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Super El Niño põe Rio em alerta: calor extremo faz prefeitura antecipar plano de ação
Temperaturas acima da média podem ser registradas ainda no fim do inverno, e os efeitos do fenômeno devem se intensificar na primavera e no verão, com medidas preventivas já em andamento na cidade
A estação do ano ainda é o inverno. Porém, a prefeitura do Rio anunciou nesta segunda-feira que está antecipando seus protocolos — como os existentes por conta do calor e da chuva, acionados normalmente no verão — devido ao Super El Niño. O fenômeno climático, que se caracteriza pelo aquecimento atípico das águas do Oceano Pacífico, deve ser mais intenso neste ano e agravar as altas temperaturas, assim como as tempestades na cidade, já a partir desta estação do ano. Equipes de mais de 50 órgãos estão mobilizadas para atuar em caso de situações extremas.
— No fundo, estamos antecipando a preparação que a cidade já faz todos os anos para lidar com o verão. Parte dos efeitos desse Super El Niño, para a realidade da nossa cidade, é como se tivesse a antecipação dos efeitos do verão — explicou o prefeito Eduardo Cavaliere, em coletiva realizada no Centro de Operações e Resiliência (COR), na Cidade Nova. — As águas de março, neste momento, podem estar chegando antes do verão.
No Rio, os efeitos previstos podem ser sentidos já no fim deste inverno (estação que chega ao fim em setembro), com temperaturas acima da média, situação que se estenderá pela primavera e pelo verão. Juliana Hermsdorff, meteorologista do Sistema Alerta Rio, do município, mencionou que a probabilidade de o El Niño ser "muito forte, principalmente no final da primavera e o início do verão" é de 81%. Isso ocorreria entre outubro e dezembro deste ano.
— É normal a gente já ter no verão e na primavera temperaturas mais elevadas. Temos grandes áreas urbanizadas que aumentam a temperatura, formando ilhas de calor. Então, os impactos do El Niño vão reforçar principalmente essa questão da temperatura, um combustível formador de chuvas intensas aqui na cidade do Rio — explicou a meteorologista, que citou os maciços e a topografia do Rio como outras influências na formação das chuvas.
'Alerta máximo'
Em maio, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) divulgou a previsão de que o fenômeno tinha 82% de se formar até este mês de julho. Isso acabou confirmado no mês passado pela agência.
— A prefeitura está antecipando suas ações, que normalmente a gente executava lá em novembro. A partir deste momento, estamos colocando em alerta máximo todas as secretarias e órgãos que trabalham com prevenção e resposta à cidade do Rio de Janeiro justamente por conta do El Niño. E vamos fazer esse acompanhamento junto ao Centro de Operações (e Resiliência, COR) — resumiu Rodrigo Gonçalves, subsecretário de Defesa Civil da cidade.
Ele reforçou a importância de a população acompanhar os acontecimentos da cidade, assim como os estágios operacionais. Atualmente, há cinco níveis: o 1º, sem mudança significativa na rotina; o 2º, risco de acontecimentos; o 3º, ocorrências já em andamento; o 4º, várias ocorrências afetam a mobilidade, com orientação de que as pessoas não se desloquem; e o 5º, com ocorrências de alto risco, sem previsão de retorno à normalidade e com necessidade de apoio à prefeitura. O último deles nunca foi atingido.
Gonçalves mencionou que atualmente há mais de cinquenta protocolos instituídos — que envolvem não só órgãos municipais, mas também Estado e União — por conta de efeitos climáticos. Um exemplo "emblemático", segundo o subsecretário, é o protocolo de ressaca, numa parceria com a Marinha do Brasil. Alertas de maré alta são levados em consideração, por exemplo, para interditar a ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer: a medida foi tomada após o desabamento de trecho da estrutura em 2016. Duas pessoas morreram na ocasião.
Na coletiva, da qual participaram representantes de onze órgãos do município — como os secretários de Infraestrutura (Wanderson dos Santos), Conservação (Diego Vaz), Saúde (Rodrigo Prado) e Ambiente e Clima (Lívia Galdino) —, a prefeitura detalhou ações em andamento na cidade. Além dos protocolos, detalhou obras em andamento para agir contra alagamentos e para ampliar a área de vegetação da cidade.
Obras contra chuvas e novos parques
Cavaliere reforçou que o município faz investimentos contínuos na resiliência, em infraestrutura e em prevenções aos fenômenos climáticos que atingem a cidade. Entre as intervenções em andamento, o município citou obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Wanderson Santos, à frente da pasta de Infraestrutura, cita que a obra do PAC em Realengo estava prevista inicialmente para ser concluída no primeiro semestre do ano que vem, mas terá a primeira fase pronta ainda este ano. O adiantamento do cronograma está previsto no Acordo de Resultados deste ano, segundo o secretário.
— Não estaremos com todas essas obras finalizadas até a chegada do Super El Niño, mas estaremos nos locais. Teremos uma mobilização para poder atender e mitigar os eventuais danos por ventura dessas chuvas intensas — explica Wanderson.
PAC Realengo: obras de drenagem em vias importantes, como a Avenida Bernardo de Vasconcelos, em andamento. Primeira fase será entregue ainda este ano. Construção de piscinão para receber água da chuva já foi iniciada;
PAC Acari: uma das áreas mais afetadas da cidade em dias de chuvas intensas já tem obras iniciadas. Duração das intervenções, que inclui a ampliação da calha do rio, que vai de Acari ao Jardim América, será de três anos.
PAC Jardim Maravilha: primeira fase já entregue, com esgotamento e urbanização. Segunda fase, com construção de diques, já iniciada;
PAC Periferia Viva Maré: fase inicial da obra em andamento, que inclui parque linear que será construído onde havia um lixão, além da instalação de redes de drenagem e esgoto;
PAC Periferia Viva Rocinha: planejamento para instalar rede de água, drenagem e mobilidade da maior favela do Brasil;
PAC Periferia Viva Complexo do Alemão: planejamento de investimento em infraestrutura integrada, com rede de água, tratamento sanitário e implantação de sistemas de drenagem.
Grande Tijuca: controle de enchentes na região. Depois dos famosos piscinões nas praças da Bandeira, Niterói e Varhangen, a prefeitura já prevê a conexão dos rios Maracanã e Joana, para desviar excedentes de água.
— Boa parte dessas áreas mais sensíveis ainda está sujeita a eventos extremos e riscos no próximo verão — reconheceu Cavaliere, que reforçou que a "estratégia de prevenção" é essencial para salvar vidas. — As obras de infraestrutura reduzem os efeitos desses eventos climáticos extremos, minimizam os impactos, mas não significam que a cidade irá deixar de viver momentos extremos com as chuvas.
Outras estruturas da cidade que são providenciais em dias de clima extremo são os parques urbanos, apontados como espaços que ampliam a área de vegetação da cidade. Esses endereços também oferecem conforto térmico em dias de calor.
Além dos já implementados parques Madureira (Monarco); Realengo (Susana Naspolini); Pavuna; Rita Lee (Parque Olímpico, na Barra da Tijuca); Oeste (em Inhoaíba); Piedade (Arlindo Cruz); e Deodoro, a prefeitura citou a criação de novos parques na cidade futuramente. Atualmente, em andamento, há obras de ampliação dos parques Oeste e Realengo, assim como a construção dos parques Terra Prometida, em Santa Cruz, e Linear da Maré, no conjunto de favelas da Zona Norte.
Os futuros parques:
Parque Terra Prometida (Santa Cruz): está sendo construído onde ficava a antiga Cidade das Crianças, o espaço tem temática religiosa;
Parque Linear da Maré: início das obras se dá atrás de escolas próximas à Linha Vermelha, onde atualmente há um lixão;
Parque do Tanque: será instalado em área sensível ao alagamento atualmente;
Parque Taquara Fazenda Baronesa: ficará em terreno já comprado pelo município;
Parque Guadalupe: ficará próximo à Floresta do Camboatá;
Parque Jardim do Amanhã: ficará em área atualmente sujeita a deslizamento na Cidade de Deus;
Parque do Saber: ficará entre os bairros de Cordovil e Parada de Lucas.
Mega ralos
Entre as medidas adotadas pela prefeitura, foram citados ainda os "mega ralos", capazes de escoar grandes volumes de água. Pelo menos 70 exemplares já foram instalados ao longo da Avenida Brasil, via da cidade onde os alagamentos são frequentes. Ao percorrer o endereço, a equipe do GLOBO flagrou equipamentos já quebrados e cheios de lixo na altura de Manguinhos.
Diego Vaz, titular da Secretaria de Conservação, explica que a medida foi uma solução encontrada para regiões em que não estão previstas "obras de grande porte". Entre as ações do município voltadas aos ralos há ainda uma operação de desobstrução: 1,7 quilômetro da rede de drenagem já foi desobstruído neste ano, com 129 toneladas de lixo removidas.
Já a "Operação Moto Ralo" conta com 10 motocicletas. Na prática, além da ação preventiva, a atuação busca chegar mais rápido que caminhões a pontos de alagamento da cidade. Por outro lado, as ações de desassoreamento dos rios removeram 257 mil toneladas de resíduos só neste ano. Mais de 70 quilômetros de rios e canais foram atendidos.
Outro protocolo citado durante o anúncio do município foi o de calor, adotado na cidade após a morte de uma fã durante show da cantora Taylor Swift em novembro de 2023. A medida foi implementada no ano seguinte e conta com cinco níveis. São levados em conta a temperatura e a umidade para definir o índice de calor.
A partir do nível 4, que é acionado quando os termômetros têm índices de calor acima dos 40ºC por ao menos três dias consecutivos, começam a ser adotadas medidas que impactam na vida da população. Nesse momento, são abertos pontos de resfriamento (como clínicas da família, naves do conhecimento e parques urbanos), assim como aulas de educação física são transferidas para espaços cobertos. Fica determinada também, nesse caso, a pausa para hidratação de quem trabalha exposto ao sol.
Entre os possíveis efeitos também está a suspensão de eventos. Para que isso não aconteça, os organizadores precisam adotar medidas, como o fornecimento de água gratuitamente.
— Lembrando que 40% do nosso território (da cidade) sofre alto impacto do calor. E esse impacto vai gerar mais problemas para as crianças, para os idosos, para as pessoas em situação de rua — ressaltou Rodrigo Prado, secretário municipal de Saúde.
A Prefeitura do Rio informou que, desde 2023, implantou mais de 280 ralos e mega ralos nas zonas Norte, Oeste e Sudoeste da cidade, incluindo 156 estruturas ao longo da Avenida Brasil, das quais 70 são mega ralos. Segundo a Fundação Rio-Águas, os equipamentos foram instalados em pontos identificados pelo Centro de Operações como críticos para o escoamento da água, e os mega ralos têm maior capacidade de drenagem por serem ligados diretamente à rede pluvial. Entre os bairros beneficiados estão Bonsucesso, Guaratiba, Jacarepaguá, Maria da Graça, Madureira, Manguinhos, Parada de Lucas, Ramos, Tomás Coelho e Vicente de Carvalho. A prefeitura acrescentou que enviará uma equipe para vistoriar o mega ralo de Manguinhos e avaliar a necessidade de reparos.
Arborização
A Secretaria municipal de Ambiente e Clima contabiliza que, neste ano, já foram realizados 112,4 mil plantios de árvores na cidade, número que chega a 417,5 mil se considerado o período desde janeiro de 2023.
Lívia Galdino, titular da pasta, explica que há um plano de desenvolvimento sustentável (PDS), de 2021, que prevê a priorização das Áreas de Planejamento 3 (boa parte da Zona Norte, como Méier, Madureira e Irajá) e 5 (Zona Oeste) para a realização dos plantios. Atualmente, no entanto, ainda há a sensação de falta de árvores em dias muito quentes.
Um exemplo é no entorno do Estádio Nilton Santos (Engenhão), no Engenho de Dentro, onde o piso claro reflete a luz do sol e piora a sensação de calor. Para além de torcedores do Botafogo, o entorno da arena é frequentado por pessoas que praticam esporte, crianças que andam de bicicleta e brincam em pula-pula, além de famílias que comem em food trucks instalados no entorno do estádio. Ainda na Zona Norte, a falta de árvore também é sentida em vias de São Cristóvão, como a Rua Conde de Leopoldina.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera padrões de vento, chuva e temperatura em várias regiões do planeta.
Super El Niño vem aí?
A confirmação do El Niño pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), no mês passado, encerrou meses de expectativa entre meteorologistas e abre uma nova fase de monitoramento sobre os possíveis impactos do fenômeno no Brasil. A agência norte-americana informou que as condições já estão estabelecidas no Oceano Pacífico Equatorial e apontou 63% de probabilidade de que o evento alcance intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Ou seja, a discussão agora não é mais sobre se o fenômeno vai acontecer, mas qual será sua intensidade no planeta.
O rápido aquecimento observado no Pacífico nos últimos meses é um dos fatores que chamam a atenção dos centros meteorológicos internacionais. Modelos climáticos indicam que o fenômeno deve ganhar força durante este segundo semestre.
— A diferença prática é que um evento forte consegue dominar sobre outros fatores climáticos e impor padrões de seca e chuva muito mais severos e previsíveis. Os modelos atuais mostram um aquecimento oceânico acelerado e consistente desde maio, indicando que o fenômeno deve assumir protagonismo no clima do segundo semestre de 2026 — explicou ao GLOBO João Hackerott, CEO da Tempo OK, em entrevista no mês passado.
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