RJ em Foco
Aluguel alto no Rio é reflexo da menor oferta de imóveis; Zona Sul concentra bairros mais caros
Levantamento do Secovi Rio aponta queda de 30,4% nas ofertas de aluguel tradicional na cidade
Quem procura lugares para morar no Rio já deve ter sido acometido pela sensação de que tudo está caro. E o setor confirma que essa é a realidade. O valor dos aluguéis está em alta na cidade, fenômeno que pode ser explicado, entre outros motivos, pela menor disponibilidade de imóveis no município. Em três anos, a redução de ofertas é de 30,4%, segundo o Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Condomínios Residenciais e Comerciais (Secovi Rio).
A análise leva em conta informações de mais de 30 bairros, justamente aqueles em que há amostragem mínima de ofertas, o que permite gerar estatísticas. No último mês de junho, havia 7.093 ofertas de imóveis para aluguel residencial tradicional no Rio, enquanto, em junho de 2023, o número era de 10.193.
O vice-presidente de Locação e Comercialização Imobiliária do Secovi-Rio, Leonardo Schneider, explica que a pandemia é considerada um divisor de águas no setor. Após o período de isolamento sanitário, muitas pessoas passaram a trabalhar de forma remota ou híbrida, o que fez a busca por mais conforto (e não a proximidade do trabalho) se tornar mais presente.
Ele também menciona que, nesse período, as plataformas de aluguel popularizaram fichas de análise digitais, o que acelerou o processo e o tornou mais seguro. Por outro lado, a taxa básica de juros (Selic) acima de 14% afastou as pessoas de financiamentos de imóveis próprios.
— Tudo isso está aquecendo o mercado. Estão alugando mais, e não há novos imóveis focados na locação. Isso faz com que os estoques de locação sejam consumidos — explica.
Mas outro ingrediente é adicionado nessa receita para o encarecimento: o crescimento das plataformas de aluguel por temporada. No ano passado, o Airbnb movimentou quase R$ 21 bilhões no estado, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas.
Marco Freitas, diretor de Condomínio e Locações da Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi), lembra que cada vez mais síndicos e conselheiros buscam a instituição em busca de ajuda sobre como tratar da modalidade nos condomínios residenciais.
— A gente não tem uma capacidade de entrega de novos produtos na mesma demanda de procura, o que aumenta o valor (dos aluguéis) — analisa o diretor da Abadi, que recorda outro fator: — A quantidade de turistas tem aumentado na cidade, o que também impacta na aquisição de imóveis, sobretudo na Zona Sul, por não-residentes. Nosso dinheiro lá fora vale menos. Os estrangeiros acabam adquirindo um imóvel, que utilizarão quando virem ou transformarão em aluguel por temporada.
Com menor oferta, o valor dos aluguéis disparou. O levantamento do Secovi Rio mostra que, em junho deste ano, o valor médio do metro quadrado para locação no Rio era de R$ 56,28, preço 18,2% maior que no mesmo mês de 2024 (até onde vai essa parte do estudo), quando o metro quadrado custava R$ 47,62.
A situação é bem diferente da vivida entre 2017 e 2020, por exemplo, quando, após Copa do Mundo e Olimpíada, o Rio tinha um grande número de imóveis disponíveis para aluguel. Muitos acabavam nessa situação quando seus donos não conseguiam vendê-los, primeira opção à procura da valorização propiciada pelos grandes eventos.
Entre os dez bairros com aluguel mais caro do Rio, oito estão na Zona Sul. O Leblon é o primeiro da lista, com metro quadrado para locações residenciais a R$ 129,10, seguido por Ipanema (R$ 124,97), Lagoa (R$ 89,64) e Jardim Botânico (R$ 82,20).
E foi justamente fugindo dessa realidade que o empresário Alexandre Blandino, que morava na Glória, mudou-se para Maria da Graça, na Zona Norte, neste ano.
— Cheguei a olhar outros bairros da Zona Sul, mas os valores estavam muito altos. Além do preço menor ao morar longe dessa região, as condições dos apartamentos são melhores. Na Zona Norte você paga numa casa de dois quartos o mesmo valor que um quartinho na Zona Sul — analisa. — Morava num apartamento de um quarto na Glória, de 30 m², e, hoje, estou num de dois quartos e uns 70 m², pagando 40% menos.
A escolha do novo bairro se deu por não ser tão distante do Centro, além de ter metrô, o que facilita na chegada até à Zona Sul, por exemplo. No Subúrbio, Alexandre já encontrou na vizinhança outras duas pessoas que fizeram a mesma mudança de região que ele, pelo mesmo motivo.
Nessa lista de bairros mais caros do Rio, destaca-se a Barra da Tijuca em quinto, com metro quadrado a R$ 82,06. É justamente o potencial de crescimento no bairro e seus arredores que fazem com que a Zona Sudoeste seja a única da cidade a apresentar aumento nas ofertas de aluguel. O alto valor do metro quadrado e, diferentemente da Zona Sul, a disponibilidade de terrenos para a construção de novos empreendimentos podem explicar o movimento.
Depois de projetos como o Reviver, da prefeitura, que busca trazer moradores para a parte central da capital — a partir da transformação de imóveis comerciais em residenciais, por exemplo — o Centro já aparece no top-10 dos bairros mais caros para se morar no Rio.
— A oferta aumentou no Centro, mas o preço não diminui porque essa parte da cidade começou a atender a demanda reprimida da Zona Sul e da Barra — analisa Marco Freitas, da Abadi.
A região central da cidade também é a que teve maior variação do valor do metro quadrado para locação nos últimos dois anos: 59,3%. A Zona Norte vem em seguida, com 20,3%, assim como a Zona Sul (19,8%).
Mais lidas
-
1CVRISE FINANCEIRA
Tesouro Nacional bloqueia repasses do FPM para cinco municípios de Alagoas
-
2CULTURA E TURISMO
Palmeira dos Índios anuncia hoje a programação oficial do Festival de Inverno 2026
-
3ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
4CORRUPÇÃO
Rio tem R$ 71,8 bilhões em contratos e recursos públicos sob investigação por corrupção
-
5CULTURA
Morre cantor gospel, vítima de doença rara, aos 41 anos