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Setor de combustíveis do Rio é alvo de facções, milícias e corruptos: R$ 40 bi estão sob investigação
Levantamento do GLOBO mostra que, em dez meses, operações de órgãos estaduais e federais colocaram sob investigação ao menos R$ 40,09 bilhões em movimentações financeiras suspeitas
A intensa circulação de dinheiro em espécie, a diversidade da cadeia produtiva e o faturamento bilionário tornaram o setor de combustíveis um dos principais alvos do crime organizado no Rio. Segundo investigações das polícias Civil e Federal e do Ministério Público, esquemas envolvem facções criminosas, milícias, integrantes do jogo do bicho e agentes públicos interessados em dar aparência de legalidade a valores obtidos por corrupção e outras atividades criminosas. Levantamento do GLOBO aponta que, só nos últimos dez meses, nove operações colocaram sob suspeita mais de R$ 40 bilhões movimentados por redes de postos de combustível no estado.
A lista de crimes é extensa, da lavagem de dinheiro à abertura de empresas fantasmas em nome de “laranjas”. Ao todo, as ações cumpriram 109 mandados de busca e apreensão e 25 de prisão. Numa outra frente, com o objetivo de estancar a sonegação de impostos — outro problema grave e que pode acobertar mais condutas criminosas —, a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) identificou que 2.100 (95%) dos 2.205 postos do Rio apresentavam algum tipo de irregularidade. Só os que não cumpriam exigências do registro obrigatório sobre movimentação de combustíveis e volume de vendas eram 1.744, sobretudo na capital (636 postos), em Campos dos Goytacazes (86) e em São Gonçalo (81).
— É o setor que movimenta o maior volume de recursos e o que tem a maior carga tributária. Se uma empresa não presta as informações de movimentação de entrada e saída de combustíveis, fica difícil rastrear o caminho do dinheiro — diz o titular da Sefaz, Guilherme Mercês.
No domingo, O GLOBO já havia mostrado como tráfico e milícia no Rio sequestraram setores da economia popular, cobrando taxas e controlando a venda de produtos básicos, como o ovo e o tijolo, em áreas dominadas ou sob influência do crime. No caso dos combustíveis, operações como a Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, revelaram os tentáculos da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em esquemas bilionários de importações fraudulentas e de venda em postos espalhados pelo país. No Rio, as investigações desvendaram que grupos como o Comando Vermelho (CV) se infiltraram nesse filão, enquanto quadrilhas se especializaram em perfurar oleodutos e roubar cargas de combustíveis e lubrificantes.
— É um segmento que ainda movimenta quantidade significativa de dinheiro em espécie, o que dificulta o controle pelos órgãos de fiscalização. Além disso, existem diferentes formas de fraude, como adulteração das bombas, entrega de quantidade inferior à paga pelo consumidor e a venda de combustíveis adulterados por preços mais baixos — afirma Renan Mello, titular da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro.
A questão levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a se reunir este mês com órgãos estaduais a fim de discutir estratégias conjuntas de enfrentamento no âmbito do Escritório Nacional Antifacção (ENA).
Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), participou do encontro e contou que cerca de mil postos do estado estão sob suspeita de envolvimento com organizações criminosas — quase metade dos estabelecimentos registrados no Rio. Segundo ele, o setor passou por uma profunda transformação nos últimos anos em razão da entrada desses grupos:
— A situação se agravou muito. Antes, o principal problema era a sonegação fiscal. Hoje, há diversas modalidades de adulteração e fraudes operacionais, que vão do poço ao posto. É um setor que atrai não só pela possibilidade de lavar dinheiro, mas também pelo alto potencial de lucro. O crime obtém um retorno maior com combustíveis do que com o tráfico de cocaína.
Kapaz relata que a falta de fiscalização criou um ambiente favorável às facções:
— Por muito tempo, o problema não recebeu a devida atenção dos órgãos fiscalizadores, o que criou um ambiente de permissividade. No caso do Rio, ainda vemos operações que revelam a participação de agentes públicos. É urgente fortalecer a fiscalização e ampliar o monitoramento das brechas por onde esse dinheiro circula no sistema financeiro.
Operações recentes evidenciam que essa apropriação do setor pelo crime vai além das quadrilhas de ladrões de carga, do tráfico e da milícia. Este mês, a sexta fase da Unha e Carne, da Polícia Federal, mirou uma organização criminosa suspeita de usar mais de 80 postos da Região Metropolitana do Rio, em cidades como Niterói e São Gonçalo, para lavar dinheiro, com participação de agentes públicos. As investigações indicaram que o esquema movimentou R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Entre os alvos de busca e apreensão estavam o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), e o delegado da Polícia Civil e ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim, que negaram envolvimento no caso.
Dois meses antes, em maio, a quarta fase da mesma Unha e Carne prendeu o deputado estadual Thiago Rangel (Avante), sob a acusação de utilizar uma rede de postos de combustível para lavar dinheiro proveniente de um esquema de direcionamento de licitações e contratos públicos na área da Educação do estado. Com reduto eleitoral em Campos dos Goytacazes, ele é dono de ao menos 18 postos de combustíveis e de GNV.
Foi o parlamentar que tentou instalar, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), uma CPI do Gás, sob o argumento de investigar a prestação do serviço de distribuição de gás canalizado da empresa Naturgy no Rio. Deputados afirmam, porém, que a proposta tinha intuito diferente: pressionar a concessionária para impedir a instalação de medidores de GNV protegidos pelas chamadas “caixas verdes”, sistema que dificulta fraudes no consumo de gás. A proposição acabou arquivada. O GLOBO tentou contato com representantes de Rangel e não teve retorno.
Já no âmbito fiscal, a Sefaz afirma que as diferentes medidas de combate à sonegação contribuíram para aumento de 77% da receita de ICMS do setor de combustíveis no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025. O montante foi de cerca de R$ 2,4 bilhões agora, contra R$ 1,3 bilhão de abril a junho do ano passado.
Uma das iniciativas reforçou a fiscalização nas barreiras das divisas do Rio com São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, obrigando caminhões de combustíveis a passarem por inspeção presencial de auditores. Em junho, segundo a secretaria, a medida resultou em R$ 1,8 milhão em autos de infração, alta de 482% em relação ao mesmo período de 2025.
Além disso, em entrevista ao GLOBO este mês, o governador interino Ricardo Couto afirmou que Ricardo Magro, à frente do Grupo Refit (antiga Refinaria de Manguinhos), é o “empresário mais nocivo” do estado. Magro é considerado um dos maiores devedores de ICMS do Rio, e a Refit foi alvo este ano da Operação Sem Refino, feita pela PF.
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