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Novo normal: extremos climáticos exigem que prevenção passe a fazer parte da rotina no Estado do Rio

Protocolos devem ser encarados com naturalidade pela população, sobretudo em épocas de mudanças climáticas, quando eventos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes.

Agência O Globo - 08/08/2026
Novo normal: extremos climáticos exigem que prevenção passe a fazer parte da rotina no Estado do Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Ontem, pouco mais de uma semana após a forte ventania que provocou mortes e destruição na cidade, três alertas dos órgãos de Defesa Civil da prefeitura e do estado, dois deles disparados pouco depois das 5h, chamaram a atenção da população para a chegada iminente de chuva e vento forte ao Rio. O último aviso, também enviado por celular, veio na forma de um ruidoso alarme sonoro. Na véspera, à noite, já havia sido anunciada a suspensão das aulas em escolas públicas. Depois dos alertas e diante de medições que confirmavam a mudança do tempo, ainda foi decretado ponto facultativo para servidores públicos. Profissionais do setor privado foram orientados a voltar mais cedo para casa. Esse é o novo normal: especialistas em meio ambiente e meteorologistas frisam que a palavra de ordem é mesmo “prevenção”.

Manual para encarar o vendaval:

Ventos fortes no Rio:

Esses protocolos devem ser encarados com naturalidade pela população, sobretudo em épocas de mudanças climáticas, quando eventos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes. Moradores de todo o estado atravessam um período de adaptação rumo à conscientização que já é comum em outros lugares do mundo. Ontem, o Rio galgou os níveis 2 e 3 do estágio de atenção depois de ventos de mais de 84km/h atingirem a Costa Verde. Para efeito de comparação, no Japão, país suscetível a terremotos, ventos fortes e outros fenômenos do clima, quando alertas de nível 3 de gravidade são emitidos, a população com baixa mobilidade e os idosos prontamente se dirigem a pontos de apoio.

Renata Libonati, coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da UFRJ, e integrante do grupo de trabalho vinculado ao Ministério do Meio Ambiente para acompanhar os impactos do El Niño no país, celebra melhorias na gestão dos riscos.

— No Rio, nos desenvolvemos bastante em termos de protocolos. Desde 2023, a cidade tem o protocolo de calor (do COR, o Centro de Operações e Resiliência, da prefeitura). Foi o primeiro município a ter, e depois o primeiro estado. Para ventos fortes, há alertas, como vimos, mas talvez a população ainda não esteja acostumada, como já está com as sirenes de chuvas, por exemplo — diz a especialista.

Novo sistema de controle

Ao EXTRA, a prefeitura adiantou que estuda a criação de um novo sistema de controle, criado pelo próprio COR, para maior agilidade na medição de ventos extremos, além de um novo protocolo de prevenção.

— Sempre é preciso aprimorar nossos protocolos para adaptá-los a essa nova realidade climática. O objetivo é manter o Rio na liderança das cidades resilientes — afirma o prefeito Eduardo Cavaliere.

O sistema que já está sendo testado prevê o “cruzamento de informações de variados órgãos e estações meteorológicas para um maior controle da direção e da velocidade dos ventos extremos”, além da criação de um “cinturão de controle” das rajadas no entorno da cidade, informa a prefeitura.

A atenção ao planejamento do setor elétrico e às regras de urbanismo também é urgente. Marcelo Enrique Seluchi, meteorologista e coordenador de operações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), diz que não só o Sudeste, mas outras regiões brasileiras precisam se antecipar aos desastres.

— Seria interessante, ainda que não simples, analisar os padrões de construção, já que ocorrências de destelhamentos são muito comuns, verificar as árvores que apresentam algum tipo de problema e podem cair e fazer o mesmo com os postes. Isso não só no Rio, mas pelo menos na metade sul do país — afirma Seluchi.

Na Colômbia, país vizinho, no primeiro trimestre deste ano foram registradas 600 emergências associadas a chuvas em 328 cidades. Episódios de ventania foram mais de 70. Por lá, os protocolos da Unidad Nacional para Gestão do Risco de Desastres (UNGRD) sugerem medidas para antes, durante e depois dos fenômenos. Na Guatemala, na América Central, há campanhas de conscientização para a população que incluem adaptações estruturais, como a fixação firme de telhas e telhados, e instruções básicas, como a de evitar tocar ou se aproximar de cabos de energia elétrica.

— As pessoas precisam entender que protocolo é como um seguro: você contrata pretendendo não usar. Além de compreender, as pessoas precisam participar de treinamentos — frisa Seluchi.

O protocolo de calor da prefeitura do Rio e o plano de contingência da prefeitura de Petrópolis para chuvas intensas, ambos desenvolvidos e lançados entre 2022 e 2023 após tragédias nas duas cidades, viraram referência. No mesmo período, um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), criado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estabeleceu urgência para as adaptações por conta do clima.

Suzana Kahn, diretora da Coppe/UFRJ e ex-integrante do IPCC, conta que décadas atrás medidas já eram descritas:

— Entre as ações que o IPCC destaca estão o sistema de alerta precoce, o plano de emergência e evacuação, o fortalecimento de edificações e da infraestrutura das cidades, e manejo e arborização urbana, para reduzir a queda de árvores — exemplifica ela.

A conexão entre tecnologia, governos, ciência e sociedade é o caminho indicado por Renata Libonati.

— Num sistema de gestão de risco existem quatro pilares: o conhecimento do evento, das causas e dos impactos; o sistema de previsão e monitoramento; a emissão dos alertas; e a compreensão desses avisos. O principal desafio de qualquer gestão de risco é fazer as pontes de conexão entre pilares — diz.