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Rotina de tiroteio, mortes e medo: entenda a batalha entre chefões do TCP e do CV que aterroriza a Zona Norte

Peixão tenta expandir controle até área próxima ao território dominado por Doca, e disputas já têm ao menos oito mortos

Agência O Globo - 27/07/2026
Rotina de tiroteio, mortes e medo: entenda a batalha entre chefões do TCP e do CV que aterroriza a Zona Norte
Tiroteios e mortes: guerra entre chefões do CV e do TCP aterrorizam bairros da Zona Norte às margens da Av. Brasil - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A suspeita sobre o carro foi imediata. Policiais militares do 16º BPM (Cordovil) checaram a placa do GM Tracker cor vermelha e constataram que havia um registro de roubo do veículo. Na mesma hora, deram voz de parada, mas o motorista não obedeceu e acelerou. Começou uma perseguição pela Avenida Brás de Pina, às 3h20 de 21 de julho. Da parte dos agentes, ao menos 50 tiros de fuzis foram disparados, como consta na dinâmica narrada na delegacia — não há informações sobre quantos tiros partiram da SUV perseguida. O confronto seguiu até a Avenida Vicente de Carvalho, onde ela bateu num poste, próximo à Rua Ápia. Ao se aproximarem do automóvel, os agentes viram que havia quatro homens armados dentro dele. Apenas um sobreviveu.

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'Taxa da bala':

Os mortos foram identificados como Caio Cesar da Silva Sant’Anna, o Caio do Quitungo, Liandson da Silva Baraúna, o Lomão, e Jonathan da Silva Vilela, o Jota. E eles não são os únicos que tombaram em confrontos que, nas últimas semanas, têm aterrorizado bairros da Zona Norte carioca como Cordovil, Brás de Pina e Vigário Geral, todos perto da Avenida Brasil e de um dos principais ramais de trem do Rio.

Por trás desses dias e noites de medo, está novamente uma batalha por território entre o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), opondo chefões das duas facções. Ontem foi mais uma tarde de conflitos. Segundo relatos, bandidos do CV tentaram invadir a Cidade Alta, em Cordovil, e Cinco Bocas, em Brás de Pina, favelas sob o jugo do TCP no Complexo de Israel. As polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal tiveram que reforçar o patrulhamento na região.

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Tinta e Dourado no foco

Na perseguição do último dia 21, o único sobrevivente foi Rychardy Victor Azevedo dos Santos, o Mato Velho, de 19 anos. Havia contra ele um mandado de prisão em aberto, fruto da investigação que desencadeou a megaoperação na Penha e no Alemão, em 28 de outubro do ano passado — a mais letal do país, com 122 mortos. Os PMs encontraram com o jovem uma pistola 9mm, escondida na cintura, e o prenderam pelo flagrante. Na última quinta-feira, após passar por audiência de custódia, a situação prisional dele foi mantida.

O grupo, segundo a polícia, estava num “bonde”, saindo do Morro da Fé, no Complexo da Penha, onde os integrantes moravam, e indo para o Quitungo, em Brás de Pina. Ambas comunidades são dominadas pelo CV e, no último mês, tornaram-se parte do contexto das disputas diárias entre a facção e a rival, o TCP. Em apenas 10 dias, ao menos oito suspeitos morreram — sete eram do CV. Uma mulher, Karolaine Nascimento Neves, de 28 anos, também foi morta durante um ataque do TCP nas comunidades da Tinta e do Dourado, em Cordovil. Essas favelas, afirmam fontes ao GLOBO, são o motivo central dos confrontos.

Relíquias das favelas:

Historicamente, as duas pequenas comunidades sempre foram alvo de disputa de ambas as facções. Reportagens no início dos anos 2000 já narravam mudanças constantes no grupo criminoso por lá. No mínimo desde a pandemia, porém, elas são chefiadas pelo CV. A questão é que, recentemente, o TCP tenta virar o jogo para avançar no território, com investidas que puseram o chefe da quadrilha das duas favelas na berlinda.

O bandido em xeque é Adilson Gomes da Hora Júnior, o Nico, de 51 anos. Membro antigo da organização, ele foi preso em maio do ano passado por agentes do 16º BPM e, atualmente, está no Complexo de Gericinó, em Bangu, de onde ele continuava a dar ordens para se manter à frente do bando.

Apesar do tempo no CV, Nico não é bem quisto pelos outros chefes, como Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, à frente do Complexo da Penha — integrante da cúpula da facção, ele é apontado como um dos responsáveis pela expansão do Comando Vermelho no Rio. O desentendimento é tamanho que, na última quinta-feira, Doca destituiu o traficante da hierarquia nas favelas de Tinta e Dourado. A decisão aconteceu três dias após um aviso: Nico deveria segurar as investidas do TCP, senão, sairia do comando das duas comunidades. No lugar dele, foi escalado Bruno da Silva Souza, o Tiriça, conhecido pelo perfil de guerrilha. É ele quem coordena, por exemplo, as invasões do CV no Campinho e Fubá, também na Zona Norte.

Cinturão do TCP

Nesse mesmo dia, um áudio de Tiriça assumindo o controle em Cordovil vazou nas redes sociais. Segundo a polícia, a gravação é oficial.

“Boa noite. Quem está falando aqui é o Tiriça. É só para orientar os moradores mesmo. Não tem essa de alemão, não; de paz, não, entendeu? A visão que vocês tiverem sobre onde tem TCP é para me avisar. Pode me chamar no privado. A gestão mudou. Agora, quem responde pela firma é o Tiriça, o Doca. Quem tá insatisfeito com alguma coisa, entra em contato. [...] Eu sou bate e explode. Acabou o caô. A bala vai rufar mesmo. Dourado, Tinta, é tudo CV. Os policiais estão indo? Nós vamos pagar, vamos entrar na sintonia”, disse ele no áudio.

No front rival, o início dos confrontos partiu de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, representante máximo do TCP no Complexo de Israel. Ele agiu motivado pela posição estratégica de Tinta e Dourado: ficam a um minuto de distância de carro da Cidade Alta e de Cinco Bocas, duas das cinco comunidades do complexo, e coladas ao Quitungo, cobiçada por Peixão como uma possível porta de entrada de seu poderio na região da Penha. Se conquistar essas áreas, o TCP fecharia um grande “cinturão” de favelas na Zona Norte.

A primeira morte orquestrada por Peixão que impactou a disputa aconteceu em maio: Geovane Ximenes Araújo, chefe do Quitungo. Quem o sucedeu foi Caio César, morto na perseguição do dia 21. Agora, o comando é de Vitor da Conceição Campos, conhecido por Cantor.

— Peixão começou sem invadir. Mandava traficantes atacar Tinta e Dourado e, assim, mataram quase todo mundo da boca. Com essas baixas, o Doca falou para o Nico dar um jeito: Doca mandaria fuzis, enquanto Nico deveria conseguir gente. Aí, o CV começou a tentar segurar a região, e, desde então, tem sido confronto todo dia. Nico não estava conseguindo proteger a área e foi retirado. Imagino que agora fique pior, porque o Tiriça comanda um grupo especializado em guerra — explica uma fonte.

A proximidade do Complexo de Israel — composto também pelas comunidades Pica Pau, Parada de Lucas e Vigário Geral — é facilitada pela linha férrea de Brás de Pina. É por baixo dela, no final da Avenida Schultz Wenk, que os traficantes do TCP chegam à Tinta e ao Dourado.

Protetor solar:

— Território hoje é dinheiro. Os traficantes não estão interessados só na venda de drogas. Exploram os comerciantes, cobram taxa e forçam o morador a adquirir os serviços deles, como a internet, o gás. No caso de Cordovil, além de aumentar a arrecadação com a conquista das comunidades, o TCP fica próximo do Quitungo e do Guaporé, favelas do CV. O Peixão quer chegar à Fé e a Sereno, na Penha. Mas sabe que ali o Doca reage rápido. Então, para mim, ele está tomando primeiro o que é mais fácil, para depois chegar a alvos maiores — completa um policial.

Satisfeito com a situação confortável que estava, Peixão teria até organizado uma festa, no dia 13, para comemorar os 19 anos da tomada do Complexo de Israel. Nas redes sociais, vídeos da celebração mostram um local a céu aberto lotado, com um palco cercado de painéis de led e fogos de artifício com efeito cascata. No domingo, o CV revidou. Alvos do ataque, Cidade Alta e Cinco Bocas são fortalezas de Peixão.

De Costa Barros à Tijuca

Conflitos entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro afetam ainda outras áreas da Zona Norte nas últimas semanas. Nos últimos dias 18 e 19 de julho, tiroteios assustaram moradores do Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho. Quatro pessoas morreram, entre eles Maiky Brian dos Santos Silva, de 16 anos, lutador de kickboxing profissional. Segundo relatos em redes sociais, as mortes foram consequência de uma invasão de criminosos do TCP ao morro, sob controle do CV.

Na região de Costa Barros, no dia 20, uma equipe de garis da Comlurb ficou no meio de um tiroteio no Complexo do Chapadão, dominado pelo CV. Há anos ocorrem confrontos no Chapadão com traficantes do TCP abrigados no Complexo da Pedreira.

Já na Tijuca, os tiroteios ocorreram anteontem. O comerciante João José da Silva, de 80 anos, morreu ao ser atingido por uma bala perdida na comunidade Chácara do Céu, dominada pelo TCP e que sofre tentativas de invasão do CV.