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Floresta intocada: expedição revela os segredos da Mata Atlântica na Reserva do Tinguá; veja imagens

Entre cachoeiras, árvores gigantes e animais ameaçados de extinção, reportagem revela a biodiversidade e os desafios de conservação de um dos mais importantes refúgios do bioma

Agência O Globo - 25/07/2026
Floresta intocada: expedição revela os segredos da Mata Atlântica na Reserva do Tinguá; veja imagens
- Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

A floresta exibe tons de verde que desafiam os limites da criatividade. É cruzada por riachos que, de tão cristalinos, parecem caminhos. Há bromélias e orquídeas por toda parte. Perfumes da natureza inundam o ar. Ainda assim, muitas pegadas das onças-pardas se fazem notar. E também as de queixadas, os maiores porcos nativos do país, iguarias para as gatas. Onças e queixadas estão entre os animais estudados por uma expedição que almeja decifrar mistérios e riquezas de um dos mais importantes remanescentes da Mata Atlântica, o Tinguá.

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O nome Tinguá significa montanha pontiaguda em tupi. Mas ali é sinônimo de mistério. A despeito de estar no coração da segunda maior região metropolitana do Brasil, a meros 42 quilômetros em linha reta do centro do Rio, a floresta se mantém praticamente desconhecida, embora pressionada pela malha urbana.

Há os raros muriquis-do-sul — ao lado de seus primos do norte, são os maiores macacos do Brasil —, uma população de micos-leões-dourados isolada desde os tempos pré-coloniais e uma espécie de veado tão arredia que ainda não foi classificada. Há indícios de que duas joias da coroa dos bichos do Brasil também vivem por lá: a onça-pintada e o mais raro dos cães selvagens, o cachorro-vinagre.

O pouco que se sabe já mostra que é um dos maiores tesouros naturais do país, afirma o biólogo Lucas Gonçalves, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). Praticamente todos os principais animais do bioma e muitas raridades encontram-se no Tinguá.

A expedição conjunta do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do INMA é a maior campanha de pesquisa realizada lá, salienta a gestora da Reserva Biológica do Tinguá (Rebio/Tinguá), a especialista em biodiversidade Gisele Medeiros.

São 42 armadilhas fotográficas instaladas por 90 dias, além de monitoramento por meio da instalação de radiocolares em três onças e quatro gatos menores, como a jaguatirica e o maracajá.

— Estamos muito animados. O trabalho com felinos é a parte mais avançada e vai nos dar, pela primeira vez, informações sobre como vivem as onças e os gatos selvagens desta parte da Mata Atlântica. Não se sabe quase nada sobre eles — frisa Lucas Gonçalves.

Drone térmico

Numa primeira fase, a convite, a expedição contou com a ajuda de um drone térmico, que identifica e filma em alta resolução macacos, preguiças e qualquer animal na copa de árvores, inacessíveis de outra forma.

O drone foi controlado pelo pesquisador da Universidade Federal de Viçosa Fabiano Melo, um dos maiores especialistas em primatas do Brasil. Num primeiro voo, já foi possível registrar macacos e preguiças no alto das montanhas.

Melo diz que a continuidade das pesquisas poderá confirmar o Tinguá como a unidade de conservação com o maior número de espécies de primatas da Mata Atlântica: seis ao todo.

O trabalho pretende ampliar o até agora único levantamento significativo da fauna local, realizado pelo biólogo Leandro Travassos, ex-gestor da Rebio, em 2018. Foram identificadas 85 espécies de mamíferos, número inferior apenas ao do maior e muito mais bem estudado Parque Nacional do Itatiaia (PNI), com 106. Porém, dados sugerem que as populações do Tinguá são mais numerosas.

— Temos evidências de que a biodiversidade, e não apenas a de mamíferos, é muito maior. O Tinguá nunca chamou atenção porque fica na Baixada Fluminense e sofre com o estigma da pobreza e da violência. É ignorado até mesmo pela ciência, tanto por preconceito quanto porque é muito duro de investigar, exige sacrifícios. Poucos se dispõem a isso — enfatiza Gisele Medeiros.

Picos jamais escalados

Uma conjunção de fatores ajuda a explicar a exuberância e a resistência que, de tão improváveis, parecem milagre. Há a imprescindível proteção legal. O Tinguá é protegido desde 1989 pelo tipo mais restritivo de unidade de conservação federal (somente pesquisa, educação ambiental e captação de água são permitidos, embora haja autorização para a passagem de dutos da Petrobras).

A Rebio tem 26.260 hectares (contadas as zonas de amortecimento, chega-se a 72 mil hectares) espalhados por Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis, Miguel Pereira, Queimados e Japeri. Isso ajuda, mas não evita caça e invasões. No entanto, seria ainda pior se não fosse uma Rebio.

Fora isso, o Tinguá é, na prática, a mais antiga área protegida do país e uma das pioneiras no mundo, segundo Medeiros. Há proteção oficial desde a terceira década do século XIX devido à abundância de água; os primeiros decretos neste sentido são de 1833.

As leis dos humanos são fundamentais, mas o Tinguá também se defende. É uma fortaleza da Mata Atlântica. Não à toa, a antiga Estrada Real do Comércio que o atravessa, do tempo do Império, cruza a única parte transitável com dificuldade. Ela foi abandonada com a chegada da ferrovia, que evitava as montanhas, em fins do século XIX.

O Maciço do Tinguá é composto por uma sucessão de picos pontiagudos, alguns deles sem nome e jamais escalados, a despeito de estarem encravados na Região Metropolitana. De acordo com Yan Rodrigues, biólogo do ICMBio especialista no rastreamento de onças pardas, eles formam vales fechados, íngremes e extremamente úmidos, que nunca foram explorados.

A declividade é vertiginosa. Passa de 45 graus em paredões de rocha cobertos por limo. Milhares de nascentes brotam nas montanhas e jorram para os vales. No fundo destes, matas com árvores que alcançam 50 metros, emaranhados instáveis de raízes e alagados de profundidade desconhecida.

Tesouro no fundo do vale

Para explorar esses ambientes, é preciso reunir “a capacidade de escalada de cabrito montês com a destreza na água de anfíbios”. Nem mesmo caçadores entram em algumas partes, diz Luís Felipe Carvalho, da equipe do ICMBio. Como Yan Rodrigues, ele é um dos poucos que se aventuram no sobe e desce de montanhas e vales.

Foi recompensado com registros de queixadas, serpentes raras e micos-leões de uma população geneticamente distinta daquela que vive em Poço das Antas (reserva localizada nos municípios de Silva Jardim e Casimiro de Abreu) e na Região dos Lagos. São lugares cujos nomes, como Pico do Diabo e Vale da Escuridão, dão uma pálida noção da dificuldade.

— Chegar já é difícil, mas permanecer beira o impossível. Há abismos, não se tem onde firmar os pés, ver onde se pisa. Tudo isso protege animais que vivem na copa das árvores, como os muriquis, ou que são hábeis e fortes para transitar em terrenos quase inviáveis, como as onças e os demais felinos selvagens — afirma Carvalho.

Na falta de habilidades de cabras anfíbias, usa-se tecnologia. As armadilhas fotográficas registram dados e imagens por meses em lugares hostis aos humanos.

— A tecnologia é uma aliada. Podemos usar, por exemplo, técnicas de DNA ambiental para coletar amostras sem precisar capturar os bichos. É uma opção para investigar os veados — completa Carvalho.

O fundo dos vales preserva alguns dos últimos remanescentes significativos do país das florestas de baixada. Há árvores gigantes, como figueiras, perobas e jequitibás, varridas do mapa do restante do Brasil por plantações e cidades.

Outro fator de riqueza é a variação de altitude, que vai do nível do mar aos 1.612 metros do Pico do Tinguá. Isso propicia a existência de uma variedade de habitats, de alagados a campos de altitude.

É um reino dos bichos. E uma de suas rainhas é a águia-cinzenta. Também chamada de coroada, ela é a segunda maior águia do Brasil — perde apenas para a harpia, cuja presença na Rebio não pode ser descartada, observa Carvalho. A águia captura presas grandes, como cobras e macacos. Sua presença é um indicador de riqueza biológica.

Como seus ancestrais fizeram por milhares de anos, um casal de águias-cinzentas patrulha as montanhas, mergulha nos vales. Nesses lugares, por ora, é como se o tempo de glória da Mata Atlântica não tivesse passado.