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'Se não fossem as câmeras, eu estaria preso até hoje', diz jovem solto pela Justiça após quase dois anos na prisão
Imagens das câmeras corporais desmontaram a versão dos policiais, e o TJRJ concluiu que não havia provas para manter a acusação
Quase dois anos depois de ser preso durante uma perseguição em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, Renan dos Santos Nascimento Silva, de 21 anos, diz que ainda tenta acreditar que poderá retomar a vida. Solto por decisão da Justiça nesta semana, após o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) concluir que não havia provas suficientes para sustentar a acusação, ele atribui a liberdade a um único fator: as imagens das câmeras corporais usadas pelos próprios policiais.
Câmeras corporais desmontam versão de PMs.
— Se não fossem essas câmeras, eu provavelmente estaria lá dentro até hoje. Ninguém ia acreditar na gente. Minha vida foi interrompida. Fiquei dois anos preso, mas agora não quero sair de casa, com medo. Quero ficar em paz, andar com a minha família. Só quero trabalhar e recuperar o tempo que perdi — afirmou Renan, em entrevista ao GLOBO.
Na quinta-feira, a 8ª Câmara Criminal do TJ-RJ decidiu, por unanimidade, retirar Renan, Douglas Mendes da Silva e Alessandro Soares Bandeira da acusação de tentativa de homicídio contra dois policiais militares. Renan e Douglas tiveram a prisão revogada. Alessandro continuará preso porque responde a outra acusação.
A decisão foi tomada após os desembargadores entenderem que a investigação não reuniu provas para demonstrar que os ocupantes do veículo dispararam contra a viatura. O relator do caso destacou que não houve perícia no local, nem nos veículos envolvidos, e que a arma que, segundo a acusação, teria sido usada pelos jovens nunca foi encontrada.
Um relatório técnico elaborado pelo Projeto Mirante, iniciativa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni-UFF) em parceria com núcleos da Defensoria Pública do Rio e de São Paulo, analisou quadro a quadro as imagens das câmeras corporais dos policiais e concluiu que o tiro que atingiu o retrovisor da viatura partiu da arma de um dos próprios agentes.
Renan lembra que, na madrugada de 28 de outubro de 2024, voltava de uma festa com os amigos quando a perseguição começou. Na época, tinha 19 anos e diz que o grupo sequer percebeu que a viatura tentava fazer uma abordagem porque o som do carro estava alto. Segundo ele, os primeiros sinais da ação policial foram os disparos.
— A gente estava voltando para casa. Eles encostaram na nossa frente, mas, como a gente não devia nada, continuou seguindo normal. O som do carro estava alto, então a gente não escutou nada. De repente, começaram os tiros. Só depois ligaram a sirene, mas a polícia já estava atirando e empurrando o nosso carro com a viatura. Quando percebi que estava sendo alvejado, só pedi a Deus para não morrer. Depois, fiquei sabendo que foram 25 tiros — relembra.
Segundo ele, o grupo sequer percebeu, inicialmente, que a polícia tentava realizar uma abordagem. A perseguição durou cerca de dois minutos e dez segundos, de acordo com a reconstrução técnica. O relatório aponta que, nesse intervalo, um dos policiais efetuou ao menos dez disparos de fuzil contra o HB20 onde estavam os quatro jovens.
Os quatro ocupantes do carro foram baleados. Levados ao hospital sob custódia, acabaram presos em seguida. Pablo Roberto da Silva Barbosa não resistiu aos ferimentos. Desde o início, Renan nega que houvesse qualquer arma dentro do carro.
— Nós não tínhamos nenhuma arma. Se tivesse arma no carro, eles iam pegar. Como é que nós vamos atirar no carro deles sem arma? Pode ver no vídeo. Eu já me jogo no chão, baleado. Eles perguntam: "Cadê a arma?". Eu respondo: "Que arma?". Não tinha arma nenhuma. Eu já estava com dor, baleado.
As imagens das câmeras corporais registram o momento da abordagem após os disparos. Segundo Renan, elas mostram que os próprios policiais perguntam onde estaria a arma. O relatório técnico também concluiu que nenhuma arma foi localizada durante a revista no veículo, com os ocupantes ou ao longo de todo o trajeto percorrido durante a perseguição.
Para Renan, porém, a decisão da Justiça não apaga os quase dois anos passados na prisão. Ele afirma que perdeu momentos importantes da vida em família e teme que o período atrás das grades continue pesando, principalmente na busca por emprego.
— Perdi muita coisa. Sou trabalhador. Perdi família, perdi enterro de tio, não pude ver ninguém. Quando soube da decisão, fiquei feliz, mas passei três dias sem dormir e sem comer. Só quem passa por aquilo sabe. E ainda tem o preconceito. Vou procurar emprego e vão olhar minha ficha, ver que passei pela cadeia e achar que sou mau elemento. Eu só quero trabalhar e ganhar meu dinheiro — desabafou Renan.
Para Márcia Valéria, mãe de Renan, a esperança da família sempre esteve nas imagens das câmeras corporais. Ela diz que acompanhou a prisão do filho acreditando que as gravações mostrariam o que, segundo ela, aconteceu naquela madrugada.
— Foi um sofrimento esse tempo dele preso. A gente estava esperando essas câmeras. Igual a ele inocente, tem vários lá passando por esse sofrimento. Nunca pensei que passaria isso na minha vida, eu só sabia chorar. Agora ele vai procurar emprego e quem vai contratar? Vão olhar a ficha dele. Eles têm que limpar a ficha do meu filho — relatou a mãe de Renan, que acompanhou toda a tramitação do processo.
Além de revogar a prisão de Renan e Douglas, a decisão do TJRJ retirou os três réus da acusação de tentativa de homicídio contra os policiais. O processo continuará na Vara Criminal em relação aos demais crimes apontados pelo Ministério Público. Paralelamente, o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), da Defensoria Pública, move uma ação para responsabilizar o Estado pela morte de Pablo Roberto da Silva Barbosa.
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