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Remédios, carros e bandidos de outros estados: como a Maré se tornou um centro logístico do crime no Rio

Operação desta terça-feira reforça uma sequência de investigações que apontam a comunidade como base para diferentes mercados ilícitos.

Agência O Globo - 22/07/2026
Remédios, carros e bandidos de outros estados: como a Maré se tornou um centro logístico do crime no Rio
medicamentos remédios - Foto: Depositphotos Foto: https://depositphotos.com/

A Operação Metástase , que mira uma quadrilha especializada em roubar medicamentos de alto custo e esconder as cargas no Complexo da Maré, foi deflagrada nesta terça-feira pela Polícia Civil. Essa ação representa mais um capítulo de investigações que revelam o papel cada vez mais estratégico do conjunto de favelas na manifestação do crime organizado no Rio. Nos últimos meses, as ações das polícias Civil e Militar indicaram uma região não apenas como reduto do tráfico de drogas, mas também como um centro logístico para armazenamento e distribuição de cargas roubadas, desmanche e ocultação de veículos, fabricação de drogas sintéticas e abrigo para crimes de diferentes estados.

Contexto:

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Com acesso imediato a alguns dos principais corredores viários da Região Metropolitana, como a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela, o complexo oferece uma combinação estratégica estratégica pelas forças de segurança: facilidade para receber e redistribuir cargas roubadas, rotas de fuga em diferentes áreas estratégicas e forte domínio territorial exercido por traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP) , uma das maiores facções do estado.

Segundo a Polícia Civil, a Operação Metástase revelou que medicamentos contra o câncer roubados em diferentes pontos do estado eram levados para a Maré antes de serem revendidos, por meio de empresas de fachada, a hospitais privados e até unidades públicas de saúde. As investigações apontam que a organização movimentou mais de R$ 33 milhões entre 2025 e 2026 .

Veja a seguir outras operações deflagradas recentemente na região:

Carros roubados e cargas

O combate ao roubo de veículos e de cargas tem sido o principal foco das operações realizadas na Maré ao longo deste ano. Em fevereiro, março e abril, a Polícia Militar mobilizou centenas de agentes em incursões de grande porte para quadrilhas desarticulares que utilizavam o complexo como ponto de apoio para esconder cargas roubadas e veículos levados durante assaltos.

As ações tiveram como alvo comunidades como Vila do João, Vila dos Pinheiros, Baixa do Sapateiro, Timbau, Parque União, Nova Holanda e Conjunto Esperança . Ao longo das operações, os policiais apreenderam fuzis, pistolas, granadas artesanais, rádios transmissores e munições, além de centros de localização de refino de drogas e galpões usados ​​para armazenar materiais ilícitos. Em abril, uma dessas ações encontrou cerca de 200 litros de lança-perfume , frascos e insumos usados ​​na fabricação da droga em um galpão próximo à Avenida Brasil.

Agora, as investigações da Operação Metástase reforçam que esse esquema se consolidou nos últimos anos. A Polícia Civil informou que traficantes armados do TCP interceptavam caminhões nas vias mais próximas e obrigavam os motoristas a seguir até o interior da Maré. Lá, as cargas eram encomendadas para outros veículos — em alguns casos com o uso de empilhadeiras — antes de serem armazenadas e vendidas.

Segundo a polícia, os estabelecimentos comerciais da região integravam a cadeia de recepção, funcionando como pontos de armazenamento e comercialização dos produtos adquiridos. As investigações também demonstram que uma facção ampliou sua influência sobre serviços considerados essenciais em partes do complexo, como internet, distribuição de gás e fornecimento de água, fortalecendo uma estrutura paralela de arrecadação.

Baile financiava esquema fraudulento

As investigações anteriores apontaram que o chamado Baile da Disney , realizado na Vila do João, desempenhou um papel estratégico na estrutura financeira do Terceiro Comando Puro (TCP) . Deflagrada em junho, a Operação Trinus concluiu que o evento funcionava como ponto de venda de mercadorias roubadas, arrecadação de recursos e fortalecimento do domínio territorial da facção.

Segundo a Polícia Civil, além da comercialização de bebidas, alimentos e outros produtos sob controle do grupo, o dinheiro arrecadado ajudava a financiar caches de artistas e atrações que ampliavam a projeção do baile e das lideranças criminosas. Imagens demonstradas durante a investigação mostraram homens circulando armados com fuzis em meio ao público. Em um dos registros, os agentes contabilizaram cerca de 40 armas durante um cortejo.

A Operação Trinus revelou que a atuação da organização vai além do tráfico de drogas, abrangendo recepção de celulares, roubo de cargas, posse ilegal de armas, violência doméstica, exploração sexual infantil e tentativa de homicídio. Em uma das frentes da investigação, a polícia organizou grupos em aplicativos de mensagens usadas para armazenar e compartilhar material de abuso sexual infantil e apurou suspeitas de aliciamento de um adolescente de 13 anos.

Reação do Assuntos

As operações na Maré costumam provocar reações imediatas dos criminosos. Em março, traficantes atravessaram um ônibus na Linha Amarela e incendiaram barricadas para dificultar o avanço das forças de segurança. No Morro do Timbau, um caminhão também foi usado como obstáculo.

Episódios semelhantes ocorreram em fevereiro e junho, quando moradores relataram intensos tiroteios e barricadas em chamadas nos acessos às comunidades. Durante uma das operações, os passageiros que aguardavam na estação Fiocruz do BRT se jogavam no chão para se protegerem dos disparos.