RJ em Foco
Câmeras corporais desmontam versão de PMs e Justiça manda soltar dois jovens
Tribunal concluiu que não havia provas para mantê-los acusados; análise técnica das imagens indicou que disparo foi de policial
A Justiça do Rio determinou a soltura de dois jovens, presos desde outubro de 2024, após concluir que não havia provas suficientes para manter os acusados de tentativa de homicídio contra dois policiais militares durante uma perseguição em São Gonçalo, na Região Metropolitana. Em decisão unânime, a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) decidiu que Renan dos Santos Nascimento Silva e Douglas Mendes da Silva não deveriam mais responder pelo crime no Tribunal do Júri e revogaram a prisão. A decisão também beneficiou Alessandro Soares Bandeira , que continua preso porque responde a outra acusação.
O caso ocorreu na madrugada do dia 28 de outubro de 2024 . Segundo a denúncia do Ministério Público, policiais militares tentaram abordar um Hyundai HB20 branco que desobedeceu à ordem de parada e fugiu. Durante a perseguição, os agentes afirmaram que um dos ocupantes do carro atirou contra a viatura, atingindo o retrovisor do veículo. Os policiais reagiram a tiros, resultando em quatro ocupantes do automóvel baleados. Pablo Roberto da Silva Barbosa faleceu após dar entrada no hospital.
Ao analisar o recurso da Defensoria Pública, os desembargadores entenderam que não havia elementos suficientes para sustentar a acusação de tentativa de homicídio. No voto, o relator, desembargador Marcius da Costa Ferreira , destacou que não foi realizada perícia no local da ocorrência, nem na viatura policial ou no HB20. E observei que uma arma desenvolvida usada pelos ocupantes do veículo nunca foi localizada.
“O acervo probatório não é robusto para indicar que os réus atiraram contra os policiais com o dolo de matá-los”, escreveu o relator. O magistrado também afirmou que a acusação não comprovou que o tiro que atingiu o retrovisor da viatura partiu dos ocupantes do carro.
Um dos principais elementos apresentados pela defesa foi um relatório elaborado pelo Projeto Mirante , iniciativa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni-UFF), em parceria com núcleos da Defensoria Pública do Rio e de São Paulo, especializada na discussão técnica de casos envolvendo violência de Estado. O estudo foi produzido pela arquiteta forense Flávia Palladino a partir da análise quadro a quadro das imagens registradas pelas câmeras corporais dos próprios policiais envolvidos na ocorrência.
Segundo o relatório, a perseguição durou cerca de dois minutos e dez segundos e, nesse intervalo, o policial militar Leandro Hardoim da Silveira efetuou ao menos dez disparos de fuzil contra o HB20. A investigação técnica concluiu que o tiro que atingiu o retrovisor direito da viatura partiu da arma do próprio policial durante uma perseguição, e não dos ocupantes do carro.
A análise também revelou que o veículo não apresentava danos visíveis na parte frontal compatível, segundo o relatório, com a versão apresentada pelos policiais, de que teria rompido duas barricadas durante a fuga. As imagens mostraram que Alessandro Soares Bandeira dirigia o carro e que Douglas Mendes da Silva ocupava o banco do passageiro, diferentemente da versão apresentada em depoimento pelos policiais, que identificaram Alessandro como o ocupante que teria realizado o disparo contra a viatura.
Outro ponto destacado pelo relatório é que nenhuma arma foi encontrada durante a revista no carro, com os ocupantes ou ao longo da trajetória da perseguição. O documento também registra que as imagens mostram apenas um tiro durante toda a ação: o policial que ocupava o banco do passageiro da viatura.
Embora o julgamento não tenha adotado expressamente todas as explicações da técnica detalhada, os desembargadores destacaram que a investigação não reuniu provas suficientes para sustentar a acusação, diante da ausência de perícias e da falta de elementos que comprovassem que o disparo contra a viatura partia dos ocupantes do carro.
Com a decisão, Renan , Douglas e Alessandro deixam de responder por tentativa de homicídio perante o Tribunal do Júri. O processo continuará na Vara Criminal em relação aos demais crimes apontados pelo Ministério Público. Renan e Douglas responderam em liberdade, enquanto Alessandro permaneceu preso, pois também responderam à acusação de corrupção ativa e possui fontes anteriores por crime patrimonial, segundo o documento.
Em nota, o defensor público Rodrigo Azambuja afirmou que a decisão reforça a importância das câmeras corporais como instrumento de produção de prova: "As imagens das câmeras corporais permitiram reconstruir a ocorrência com precisão e revelaram inconsistências que não poderiam ser ignoradas. A decisão reafirma que ninguém pode responder por uma acusação tão grave quando as provas objetivas apontam em sentido contrário", disse.
Paralelamente ao processo criminal, o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), da Defensoria Pública, move uma ação para responsabilizar o Estado pela morte de Pablo Roberto da Silva Barbosa .
O relatório foi elaborado pela arquiteta forense Flávia Palladino , do Projeto Mirante . A análise técnica sincronizou as imagens captadas pelas câmeras corporais dos dois policiais envolvidos na ocorrência e fez uma avaliação quadro a quadro das gravações, com uso de ferramentas de ampliação, ajuste de velocidade e outros recursos de tratamento de imagem.
O estudo também comparou vídeos com documentos de investigação, depoimentos prestados e dados de geolocalização, permitindo reconstruir a dinâmica da ação. A perícia se concentrou em quatro momentos principais: a perseguição ao veículo, a sequência dos disparos, a abordagem aos ocupantes do HB20 e a revista realizada no automóvel.
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