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Linha 4 do metrô ainda circula com a metade da capacidade, dez anos após inauguração

Elogiado pelos usuários, trajeto entre Ipanema e Jardim Oceânico atrai 101 mil passageiros nos dias úteis; número é um terço da capacidade estimada pelas autoridades na época de sua inauguração

Agência O Globo - 20/07/2026
Linha 4 do metrô ainda circula com a metade da capacidade, dez anos após inauguração
Linha 4 do metrô ainda circula com a metade da capacidade, dez anos após inauguração - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A data era 30 de julho de 2016. A seis dias do início dos Jogos Olímpicos do Rio, o metrô finalmente chegava à Barra da Tijuca depois de quase 50 anos de discussões sobre traçados e muitas mudanças no contrato de concessão original assinado em 1998 pelo então governador Marcello Alencar. Às vésperas de completar uma década de operação, a Linha 4 circula entre a Praça General Osório, em Ipanema, e o Jardim Oceânico com metade dos lugares oferecidos vazios, em média. Elogiado pelos usuários, o trajeto atrai 101 mil passageiros nos dias úteis, de acordo com a concessionária que administra o sistema. O número é um terço da capacidade estimada pelas autoridades na época de sua inauguração.

Impactos na demanda

As causas da baixa procura são apontadas por especialistas. Assim como outros meios de transporte público (trens, barcas, VLT e ônibus), o metrô sofreu com a queda de demanda na pandemia de Covid-19, que forçou o isolamento social e mudou hábitos da população, que passou a adotar o home office. O mundo digital trouxe também a concorrência dos aplicativos de transporte.

— O fato é que a demanda já estava superestimada antes da pandemia. Um ano depois da inauguração, 80% dos ônibus fretados que atendem os condomínios deixaram de seguir até a Zona Sul e o Centro e passaram a parar no Jardim Oceânico. Então a população aderiu ao metrô, mas acredito que uma extensão futura até o terminal Alvorada poderia atrair mais passageiros — diz o presidente da Câmara Comunitária da Barra, Delair Drumbosck.

A taxa média de ocupação das vagas oferecidas hoje entre Ipanema e Barra é de apenas 50%, enquanto chega a 90% na Linha 2 (Pavuna-Estácio) e a 70% na Linha 1 (Tijuca-General Osório). O presidente da concessionária MetrôRio, Guilherme Ramalho, identifica outras questões para a demanda ter ficado abaixo da prevista. Segundo ele, estudos previam a execução de um plano de racionalização com a revisão ou o corte de linhas de ônibus municipais que operam percursos coincidentes com o da Linha 4, o que não saiu do papel. O CEO cita ainda a falta da adoção de uma tarifa única, universalizada para toda a população em todos os meios públicos de transportes.

Esses fatores explicariam, por exemplo, por que a estação São Conrado (Rocinha), que deveria ser a segunda em movimento da Linha 4, é um dos destinos com menos demanda, incluindo os das linhas 1 e 2.

— Havia um plano de integração entre os modais que não foi executado. É preciso racionalizar o transporte público e ter uma política de subsídios efetiva. Retomar investimentos públicos é essencial, inclusive em expansões — disse Ramalho.

O secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes, informou que uma revisão de linhas de ônibus não está descartada, já que a prefeitura está organizando novas licitações do serviço. Mas esse tema só tende a avançar após a eleição para governador.

Apesar da baixa procura, a maioria dos usuários habituais da Linha 4 elogia o serviço:

— De carro perderia pelo menos uma hora no trânsito. De metrô até a faculdade, no Centro, gasto 35 minutos — conta a estudante de direito Juliana Sequeira.

Quem também usa outras linhas do metrô, como a aposentada Antonia Dias, de 75 anos, avalia que a Linha 4 ganha em conforto. Ela vai com frequência visitar a filha na Rocinha. Pega um ônibus até a Pavuna, onde embarca na Linha 2 e segue pelos demais trechos até a estação São Conrado.

— A Linha 4 é muito rápida. Viajar na Linha 2 é mais difícil, pois está sempre lotada — comparou.

Por outro lado, há quem critique o serviço:

— Às vezes, não há trens suficientes no fim da tarde porque composições são remanejadas para atender à demanda de quem precisa retornar para a Zona Norte. E as passagens são caríssimas (R$ 7,90 ou a tarifa social de R$ 5) — disse a economista Bruna Stein, de 41 anos.

Quem acompanha essa rotina da Linha 4 há dez anos, mas de uma outra perspectiva, é a piloto Daniele de Melo Paes Vieira, que fez a viagem inaugural. Hoje, ela trabalha à noite:

— Acompanhei os preparativos desde a chegada das composições à alfândega até a montagem delas, peça por peça.

Meio do caminho

Além de não ter atingido sua capacidade, o trajeto da Linha 4 continua incompleto. Na época da construção, repasses de recursos públicos para a obra foram suspensos diante de uma crise financeira do estado e de denúncias de que o orçamento de R$ 8,4 bilhões (valores da época) foi superfaturado. Foram esses dois fatores que levaram à suspensão da construção da estação da Gávea, a sexta e última do projeto, que foi retomada no ano passado.

Após muita negociação, foi fechado um acordo para tirar o projeto do papel, ainda que parcialmente. A empresa Metrô Rio, que já operava as linhas 1 e 2, assumiu o contrato e ganhou uma prorrogação da concessão de todo o sistema até 2048. Em troca, investirá R$ 600 milhões na obra. A parte do governo do estado será de R$ 97 milhões.

Valorização imobiliária

No entanto, apenas uma parte será concluída — a previsão é que até 2028. A ideia original era ter o trajeto Antero de Quental (Leblon), Gávea e São Conrado, nos dois sentidos. Agora só será implantada a ligação Gávea—São Conrado (onde terá que ser feita baldeação). O trecho entre Gávea—Antero de Quental foi engavetado mais uma vez porque precisaria do “tatuzão” que está enterrado bem no meio do caminho.

Cerca de 70% das escavações do trecho entre Gávea e São Conrado já foram feitas com o auxílio de explosivos para abrir caminho em meio à rocha.

— O grande mérito de finalizar essa obra é a sinalização da retomada de investimentos para a expansão do metrô. Hoje, aguardamos a liberação de recursos do PAC (R$ 20 milhões) para desenvolver estudos de viabilidade da futura Linha 3 (Praça Quinze—Niterói—São Gonçalo). Ainda não há nada decidido sobre itinerários a partir da Gávea — diz a secretária estadual de Transportes, Priscila Sakalem.

A implantação da Linha 4 também valorizou moradias na Barra da Tijuca, principalmente no entorno do Jardim Oceânico, onde fica a estação do bairro.

— A avaliação do mercado é que houve avanços na qualidade de vida desse morador — avaliou o presidente da Associação de Dirigentes do Mercado Imobiliário (Ademi), Leonardo Mesquita.