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Parado no tempo: em plena era de IA, trânsito no Rio ainda usa tecnologia analógica de mais de dez anos atrás

Gestão de tráfego carioca se mostra defasada em relação a cidades que já adotaram soluções tecnológicas modernas.

Agência O Globo - 19/07/2026
Parado no tempo: em plena era de IA, trânsito no Rio ainda usa tecnologia analógica de mais de dez anos atrás
Parado no tempo: em plena era de IA, trânsito no Rio ainda usa tecnologia analógica de mais de dez anos atrás - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A tecnologia de controle do trânsito com o uso de Inteligência Artificial, já adotada em cidades ao redor do mundo e também no Brasil, tem sido uma aliada na redução dos engarrafamentos. No Rio, no entanto, a gestão do tráfego ainda é predominantemente analógica — dependente da ação humana tanto para detectar o problema quanto para adotar medidas como priorizar o deslocamento de equipes de socorro e ajustar o tempo dos sinais da região. Essa defasagem resulta em episódios como o do fim de junho, quando o tombamento de uma carreta na Rua Muniz Barreto, em Botafogo, deu um nó no trânsito da Zona Sul, com reflexos até no Centro.

Tolerância Zero:

Novo sistema de estacionamento de rua no Rio:

— A IA faz uma gestão do trânsito que se adapta a situações de momento, a partir de informações geradas por milhares de simulações de cenários, inclusive com contagem em tempo real dos veículos que passam pelos sinais de trânsito. No Rio, não existe esse sistema. Para isso, é preciso mais investimentos em tecnologia 5G, para a transmissão dos dados de forma consistente e o controle ser efetivo — analisa o engenheiro Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, centro de estudos em mobilidade urbana da Fundação Getulio Vargas.

Nos idos de 2012

Hoje, o acompanhamento se dá a partir do Centro de Operações e Resiliência (COR), que usa tecnologia implantada entre 2009 e 2012. A partir da contagem de veículos, feita principalmente pelos radares que flagram infrações, os engenheiros de tráfego programam os intervalos dos sinais conforme o movimento esperado ao longo do dia, usando dados estatísticos acumulados. Após a mudança de 14 anos atrás, não houve modernização significativa da estrutura que monitora e controla o trânsito.

Aos 94 anos:

Sem recursos de IA, qualquer imprevisto exige dos técnicos a identificação visual pelas câmeras do local, ou que algum alerta chegue ao COR. A confirmação do problema — um acidente, por exemplo — pode levar algum tempo, retardando o acionamento de equipes de socorro e eventuais alterações na programação da sinalização para minimizar os impactos no tráfego.

A modernização necessária do sistema carioca, que poderia até ajudar na redução da poluição com a emissão de menos gás carbônico pelos carros, ainda não tem data para chegar às ruas. A prefeitura informou que, em junho, iniciou um processo para buscar a melhor solução tecnológica na operação de 3.121 cruzamentos com sinais de trânsito. A iniciativa é conhecida como Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), em que o setor privado estuda e sugere ao governo saídas para o problema.

Rio Rotativo Digital:

Seis empresas responderam ao edital que prevê realizar um diagnóstico da situação atual, bem como propor soluções, indicar fontes de financiamento e a melhor alternativa para implantar o sistema, seja por concessão ou por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP). O estudo também deverá indicar alternativas tecnológicas que possam evitar que sinais de trânsito sejam alvos de furtos e vandalismo, ações que dificultam ainda mais o planejamento e o controle da movimentação de veículos.

Concorrência pública

As primeiras conclusões serão apresentadas esta semana à Secretaria municipal de Desenvolvimento Econômico, mas a entrega dos relatórios finais acontecerá apenas em agosto. A partir daí, o material deverá ser usado para que os técnicos do município elaborem uma concorrência pública.

Tire dúvidas:

— A IA é essencial para planejar a gestão de cidades inteligentes. A tecnologia instalada em sinais gera uma série de informações, que equipamentos tradicionais não processam. Não se sabe, por exemplo, se a via recebe mais carros ou mais motos, o que ajuda a melhorar o trânsito — diz Lucas Kubaski, diretor de Produtos, Soluções e Marketing da Dahua Technology, empresa chinesa especializada em segurança eletrônica e em Inteligência Artificial das Coisas.

Em 2016, na Olimpíada, a prefeitura inovou ao implantar o “trânsito livre” para os ônibus de BRT, numa política de privilegiar o transporte de massa. A ferramenta priorizava a passagem dos ônibus, abrindo o sinal sempre que o articulado se aproximava de um cruzamento. Os corredores Transcarioca e Transoeste foram escolhidos para receber a tecnologia porque passam por bairros com histórico de congestionamentos. Na gestão do ex-prefeito Marcelo Crivella (2017-2020), o sistema de BRT deteriorou-se a ponto de terem deixado de lado a manutenção dos equipamentos, que viraram sucata. O plano de recuperação, nos anos seguintes, não previu a atualização dessa inovação.

World Mathematics Invitational:

A prefeitura tem recorrido a parcerias para suprir a defasagem tecnológica. Com a Google, testa equipamentos de controle de sinais por meio de IA, mas os registros vão para a rede tradicional. Dados do Waze também são usados, mas de forma reativa. As informações direcionam o deslocamento de operadores em caso de retenções, segundo o relato de fontes que conhecem a rotina do Centro de Operações.

Foco na segurança

A tecnologia de IA vem sendo usada pela Prefeitura do Rio no projeto Civitas, que conta com mais de 3,5 mil câmeras de videomonitoramento com foco maior na segurança. Embora as imagens geradas possam ser usadas pelo COR, o objetivo é que façam reconhecimento facial e identifiquem veículos suspeitos. A cidade também dispõe de uma ampla rede de radares usados para aplicar multas.

Investigação:

Ainda que não diretamente ligado ao trânsito, o projeto-piloto de um novo sistema de estacionamento nas vias públicas entrou em operação sexta-feira na Lagoa Rodrigo de Freitas. O Rio Rotativo Digital acaba com os antiquados talões e o pagamento em dinheiro — e tudo passa a ser feito pelo aplicativo Jaé. A tecnologia já é usada em Niterói, Petrópolis, Volta Redonda e Búzios.