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Em oito meses, cinco deputados viram alvos de operações; lista do bicheiro Adilsinho com 61 políticos apreendida pela PF põe Alerj em estado de alerta

Parlamentares temem novas fases das investigações; ministro Gilmar Mendes afirmou, em abril, que ao menos "32 deputados da Casa recebiam mesada do jogo do bicho"

Agência O Globo - 17/07/2026
Em oito meses, cinco deputados viram alvos de operações; lista do bicheiro Adilsinho com 61 políticos apreendida pela PF põe Alerj em estado de alerta
Gilmar Mendes - Foto: Reprodução / Agência Brasil

A declaração do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de que um diretor-geral da Polícia Federal lhe relatou que entre 32 e 34 deputados da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) voltou a provocar apreensão entre parlamentares após a sucessão de operações da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio contra integrantes da Casa. A fala, feita em abril deste ano durante julgamento sobre as regras para a sucessão do governo do estado, ganhou ainda mais peso depois que a Polícia Federal apreendeu, na Operação Unha e Carne, uma planilha atribuída ao contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, com os nomes de 61 políticos fluminenses e registros de movimentações superiores a R$ 20 milhões. O documento é investigado por suspeita de caixa dois e financiamento ilegal de campanhas por meio do jogo do bicho.

O avanço das investigações levou cinco deputados estaduais — entre atuais e ex-parlamentares — a se tornarem alvos de operações policiais em apenas oito meses. Nos bastidores do Palácio Tiradentes, o temor é de que o conteúdo da contabilidade do bicho resulte em novas medidas de busca ou prisões, justamente no momento em que os partidos começam a homologar suas candidaturas nas convenções eleitorais.

A fala de Gilmar Mendes ocorreu no dia 9 de abril, em sessão que debatia o modelo de eleição para a chefia do Executivo fluminense. Os deputados reagiram ao comentário do ministro à época.

O ambiente de tensão tem alterado, inclusive, a rotina da Assembleia. Mesmo durante o recesso parlamentar, muitos deputados continuaram frequentando os gabinetes para acelerar negociações políticas e discutir possíveis impactos das investigações. O receio é de que novas operações sejam deflagradas antes das convenções partidárias.

O clima de instabilidade paralisou, até, as articulações para a escolha do novo conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Após a oficialização, no dia 9 de julho, da vacância da cadeira de Domingos Brazão — condenado a 76 anos de prisão por ser apontado como um dos mandantes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes — deputados chegaram a discutir a realização da eleição ainda durante o recesso. A possibilidade, no entanto, foi deixada de lado diante da expectativa de novos desdobramentos das investigações e possíveis prisões.

Além do receio de novas batidas policiais nos gabinetes, a Alerj patina para encontrar um nome de consenso que passe pelo crivo da reputação ilibada. Diante do impasse, a saída foi buscar alternativas fora do parlamento estadual: entraram no radar os nomes do prefeito de Itaboraí, Marcelo Delaroli (PL) — irmão do deputado Guilherme Delaroli (PL) —, e do deputado federal Hugo Leal (PSD), ligado a aliados ao ex-prefeito do Rio Eduardo Paes. Mas a ideia de "terceirizar" a vaga bate de frente com a resistência de uma ala que faz questão de manter a cadeira no quintal da Alerj, um acordo que se tornou difícil de costurar em meio ao clima de desconfiança geral.

A crise na Alerj começou a ganhar força em setembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Zargun contra o então deputado estadual TH Joias (MDB), apontado como o principal braço político do Comando Vermelho. Durante o cumprimento dos mandados, investigadores identificaram indícios de que a operação havia sido vazada. Segundo a PF, TH Joias chegou a mobilizar um caminhão de mudança para retirar pertences de imóveis que seriam alvo das buscas. A investigação sobre o vazamento levou ao então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil).

Conversas obtidas pela Polícia Federal indicaram que Bacellar teria orientado TH Joias sobre a operação na véspera das buscas. As suspeitas deram origem, em dezembro de 2025, à primeira fase da Operação Unha e Carne. Bacellar foi preso por suspeita de obstrução de investigação, teve celulares e outros dispositivos eletrônicos apreendidos e posteriormente foi transferido para um presídio federal em Brasília. Além do suposto vazamento, ele passou a ser investigado por suspeitas de ligações financeiras com o grupo do contraventor Adilsinho e pelo suposto uso de celular na prisão.

A prisão teve impacto imediato na política fluminense. Pré-candidato ao governo do estado e principal nome do grupo político do então governador Cláudio Castro, Bacellar chegou a manter um esboço de secretariado para assumir o Palácio Guanabara caso Castro renunciasse.

Mesmo sem Bacellar, Cláudio Castro deixou o cargo em março deste ano, ao renunciar um dia antes de ser condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no processo sobre o esquema dos cargos secretos da Fundação Ceperj e da Uerj. O grupo político passou então a apostar no deputado Douglas Ruas (PL), eleito presidente da Assembleia em abril e alçado à condição de principal nome do grupo para disputar o governo do estado.

Em maio, a quarta fase da Operação Unha e Carne levou à prisão do deputado Thiago Rangel (Avante), apontado pela Polícia Federal como líder de um esquema de desvios de recursos da Secretaria Estadual de Educação no Noroeste Fluminense. Segundo a investigação, mensagens e áudios mostram o parlamentar negociando nomeações para cargos públicos com o traficante Junior do Beco, apontado pelas forças de segurança como chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) em Campos dos Goytacazes. A PF também atribui ao deputado participação em um esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis.

Em junho, o deputado Val Ceasa (PRD) tornou-se alvo de operação do Ministério Público do Rio. Segundo a investigação, ele teria atuado para favorecer interesses do traficante Peixão, principal líder do TCP, tentando impedir a demolição de um imóvel conhecido como "resort do crime", construído dentro do Complexo de Israel, na Zona Norte. Durante as buscas, promotores apreenderam cerca de R$ 341 mil em dinheiro vivo em endereços ligados ao parlamentar.

Somente neste mês, quatro parlamentares ou familiares de deputados passaram a integrar investigações. No dia 2, a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Unha e Carne para apurar ligações entre políticos e o grupo do bicheiro Adilsinho. Entre os presos estava o empresário e pastor Márcio Poncio, pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade), investigado por suposta ligação com a máfia dos cigarros atribuída ao contraventor. Posteriormente, ele obteve autorização para cumprir prisão domiciliar.

Cinco dias depois, a sexta fase da operação levou à prisão em flagrante do ex-deputado e ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil), durante buscas relacionadas a uma investigação sobre um esquema de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis que teria movimentado R$ 7,6 bilhões. Embora fosse alvo apenas de mandados de busca e apreensão, policiais encontraram um fuzil em seu veículo, o que resultou na prisão por porte ilegal de arma de uso restrito. Ele foi solto três dias depois. A operação também teve entre os alvos o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim.

O episódio mais recente ocorreu nesta quinta-feira, quando o deputado Rafael Nobre (União Brasil) foi denunciado pelo Ministério Público por participação em um esquema de fraudes em 45 contratos de licitação de prefeituras da Baixada Fluminense, envolvendo serviços de merenda escolar e alimentação hospitalar. Segundo os promotores, os contratos somavam cerca de R$ 357 milhões. O parlamentar também foi alvo de mandados de busca e apreensão cumpridos em seu gabinete na Alerj e em endereços ligados a ele.

Investigação deputado Rafael Nobre (União): Denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) por organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraude em licitações. Detalhes: Foi alvo de busca e apreensão em julho de 2026. As investigações apontam que ele e seu irmão, o vereador Magrão Nobre, controlavam um grupo de empresas para fraudar contratos de merenda e alimentação hospitalar com as prefeituras de Magé e Japeri. O esquema é estimado em R$ 350 milhões. A defesa do deputado nega as acusações e afirma que provará sua inocência.

Investigação deputado Val Ceasa (PRD): Alvo de busca e apreensão pela Polícia Civil e MPRJ em junho de 2026. As investigações apontam indícios de que o parlamentar teria favorecido interesses da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP) em sua base eleitoral. Ele também é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro para o tráfico de drogas. Foram encontrados e apreendidos cerca de R$ 316 mil em dinheiro vivo em seus endereços durante busca e apreensão.

Investigação deputado Thiago Rangel (Avante): Preso em uma operação da Polícia Federal. Foi alvo de apurações da Polícia Federal sobre desvios milionários e um esquema de corrupção envolvendo obras superfaturadas na área da educação no Noroeste Fluminense e de desviar verbas de gabinete na Alerj, lavando o dinheiro ilegal por meio de uma rede própria com mais de 20 postos de combustíveis. As investigações apontam que o parlamentar negociava a nomeação de cargos públicos com o traficante Junior do Beco, chefe do TCP em Campos, além da foto de uma mala no celular do deputado contendo entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão em espécie.

Investigação ex-deputado e presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União): Alvo da Operação Unha e Carne, teve seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e foi preso pela PF em março de 2026. Ex-presidente da Alerj, foi acusado de vazar informações sigilosas da Operação Zargun — que visava prender o deputado TH Joias que tinha ligações com o tráfico de drogas e o Comando Vermelho — permitindo a destruição de provas. Ele também foi condenado por abuso de poder político e econômico. Sua defesa buscou reverter as decisões judiciais.

Investigação deputado TH Joias (PL): Alvo da Operação Zargun, deflagrada pela Polícia Federal. O deputado foi apontado nas investigações como o principal braço político da facção criminosa Comando Vermelho no estado. As investigações da PF apontam que ele movimentou cerca de R$ 9 milhões em dinheiro vivo para o tráfico, com movimentações financeiras totais que superariam R$ 120 milhões.