas amendoeiras.

As amendoeiras chegaram de mansinho ao Brasil, há mais de 200 anos. As primeiras mudas da espécie vieram para o Rio de Janeiro com Dom João VI e a corte portuguesa, no século XIX, trazidas da Ásia e da costa do Índico africano. Muitas vezes, seus troncos foram usados ​​como lastro em navios, carregando folhas e frutos; no desembarque, a maioria foi deixada de renda ao mar e tomou conta da costa brasileira, o que influenciou um dos nomes da espécie: amendoeira-da-praia .

Caso Marielle:

As árvores cresceram acompanhando a transformação da colônia em império. Mas foi só no início do século seguinte, já na república, que foram para o centro do palco da cidade. A espécie integrou o projeto urbanístico do prefeito Pereira Passos , que revolucionou a cidade a partir de 1903 numa tentativa de igualar o Rio de Janeiro a Paris. Como o chão da cidade francesa fica repleto de folhas de toneladas quentes no outono, o governante quis o mesmo efeito aqui.

As árvores se integraram tão bem ao projeto de Passos que, ao longo dos anos seguintes, foram sendo plantadas em outros pontos do Rio. Um dos exemplos é a Praça Paris, na Glória, cercada por amendoeiras e coberta por estes dias pelas folhas vermelhas que dão ao local um ar ainda mais europeu.

Em 1956, Drummond escreveu "Fala, amendoeira" , uma crônica toda dedicada à árvore, publicada no "Correio da Manhã" :

"Serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes", diz um trecho do texto. Na crônica de Drummond, ele observa que uma amendoeira, dentre várias de sua rua, é a única que está com as folhas amarelas e vermelhas sendo despejadas pelo chão, enquanto as demais continuam verdes. "É como se o cronista, lhe perguntasse – Fala, amendoeira – por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe: — Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações".

Justiça

Se no inverno as folhas decidem se despedir das árvores e cobrir o chão, no restante do ano a amendoeira é amiga dos que procuram uma sombra, nos dias quentes ou nas tardes boêmias. São vários os bares espalhados no Rio com o nome de "Bar da Amendoeira" . O mais famoso, localizado em Maria da Graça, na Zona Norte, é tombado como patrimônio cultural da cidade.

Marcus Nadruz , coordenador da Coleção Viva do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, explica por que as amendoeiras decidem contrariar as estações do ano e perder as folhas no inverno, em lugar do outono.

— É uma planta exótica, não nossa. Tem uma distribuição distribuída da costa da África no Índico, ali naquela ilha de Madagascar , passando pelo sudoeste da Ásia até chegar no norte da Austrália. É um ambiente um pouco diferenciado do nosso. Apesar de pegar parte dos trópicos, ele tem uma diferença em temperaturas, em níveis de chuva — esclarece ele. — Por exemplo, no sudeste da Ásia tem um inverno muito mais rigoroso que o nosso. Aqui ela está crescendo numa área que não é a dela. Quando você pega uma planta exótica, colocada num local que não é o dela, como é o nosso caso no Rio, ela vai começar a se adaptar ao nosso clima. É uma planta que aqui normalmente perde as folhas no inverno, porque é quando esfria e, como uma proteção, ela perde as folhas.

Bonita por fora, caótica por dentro

Segundo o botânico, a árvore estrangeira não chega a ser considerada invasora nem ameaça a flora ou a fauna local. A amendoeira se adapta bem à natureza urbana e suas amêndoas servem até de alimento para animais como morcegos. Entretanto, o seu temperamento espalhafatoso pode ser um problema para as construções da cidade.

As amendoeiras têm raízes profundas que, ao longo de sua vida, se espalham pelo solo, levantando o concreto e, em alguns casos, invadindo até tubulações civis para colher água. Por conta disso, elas podem destruir calçadas e causar danos à estrutura de imóveis. É por conta de malefícios como aqueles que o plantio da árvore não é mais feito em novos projetos de urbanização da Fundação de Parques e Jardins do município, que dá preferência às espécies nativas.

— Eu, como botânico, não recomendoia para plantio, porque a raiz, além de profunda, se espalha muito. Ela levanta calçados, faz um certo estrago — afirma Nadruz.

Além dos problemas causados ​​por suas raízes, a alta na queda de folhas também altera a rotina de limpeza da cidade. Segundo o Inventário da Cobertura Arbórea da cidade, de 2015, 15% das árvores em áreas públicas da cidade eram amendoeiras, com a planta situada entre as espécies mais volumosas do perímetro urbano do Rio. A Comlurb está com um planejamento especial para o momento: a companhia informou que "está montando roteiros especiais, em circuitos, com tráfego exclusivo para a varrição e remoção de folhas".

*Estagiária sob supervisão de Sanny Bertoldo