RJ em Foco
Tia Ciata, Chica da Silva, Darcy Ribeiro: da literatura a personagens femininas, a boa safra de enredos no Grupo Especial
Escolas de samba escolhem enredos que celebram grandes figuras femininas e obras literárias para o carnaval de 2027.
A definição dos enredos que as escolas apresentarão na Sapucaí é o pontapé inicial para a montagem dos desfiles. É a partir das sinopses que os compositores começam a elaborar os sambas que vão embalar as apresentações e os carnavalescos passam a planejar como vão narrar a história na Avenida, além de se debruçar sobre croquis das fantasias, alas e alegorias, materializando o que antes só existia na imaginação deles. A cerca de sete meses do carnaval de 2027, que será no início de fevereiro, todas as 12 escolas do Grupo Especial já fizeram sua escolha. De homenagens a grandes personagens como ao baluarte Monarco, pela Portela, e a pioneira Tia Ciata, pela Tuiuti, passando pela revisita à Xica da Silva, no Salgueiro, além da transposição para a avenida de dois grandes romances da atualidade, a safra atual promete elevar o nível da disputa e já é apontada como uma das mais promissoras dos últimos tempos.
— A gente vive, desde 2016, uma espécie de “primavera” dos enredos e, para 2027, a tendência de temas robustos culturalmente segue dando as cartas — avalia o jornalista e pesquisador Fábio Fabato, autor do livro "Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos", escrito em parceria com Luiz Antonio Simas.
Fonte inesgotável de inspiração para bons enredos, a literatura brasileira dessa vez contribui com "Torto Arado" de Itamar Vieira Júnior, tema do desfile da Vila Isabel e "A Cabeça do Santo", de Socorro Acioli, que serve de base para o desfile da Unidos da Tijuca. O primeiro narra a história das irmãs Bibiana e Belonísia, cujas vidas ficam profundamente entrelaçadas após um acidente na infância de uma delas com uma faca misteriosa. Já o segundo, acompanha a trajetória do jovem Samuel, que viaja ao sertão cearense em busca do pai e da avó e, ao se abrigar na cabeça oca de uma imagem inacabada de Santo Antônio, descobre um dom fantástico ao ouvir preces das mulheres da região.
— É uma tradição das escolas carnavalizar livros de grandes escritores, como fizeram a Portela em 1975, com "Macunaíma", a Beija-Flor em 2017, com "Iracema", e a Em Cima da Hora em 1976, com "Os sertões". Fico feliz de ver esse movimento de retorno à literatura, porque a Sapucaí é um ótimo palco para popularizar nossos grandes autores. Basta ver o fenômeno (de vendas) acontecido com "Um defeito de cor", após ser enredo da Portela em 2024 — destaca o jornalista e escritor Leonardo Bruno, que é também comentarista de carnaval e jurado do Estandarte de Ouro.
Fabato diz que o enredo da Unidos da Tijuca resgata uma linha de catolicismo popular com pitada pitoresca "que andava meio sumida e era um terreno adorado por Rosa Magalhães", enquanto a Mocidade, com "Latinamente independente, nosso norte é o sul em manifesto", apresenta uma crítica política apimentada à monarquia cultural norte-americana. Ele destaca também temas que miram a essência das escolas, como faz a Portela, com a homenagem a Monarco, um dos seus baluartes; e a Beija-Flor de Nilópolis que vai revisitar o tema que quebrou seu maior jejum sem títulos, desde o primeiro em 1976, ao mergulhar na história da pagé Zeneida Lima, de 92 anos, autora do livro "O mundo místico dos caruanas da Ilha de Marajó", que serviu de base para o enredo campeão de 1998.
— O carnaval carioca segue mostrando que sua arte-final definitivamente não existe. E que bom, ou seja, é produto do tempo, das reinvenções naturais da folia e das escolas, permanece em constante transformação — classifica Fabato.
Paraíso do Tuiuti, a primeira escola a definir enredo para o ano que vem, optou por um tema potente: "Ciata, a mãe preta do samba". A matriarca tem participação direta no carnaval, na formação das escolas de samba e no desenvolvimento do próprio gênero musical, além do candomblé. Conta a história que o primeiro samba gravado "Pelo Telefone" nasceu em festas no quintal de sua casa, na Praça Onze. Salgueiro, é outra que foi beber na fonte de sua própria gênese.
Francisca da Silva Oliveira, a Xica ou Chica Silva, já havia feito história ao garantir à vermelha e branca do Borel, em 1963, seu segundo título, sendo o primeiro sozinha (o de 1960 fora dividido com Portela, Mangueira, Império Serrano e Unidos da Capela). Agora o mito e a lenda da negra que também era conhecida como "Imperatriz do Tijuco" e "Dona de Diamantina" serão revisitados pela agremiação no desfile do ano que vem. O carnavalesco Jorge Silveira evita o termo reedição, com o argumento de que o desfile atual apresentará arquétipos novos e uma reconfiguração da personagem. Sobre o conjunto de temas propostos para 2027, avalia que há uma valorização do quesito enredo pelas agremiações.
— Nos últimos anos a gente tem experimentado uma melhora significativa por parte das escolas e dos artistas de dar um destaque especial à narrativa e isso está fazendo com que os olhos de todos prestem mais atenção no quesito enredo. Sem dúvida é um ano especial, a safra apresentada até agora é muito rica.
Lucas Milato, carnavalesco da Unidos da Tijuca, recorre ao termo "safra excepcional" para falar dos enredos para o ano que vem e se diz privilegiado por fazer parte desse balaio de temas, considerado por ele poderosos e potentes.
— Enxergo essa potência como um espelho das riquezas que nos circundam — diz Milato sobre a safra atual de enredos — O da Unidos da Tijuca, que tem como principal fonte de inspiração o livro da brilhante Socorro Acioli, fala acima de tudo da fé do povo brasileiro, da vastidão cultural nordestina, e dos inúmeros lugares que os sonhos podem nos levar, e como sonhar deixa tudo mais leve, eu considero o enredo da Tijuca extremamente prazeroso de realizar, sentir e desfrutar — completa.
João Vitor Araújo, da Beija-Flor de Nilópolis, chama a atenção para os enredos com temática feminina. Pelo menos metade homenageia mulheres ou as têm como personagem.
— Em um ano com taxas alarmantes de feminicídio, ter a mulher como protagonista é uma maravilha, uma bênção, uma alegria. Pensar que no grupo especial e nos outros também os artistas estão pensando na figura feminina como peça central de seus enredos. Assim como eu, trazendo dona Zeneida, a última pagé da Ilha de Marajó, temos Paraíso do Tuiuti, com Tia Ciata, Mangueira exaltando Insã e por aí vai. É um ano para ficar na história do carnaval brasileiro.
Sidnei França, carnavalesco da Mangueira, destaca que num ano de enredos de alto nível, relevância cultural e com narrativas que atendem os anseios do interesse coletivo, a verde e rosa se faz presente com uma narrativa feminina, aguerrida e questionadora ao abordar o orixá Oyá, como seu tema central. No lugar de melhor safra dos últimos anos, ele prefere se referir aos enredos de 2027 como "relevantes".
— Mais uma vez as escolas de samba cumprem seu papel na valorização da cultura popular ao lançar luz à ideia de um Brasil plural e lúcido de si — avalia.
Ao falar dos griôs (guardiões de memórias ancestrais), carnavalesco Tarcísio Zanon, da campeã Viradouro, diz que a escola de Niterói reúne, de certo modo, em seu tema as histórias de todos os outros enredos. Na sua opinião, uma boa safra de enredos valoriza a festa.
— A gente está falando do griô, que é essa figura ancestral que vem para o Brasil através da diáspora com essa missão e também de forma estratégica poder ter a manutenção da memória preta e hoje a gente vê as escolas de samba como essas grandes griôs que têm a missão de memorizar, perpetuar e se comunicar através da memória. Isso nos deixa muito felizes de poder fazer um enredo que homenageia o fato de contar história que é um costume de todas as escolas de samba.
A Imperatriz Leopoldinense vai contar a história da calunga, uma boneca sagrada do maracatu pernambucano, que esteve desaparecida por 30 anos, no enredo "A memória do rei e o sumiço de dona Júlia". Recentemente, a equipe da escola, incluindo o carnavalesco Leandro Vieira, esteve em Recife para uma imersão no tema. A agenda incluiu visitas ao Museu do Homem do Nordeste, aos terreiros Ylê Oxóssi, Guangoubira e Ylê Xambá, além de encontros com a Nação do Maracatu Porto Rico.
A Grande Rio fará uma viagem à Gana, com o enredo "Sankofa Tabon, os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade", sobre a história de africanos escravizados libertos que se estabeleceram na antiga Costa do Ouro. Já a estreante União de Maricá, última a oficializar o tema, com "Utopia Brasil: Darcy Ribeiro", decidiu homenagear o educador e escritor, que viveu seus últimos anos na cidade sede da escola e lá escreveu suas derradeiras obras como "O Povo Brasileiro", numa casa que vai virar museu em sua memória. Embora tenha sido o idealizador do sambódromo — que muita gente não sabe, mas leva oficialmente seu nome —, nunca recebeu uma homenagem à altura no palco do carnaval.
Na opinião da pesquisadora Rachel Valença, autora do livro "Serra, Serrinha, Serrano", a safra atual de bons enredos tem relação direta com o trabalho de uma leva de carnavalescos criativos e estudiosos, como Leonardo Bora e Gabriel Haddad (Vila Isabel), Jack Vasconcelos (Mocidade), Tarcísio Zanon (Viradouro) e Leandro Vieira (Imperatriz Leopoldinense).
— Equilibrando pesquisa e sensibilidade, eles têm trazido à Avenida não apenas temas religiosos, mas personagens quase esquecidos, apesar de tão importantes para a construção das próprias escolas de samba que tanto amamos — avalia.
As escolas da Série Ouro também não ficam para trás. Na segunda divisão do carnaval carioca, as que já definiram enredos seguem a tendência de também se voltar para sua própria história ou homenagear personagens que deixaram um grande legado. É o que faz, por exemplo, a Estácio de Sá, que celebrará o centenário do "berço do samba", ao lembrar que no bairro nasceu a "Deixa Falar", considerada a primeira escola. Há ainda as que buscam a valorização de personagens importantes, como a Unidos de Bangu, com a homenagem a Marquinhos PQD em "A outra ceia", inspirado numa composição consagrada do artista morto em 2025. Já a Inocentes de Belford Roxo vai falar da vida e obra do artista plástico Carybé.
Conheça os 12 enredos do Grupo Especial:
Beija-Flor - Zeneida, o sopro do pó de louro
Tuiuti - Ciata, a mãe preta do samba
Vila Isabel - Torto Arado, sobre a terra há de viver sempre o mais forte
Mocidade - Latinamente independente, nosso norte é o sul em manifesto
Unidos da Tijuca - A cabeça do santo
Salgueiro - Laroyê, Xica da Silva, a história por trás da história
Imperatriz - A memória do rei e o sumiço de Dona Júlia
Portela - Ao mestre com carinho (homenagem a Monarco)
Viradouro - Griô
Grande Rio - "Sankofa Tabon - Os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da liberdade".
Mangueira - Oyá por nós
Maricá - "Utopia Brasil: Darcy Ribeiro"
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