RJ em Foco
Contrato de R$ 14 milhões do DER-RJ previa vigilância armada, mas seguranças não usavam armas
Auditoria da nova gestão no estado constatou que nenhum vigilante atuava armado, apesar de o serviço ser contratado nessa modalidade, entre outras suspeitas
Um contrato de R$ 14 milhões por ano para vigilância armada na sede do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ), na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, e em 20 residências oficiais do órgão espalhadas pelo estado entrou na mira da nova gestão após uma auditoria apontar uma série de inconsistências. Embora o serviço seja contratado como vigilância armada — modalidade mais cara —, a inspeção constatou que nenhum dos vigilantes trabalha com armas. Os auditores também verificaram que a própria sede da autarquia sequer possui cofre para armazenar armamentos, estrutura indispensável para esse tipo de serviço.
Fim dos flanelinhas?
Vídeo:
O contrato é um dos que estão sendo revisados pela corregedoria criada pela nova administração do DER, formada por servidores de carreira, engenheiros da Defesa Civil estadual e policiais militares oriundos da Corregedoria Interna da PM. Segundo a auditoria, os vigilantes prestam serviços tanto na sede do órgão quanto nas 20 residências oficiais mantidas pelo DER em diferentes regiões do estado. A ausência de armamento, porém, levanta dúvidas sobre a justificativa para o custo do contrato.
A revisão faz parte de um pente-fino determinado pela presidente do DER, coronel Gabryela Reis Dantas, que assumiu o comando da autarquia em junho. Além da análise dos contratos, a nova gestão afirma ter iniciado uma série de medidas para reduzir despesas, como a devolução de parte da frota alugada, o corte de celulares corporativos e a extinção de um cartão corporativo que tinha limite de R$ 20 mil e ficava à disposição de um ex-diretor.
Pode faltar água:
Além das suspeitas de benesses, a nova gestão do DER afirma ter encontrado um órgão sem recursos para manter a conservação básica das estradas estaduais. Apesar de o orçamento atual do departamento girar em torno de R$ 718 milhões, o caixa não seria suficiente para custear serviços como tapa-buracos e capina. Segundo a administração, processos para esse tipo de manutenção não são abertos há mais de três anos. Nos corredores do órgão, a avaliação é de que a gestão anterior deixou um "buraco sem fundo".
Em abril, seis deles foram classificados como emergenciais e dispensavam licitação prévia: três para intervenções em encostas de rodovias estaduais e outros três para obras de pavimentação na Região Metropolitana e no interior do estado. Na época, o órgão era presidido pelo engenheiro Pedro Henrique de Oliveira Ramos e vivia uma disputa política. Com a saída de Rodrigo Bacellar da presidência da Alerj e a ascensão de Guilherme Delaroli ao comando da Casa, a indicação de obras e de cargos no DER passou a ser atribuída ao novo presidente da Assembleia. Logo depois, o governador em exercício, Ricardo Couto, anunciou a devassa no órgão.
Cenário de abandono
O retrato encontrado nas rodovias estaduais pela nova gestão não foi nada animador. Vistorias realizadas por engenheiros de carreira do DER e da Defesa Civil estadual identificaram cerca de 40 intervenções consideradas emergenciais. Diante da falta de recursos, a equipe elegeu dez obras como prioridade por apresentarem "elevado grau de risco" e potencial de comprometer a segurança da população. A relação foi entregue nesta semana ao governador em exercício Ricardo Couto e depende da liberação de crédito suplementar para sair do papel.
Segundo os integrantes da auditoria, os técnicos adotaram dois critérios para definir a lista: o risco iminente de agravamento dos danos e o número de pessoas que poderiam ser afetadas em caso de colapso da estrutura ou de deslizamento, sobretudo em rodovias de grande circulação.
No topo da relação está o Viaduto de Alcântara, na RJ-104, em São Gonçalo. Em documento do Sistema Eletrônico de Informações (SEI), o próprio DER registrou, ainda em setembro de 2024, que a estrutura apresentava "péssimo estado de conservação", com deterioração severa dos guarda-corpos, desplacamento do concreto e corrosão das armaduras. A vistoria também apontou infiltrações na parte inferior do viaduto, com armaduras expostas e risco de curto-circuito devido às instalações elétricas e de iluminação do terminal rodoviário que funciona sob a estrutura. Dois anos depois, segundo a nova inspeção, a situação permanece praticamente inalterada. A recuperação do viaduto está estimada em R$ 38,3 milhões.
Dos dez pontos considerados mais críticos, seis já têm orçamento estimado e somam R$ 155,7 milhões em investimentos. Entre eles estão trechos das rodovias RJ-135, em Rio das Flores, com erosões de bordo e risco de interdição; RJ-142, entre Nova Friburgo e Casimiro de Abreu, onde erosões já ocupam meia pista em seis trechos; RJ-125, em Japeri, com contenções comprometidas e risco de deslizamento; RJ-155, entre Angra dos Reis e Rio Claro; RJ-186, entre Santo Antônio de Pádua e Minas Gerais; e o Viaduto de Santa Rita, na RJ-111, em Nova Iguaçu, também com comprometimento estrutural. Outras três intervenções ainda não têm orçamento definido.
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