RJ em Foco
Nascida duas vezes: a história de Lua Brainer, da Maré, em busca da própria identidade
Aos 29 anos, formada em Dança pela UFRJ, ela é referência do movimento Ballroom no Rio, e mescla vogue, funk e cidadania em bailes estrelados por pessoas LGBTQIA+
Não é todo mundo que tem a sorte de viver dois nascimentos. Lua Brainer teve. O primeiro foi em 1997, quando a mãe e o pai foram à Baía de Guanabara pescar siris. A bolsa rompeu num barquinho e precisou-se de cautela até a chegada ao Hospital Geral de Bonsucesso, onde o parto aconteceu. O segundo foi mais ou menos 10 anos depois, dentro do coração de uma criança inquieta com a própria identidade. Esse parto, no entanto, foi escondido, principalmente da família. Lua só era Lua fora dos limites da Maré. E, por causa disso, ela foi se conhecer nas muitas ruas do Rio de Janeiro — as pistas mudaram, mas a vida segue assim hoje, aos 29 anos.
Tolerância Zero:
Novo sistema de estacionamento de rua no Rio:
Nessas escapadas, ela se permitia o uso de vestimentas femininas, maquiagem, cabelo penteado e a linguagem das “travas”. Mas tudo mudava ao voltar para casa, na Vila dos Pinheiros. Os adereços eram todos guardados em uma sacola e escondidos embaixo da cama, assim como os primeiros sinais de seios, encobertos por camisas mais largas — na rua, ela aprendeu que alguns hormônios poderiam ajudá-la a ter um corpo mais feminino e os tomou também escondida, alheia aos riscos.
Com a morte precoce dos pais, Lua passou a ser cuidada pela avó materna, que a fez entender que, para alcançar um lugar no mundo, ela teria que se esforçar. E muito.
Aos 94 anos:
— Lembro dela me falar: “Eu não tenho muito para fazer por você”. E eu entendia. Ela já tinha criado os filhos, era idosa. Eu dizia que queria brinquedos, roupas novas, e ela falava que não tinha como comprar. Dependia de mim, então, conquistar essas coisas — conta Lua, que na época tinha 12 anos.
‘Eu queria girar’
Naquele período, a felicidade clandestina nas ruas encontrou equivalência, pela primeira vez, na Maré. A adolescente conheceu o balé clássico, fruto de um projeto social na Vila Olímpica. E se apaixonou. A entrega, contudo, encontrou uma barreira difícil de se quebrar: as professoras, por mais que reconhecessem o talento da menina, não permitiam que ela atuasse como as outras. Nada de sapatilha de ponta, collant ou tutu. Lua só podia dançar como menino, e isso ela sabia que não era.
Rio Rotativo Digital:
— Eu queria girar, fazer valsa, usar a roupa bonita das meninas, e não ficar segurando-as no ar. Então, por mais que eu gostasse daquilo, comecei a me sentir inadequada. Aí, fugi — relembra.
O refúgio foi outra forma de expressão, o hip-hop. Os ensaios aconteciam dentro do território e, por mais que fossem plurais, não havia ninguém parecido com Lua. Entretanto, diferentemente do balé, ela conseguiu viver ali um estilo mais autoral, que logo a guiou ao vogue — aquela modalidade de dança famosa pelas poses e popularizada nos palcos com a cantora Madonna, mas cuja origem é negra, periférica e LGBTQIA+.
Tire dúvidas:
As coreografias foram aprendidas em vídeos encontrados no extinto Orkut. Lua assistia aos posts e repetia os movimentos em casa até ficar toda ralada. Foi assim que dominou o catwalk, o duckwalk, os giratórios de mãos e braços e o dip (quando o dançarino se joga rapidamente para trás, de costas para o chão), elementos “vogue femme” do Ballroom — baile que virou casa, família e defesa política de Lua. Apesar dos nomes em inglês, ela garante que o gênero, mesclado a passos de funk, tem tudo a ver com a Maré.
Apesar da felicidade com a nova experiência, Lua se queixava da ausência de espaço para exercê-la na comunidade. Para viver o vogue, precisava continuar explorando as ruas do Rio, com a diferença de não ter mais energia para tal.
World Mathematics Invitational:
— Fui forçada a amadurecer muito cedo. Vivi muita coisa que uma criança jamais deveria ter vivido. Eu já estava cansada, muita coisa não fazia mais sentido para mim. Eu almejava ocupar outros espaços, outras realidades, a rua já não era meu lugar. Além disso, havia finalmente encontrado a dança que tanto procurava em mim — afirma ela.
Foi então que uma amiga a incentivou a fazer faculdade. Lua passou. Formou-se em Dança pela UFRJ em 2025, no mesmo campus onde tantas vezes viu a mãe trabalhar como auxiliar de serviços gerais. A conclusão do curso não foi fácil, como nada foi, desde aquele barquinho na Guanabara. Distante da avó, que nunca aceitou bem seu gênero, foi morar sozinha e viu a vida ser atravessada por uma série de dificuldades na pandemia — incluindo a morte da matriarca. Aos 24 anos, Lua ficou sem dinheiro, passou fome e lidou com uma solidão desconhecida. E seguiu.
Investigação:
Por causa dos estudos, aprendeu a nomear violências, negligências e ausências que a acompanharam. Passou a apontar o racismo, a transfobia, o assédio, o estupro e tantas outras formas de dominação e preconceito. Soube dizer que a dança, mais do que refúgio, foi sua libertação. E aí veio um sonho: ela produzia um baile Ballroom, completamente lotado. Ele já estava quase perdido na memória, até que a fala de uma entidade, Mulambo, numa ida ao terreiro, o reviveu.
— A entidade disse: “É para você continuar. Esse sonho é para você organizar algo grande no seu território”. Eu pensei: “Será que ela está falando do Ballroom?”. Se era ou não, não sei, mas eu agarrei como missão e fui atrás de realizar o evento — explica.
Alerj de novo na mira:
Ele aconteceu em 2024, depois de Lua vencer um edital da Redes da Maré, ONG que integrava desde o ano anterior, para promoção de cultura na comunidade. Foram cerca de R$ 14 mil investidos no primeiro baile, e a adesão foi tão grande que as apresentações se tornaram constantes, chegando a quatro por mês atualmente. Lua também completou pós-graduação na Fiocruz e no Instituto Parentes, o que motivou um convite da Redes para que ela se tornasse instrutora de gênero e sociedade na Casa das Mulheres da Maré, função que exerce desde 2025.
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