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Pesquisadores protestam contra desativação de alojamento estudantil da Fiocruz em Jacarepaguá

Plano prevê retirada gradual de cerca de 30 estudantes e substituição da moradia por auxílio mensal de R$ 800, com acompanhamento da instituição

Agência O Globo - 13/07/2026
Pesquisadores protestam contra desativação de alojamento estudantil da Fiocruz em Jacarepaguá
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) irá desativar o alojamento estudantil do Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF) , em Jacarepaguá, devido ao agravamento da violência urbana armada na região. Segundo a instituição, uma medida foi adotada após o monitoramento da evolução do cenário de insegurança no entorno do alojamento, onde vivem 35 estudantes de programas de pós-graduação de diferentes unidades da Fiocruz. No entanto, os beneficiários mobilizaram-se para que a moradia seja mantida.

Em nota, a Fundação afirma que ao longo dos últimos meses "tem acompanhado o agravamento do cenário de violência urbana armada no território onde está localizado o alojamento" e que "considerando a evolução desse cenário e o consequente aumento do risco à vida e à integridade física dos cerca de 30 estudantes atualmente residentes no alojamento, vinculados a programas de pós-graduação de diferentes Unidades da Fiocruz, foi instaurado um plano de desocupação gradual do alojamento estudado".

Como alternativa à moradia no alojamento, a Fiocruz concederá um auxílio financeiro mensal de R$ 800 para custear a moradia dos estudantes que tiverem que deixar o local. O benefício terá duração inicial de 12 meses e poderá ser prorrogado por igual período, desde que persistam as condições que motivaram a medida e a matrícula ativa do estudante.

Segundo a Fiocruz, o processo de desocupação será realizado de forma gradual, com acolhimento, espaços de escuta e orientação aos estudantes, garantindo a continuidade das atividades acadêmicas.

A instituição também informou que o Conselho Deliberativo da Fiocruz acompanhará a melhoria da medida e a evolução do cenário de segurança que levou à adoção do plano.

Os estudantes protestam

O alojamento abriga estudantes de mestrado, doutorado e especialização em áreas como epidemiologia, biologia e comunicação e saúde. Eles são provenientes de várias partes do Brasil, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste, assim como de países da África e América do Sul, incluindo Chile, Colômbia, Guiné-Bissau e Moçambique. Muitos deles foram ouvidos pela GLOBO e reclamaram que a decisão foi "unilateral e repentina", pegando os moradores "de surpresa" e deixando-os preocupados com o futuro de suas pesquisas. Discordam da solução do auxílio moradia, alegando que não é suficiente para se manter na cidade. A principal exigência é que o alojamento seja suspenso e que possa continuar a viver em comunidade, mesmo que em outra região.

Os estudantes relatam que a medida segue após tentativas de solicitar melhorias na infraestrutura e segurança do espaço. Uma das sugestões foi a construção de um muro que dá acesso à mata nos fundos do terreno, ou que torna o local vulnerável a invasões. No dia 2 de junho, a Fiocruz enviou um e-mail convocando para uma reunião remota, realizada na segunda-feira passada, dia 6, quando foi comunicado o encerramento do alojamento.

Dois dias após a decisão, os estudantes enviaram uma carta à vice-presidência e aos setores de coordenação da Fundação solicitando a suspensão imediata da descontinuidade do alojamento estudantil "até serem discutidas e inovações alternativas viáveis, construídas de forma coletiva", segundo documento ao qual o GLOBO teve acesso. Na carta, os investigadores argumentaram que a decisão foi apresentar “sem consulta prévia aos estudantes” e que a medida “gerou sofrimento intenso, crises de ansiedade e pânico” entre os moradores.

"Entre nós, há estudantes negros, indígenas, LGBTQIAPN+ e membros de outros grupos historicamente sub-representados na educação superior. Nós não possuímos familiares ou qualquer rede de apoio no Rio de Janeiro e dependemos do alojamento para dar continuidade às nossas atividades acadêmicas e de pesquisa, não temos condições financeiras para custear moradia na cidade", diz um trecho da carta.

Na última sexta-feira, foi realizada uma nova reunião entre estudantes e a Fiocruz, que manteve a decisão. Segundo os pesquisadores, o encontro foi “acalorado” e sem respostas concretas aos questionamentos. Ao final, afirmam, representantes da instituição disseram que iriam organizar o plano de saída gradual, que ainda não tem dados definidos para começar.

— O alojamento fica próximo de comunidades, e escutamos muitos tiros à noite. Também já recebemos comunicados de toque de coleta repassados ​​pelo WhatsApp. Ficamos perto do Morro Dois Irmãos, e, em alguns momentos, os confrontos se intensificam. Porém, a violência na região não é uma exclusividade de lá; é uma questão que afeta o Rio de Janeiro como um todo — afirma um dos estudantes, antes de desmentir rumores de que a milícia teria dado ordem para que deixassem o local: — Isso nunca aconteceu. Nunca recebemos ameaças de ninguém.

Contexto de violência na Zona Sudoeste

Historicamente dominada por grupos milicianos, a região de Curicica e da Grande Jacarepaguá tornou-se reduto de guerra de expansão do Comando Vermelho (CV) , que busca recuperar territórios. Como resposta, bandos milicianos, enfraquecidos por prisões e mortes de lideranças, têm alianças firmadas com a facção Terceiro Comando Puro (TCP) para tentar expulsar o CV de comunidades já dominadas.

O Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF) está localizado na Estrada de Curicica , uma das principais vias do bairro. No seu entorno, situam-se comunidades que são pontos centrais dos conflitos recentes, como Vila Sapê , recentemente dominada por CV e alvo de constantes tentativas de retomada por parte de milicianos; e Dois Irmãos, onde investigações indicam que uma área está dividida entre milicianos em aliança com o TCP e traficantes de CV.

Procurada, a Polícia Militar informa que o 18º BPM (Jacarepaguá) realiza ações planejadas e intensifica o policiamento na região, com base em análises da mancha criminal e levantamentos de inteligência. Destaca que o patrulhamento é feito com viaturas, motopatrulhas e policiais militares pelo Regime Adicional de Serviço (RAS) , com o objetivo de ampliar a presença policial, prevenir delitos e fortalecer a segurança da população.

Esforços de adaptação

Devido ao crescente contexto de insegurança, a Fiocruz, com 126 anos de história na produção de vacinas e soros, tem se destacado não apenas pela ciência, mas pelo esforço em se adaptar à violência armada do Rio. A desocupação do alojamento é apenas uma das medidas recentes. A sede da instituição fica na Avenida Brasil, 4.365, no bairro de Manguinhos , Zona Norte da cidade, cercada por comunidades dominadas por facções. A instituição já foi acuada em meio a confrontos armados diversas vezes.

Com 800 mil metros quadrados, o Campus Manguinhos-Maré está localizado entre Maguinhos, dominado pelo CV, e a Vila do João, que integra o Complexo da Maré e é controlado pelo TCP.

Em janeiro de 2025, por exemplo, durante uma operação da Polícia Civil contra roubos de cargas no Complexo de Manguinhos, um projeto atingiu uma janela de uma unidade e uma funcionária foi ferida por estilhaços. Agentes chegaram a ingressar na área do campus em busca de criminosos em fuga.

A recorrência de tais situações levou a instituição, naquele mesmo mês, a fortalecer um protocolo de segurança para evacuar os mais de 200 prédios do campus em caso de confrontos armados, envolvendo proteção de funcionários, estudantes e usuários contra balas perdidas.

Na última ocorrência, em novembro de 2025, a Fiocruz precisou ativar o protocolo e restringir a circulação interna durante uma operação policial com intenso tiroteio no Complexo da Maré. Na ocasião, uma criança de 12 anos foi baleada dentro de uma escola, e uma sala da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi atingida por um tiro.