RJ em Foco
Choque de ordem na praia: operação Tolerância Zero começa nesta sexta no Rio
Ação terá 160 agentes em pontos estratégicos da orla para organizar o comércio ambulante e reforçar a fiscalização
Na noite do último dia 6, uma segunda-feira, as duas bicicletas paradas no Costão do Leme chamavam a atenção. Os ciclistas abriram, cada um, uma valise parecida com uma caixa de ferramentas. Nos compartimentos, nada de martelos ou alicates. Havia maconha, cocaína e comprimidos. Drogas são oferecidas sem cerimônia diante da falta de repressão. O tráfico acontecia a cerca de cem metros de um carro da Polícia Militar estacionado sobre o calçadão, colado à escadaria que dá acesso ao Caminho dos Pescadores Ted Boy Marino — nome oficial da via à beira-mar.
No dia seguinte, o prefeito Eduardo Cavaliere anunciou uma política permanente de “tolerância zero”, justamente para o combate à desordem urbana na orla — incluindo a venda de drogas — do Leme ao Leblon. O programa, com início previsto para a 0h de hoje, levará 160 agentes a pontos estratégicos, para ordenar as atividades de comércio ambulante na orla. Esse efetivo permanecerá nas ruas 24 horas, dia a dia. O plano prevê 69 pontos de monitoramento.
Protesto na Atlântica
O desafio não é pequeno. Ontem, cerca de 300 vendedores se concentraram diante do Hotel Copacabana Palace e percorreram a Avenida Atlântica em direção ao Leblon. Duas pistas da via próxima aos prédios foram ocupadas pelos manifestantes, que carregavam faixas contra a medida anunciada pela prefeitura e batiam panelas. À noite, a balbúrdia foi festiva: o calçadão de Copacabana foi tomado por argentinos que comemoravam a vitória da seleção de seu país na Copa do Mundo e a presença garantida na grande final. Em meio à multidão, se destacavam carrocinhas e guarda-sóis que, em geral, abrigam ambulantes clandestinos atrás de clientela.
O programa da prefeitura foi adotado em meio a repetidas reclamações sobre o caos na orla, que inclui caixas de som nas alturas durante a madrugada, ocupação irregular do calçadão e expansão do comércio clandestino.
A julgar pelo flagrante de tráfico do último dia 6, o policiamento, sozinho, pode não ser a solução: deve ser acompanhado por atenção efetiva aos cantinhos da orla mais improváveis. O presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, defende a fiscalização permanente, além de um trabalho de inteligência para identificar os locais onde ambulantes guardam seus carrinhos e mercadorias.
— Temos conhecimento da venda de entorpecentes na orla e no calçadão. A mim mesmo já foram oferecidos por supostos camelôs, três vezes, em uma breve caminhada pelo calçadão. O Tolerância Zero pode contribuir muito ao ordenar o espaço público, separando o joio do trigo, o regular do irregular — disse Horácio.
O comércio ilegal cerca barracas e quiosques licenciados, o que confunde turistas e cariocas. Também há risco embutido na venda de bebidas de origem duvidosa. A ocupação dos espaços destinados aos pedestres resulta em bagunça e pode provocar acidentes — carrocinhas de milho-verde com água fervente e churrasquinhos na brasa oferecem perigo evidente, por exemplo.
De acordo com a apresentação da prefeitura feita na semana passada, no anúncio do programa de Tolerância Zero, existem 22 depósitos clandestinos utilizados para dar suporte ao comércio irregular na orla. Segundo o levantamento feito pelo município, essa estrutura movimenta cerca de R$ 100 milhões por ano com aluguel de pontos de venda, depósitos e equipamentos. Estima-se, ainda, que 20% dos ambulantes irregulares sejam estrangeiros.
O novo programa prevê atuação ininterrupta, 24 horas por dia. Os pontos de controle buscam impedir a instalação de carrinhos, estruturas improvisadas e o abastecimento de mercadorias destinadas ao comércio ilegal.
Outra estratégia é o patrulhamento ostensivo, que buscará a apreensão de mercadorias sem comprovação de origem, além do combate aos depósitos clandestinos.
Como parte da estratégia do programa, a prefeitura publicou um decreto desapropriando dois imóveis que serão destinados exclusivamente aos ambulantes regularizados. Os prédios ficam na Rua Teixeira de Melo, 95, em Ipanema, e na Rua Miguel Lemos, 76, em Copacabana. Segundo Cavaliere, ambos estão desocupados e passarão a funcionar como depósitos públicos para equipamentos e mercadorias dos trabalhadores autorizados.
Agentes infiltrados
Em reportagens sobre a desordem na orla, o EXTRA mostrou que houve uma quebra do “pacto de não agressão” entre facções criminosas na disputa pela orla do Leme e de Copacabana.
A Secretaria estadual de Segurança Pública, que está dando apoio à Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop), cuida da investigação dos casos de tráfico de drogas e das rixas entre os grupos rivais na praia. Levantamento feito pelos policiais aponta também a atuação de duplas de traficantes oferecendo, principalmente, maconha e skank. Os investigadores estão atuando infiltrados, filmando a atuação dos criminosos com auxílio de drones e câmeras escondidas, a fim de identificá-los e fundamentar os inquéritos.
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