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Além do abrigo: como o primeiro emprego constrói a autonomia de jovens acolhidos no Rio

No Dia Mundial das Habilidades dos Jovens, parcerias entre o TJRJ e o setor privado abrem portas para o mercado e rompem ciclos de vulnerabilidade de jovens que estão em abrigos na cidade

Agência O Globo - 14/07/2026
Além do abrigo: como o primeiro emprego constrói a autonomia de jovens acolhidos no Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Para adolescentes que moram em abrigos, a conquista de um emprego representa muito mais que uma renda: é a possibilidade de um futuro diferente, em que suas vidas não são definidas pelas dificuldades, mas pela potência de tudo o que podem conquistar. Para conscientizar a sociedade sobre a importância de preparar a juventude para a vida adulta com educação de qualidade e capacitação profissional, a Organização das Nações Unidas instituiu o Dia Mundial das Habilidades dos Jovens, realizado nesta quarta-feira, 15 de julho.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) abraça esta proposta para promover parcerias entre o setor público e o privado. Para isso, o órgão criou a Comissão de Articulação de Programas Sociais (Coaps), responsável por inserir jovens institucionalizados por medidas protetivas ou socioeducativas em cursos de capacitação e no mercado de trabalho, por meio do programa Jovem Aprendiz .

Ema Vitória Alves, de 19 anos, é um reflexo dessa transformação e teve o primeiro contato com o mercado de trabalho por meio da Coaps.

— Eu perdi a minha mãe aos dois anos de idade e, um tempo depois, fui acolhida. Desde criança, tinha o sonho de ter a minha própria casa e sabia que precisaria dela quando chegasse à maioridade. Então, quando comecei a trabalhar como Jovem Aprendiz , juntava tudo o que ganhava até conseguir comprar uma pequena casa no bairro em que eu criei — orgulha-se de ser um jovem, reconhecido pela equipe pelo comprometimento no trabalho.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento de abril de 2026, há mais de 36 mil menores de idade institucionalizados no Brasil. Uma pequena parte é direcionada para adoção; a maioria, cerca de 80%, está nos abrigos por outros motivos, sendo o principal deles o cumprimento de medida protetiva — aplicada quando a integridade física, psicológica ou a própria vida da criança ou do adolescente corre risco.

A Unidade de Reinserção Social Angélica Goulart, em Del Castilho, na Zona Norte, é um dos equipamentos públicos destinados a receber adolescentes sob medida protetiva no Rio de Janeiro. Desde a reinauguração, em 2024, 47 meninos já passaram pelo local, que atualmente acolhe 12.

— Quando um adolescente completa 17 anos e não tem perspectiva de ser reintegrado à família extensa ou ser adotado, a equipe técnica inicia o processo de desenvolvimento da autonomia dele — explica a juíza titular da Vara da Infância, Juventude e Idoso de Teresópolis, Vania Mara Gonçalves .

Caio *, um dos abrigados na unidade, trabalha como Jovem Aprendiz na Comlurb e planeja os próximos passos.

— Trabalho na área de logística há alguns meses e fiz um curso na Firjan. No meu dia a dia, mapeio as ruas por onde o caminhão de coleta vai passar. Achei a tarefa legal porque comecei a conhecer mais a cidade. Um dia, gostaria de comprar uma casa bonita, pintada de azul-claro, com uma piscina, e ter um cachorro pitbull — projeta.

A vontade de conquistar o próprio espaço e ter independência financeira é um desejo comum entre eles.

— Os jovens daqui ficam muito ansiosos para participar do Jovem Aprendiz . Quando fazem 14 anos, é uma pedição danada — brinca a diretora da unidade, Elisabeth Oliveira . — Eles têm o desejo de construir a própria vida e veem no programa uma oportunidade real. Ensinamos sobre a importância da responsabilidade no trabalho, de administrar os recursos e de desenvolver autonomia e autocuidado.

Para a juíza titular da 1ª Vara da Infância e Juventude Protetiva da Capital, Lysia Maria Mesquita , o ingresso em cursos de qualificação e no mercado formal tem impacto imediato na autoestima dos menores.

— O adolescente coletado geralmente tem uma autoestima baixa por não ter uma trajetória social estável ou por ter uma escolaridade defasada. No entanto, quando são escolhidos para exercer uma função, o olhar deles sobre si muda. Eles gostam de ser reconhecidos pelo trabalho e de serem remunerados. Isso faz com que reconheçam o próprio potencial — avalie a magistrada.

Gestor do programa Jovem Aprendiz da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde — que desde 2023 já recebeu 14 adolescentes direcionados pela Coaps —, Leandro Alves comprova o valor da iniciativa no dia a dia.

— Buscamos dar propósito ao programa, dando destinos a eles através da empregabilidade e do senso de pertencimento social. É gratificante proporcionar essa transformação profissional e de vida. A principal mudança observada é a ampliação de perspectivas e o acesso a um ambiente que eles antes achavam inacessível — destaques.

Além de abrir portas para o mercado de trabalho, os programas de aprendizagem e de qualificação direcionados a adolescentes em Recepção atuam como ferramenta de ruptura de ciclos de exclusão social, promovendo um caminho digno e seguro para as novas gerações.

*O nome do adolescente foi alterado para preservar sua identidade, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).