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Mulheres relatam deformações após harmonização de glúteos; responsável por clínica está foragida

Segundo vítimas, Ana Paula Lima de Souza Mariano fazia promessas de 'bumbum perfeito' e 'cintura definida'

Agência O Globo - 12/07/2026
Mulheres relatam deformações após harmonização de glúteos; responsável por clínica está foragida
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

“O que tem no meu corpo?”. A resposta talvez aliviasse parte da angústia que acompanha Juliana da Silva Ribeiro, de 30 anos, desde que se submeteu a uma harmonização de glúteos — procedimento estético que promete remodelar a região — em uma clínica de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Mais de três meses depois, ela ainda convive com dores, internações constantes, vê o corpo expulsar um líquido de origem desconhecida e assiste, impotente, ao agravamento da deformidade.

Juliana é uma das 22 mulheres que denunciaram uma clínica comandada por Ana Paula Lima de Souza Mariano, foragida desde junho e alvo de uma investigação da Delegacia do Consumidor (Decon). O GLOBO ouviu nove vítimas, que relatam histórias semelhantes: promessas de “bumbum perfeito” ou “cintura definida” que terminaram em sequências físicas e marcas profundas na autoestima.

— Antes fosse só nossa autoestima. São graves problemas de saúde. Meu glúteo é todo duro, cheio de buracos e com partes pretas. Dói até para sentar — desabafou Juliana.

A principal linha de investigação da Polícia Civil é que a clínica tenha utilizado polimetilmetacrilato (PMMA), cujo uso para fins estéticos não é permitido pela Anvisa. Outra possibilidade é a contaminação cruzada durante os procedimentos. A composição do material aplicado, no entanto, ainda depende dos laudos periciais determinados pela Justiça.

— Tem mulher que não denuncia por vergonha; outras ainda têm esperança de conseguir resolver o problema. Houve até quem foi indenizado no início. Mas, quando Ana Paula enfrenta a dimensão do problema, desapareceu — afirma o delegado Wellington Vieira, titular da Decon.

Secreção não para sair

Mesmo foragida, Ana Paula — que não tem formação na área de saúde — continua com perfis comerciais ativos nas redes sociais. Em um deles, com cerca de 16 mil seguidores, destaca seus 14 anos de atuação na área, dez premiações nacionais e internacionais e fotografias de viagens profissionais para Portugal, França e Itália.

Hoje, Juliana carrega sempre olhar e soro fisiológico na bolsa para conter a desordem que ainda sai dos glúteos:

— Produto subiu, foi parar perto da cintura. Ela destruiu meu sonho, e a gente nem sabe o que colocaram dentro da gente.

Outra paciente, a aposentada Normélia Areias, de 70 anos, também diz que percebeu que algo estava errado ainda durante o procedimento, que durou três horas.

— Eu chorava de dor o tempo todo. Ela só dizia: “Calma, vai passar”. Quando acabei, precisei amarrar minha sandália e vestir meu short porque eu não tinha força. Nem consegui sentar no banco do carro para ir embora, fiz o caminho inteiro de quatro — contorno.

A recuperação nunca aconteceu. Ela passou quase um mês sem conseguir, teve febre, desenvolveu uma infecção e, depois de passar mal na delegacia onde fez uma denúncia, foi levada ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde passou por uma cirurgia para coleta de amostras para biópsia.

— Meu glúteo está pior do que era antes. Surgiu um buraco, e uma parte suportou como uma pedra. Ela levou meu dinheiro e me deixou doente — desabafou uma idosa.

Outra vítima é Edilaine Leandro, de 37 anos. Ela ainda fazia tratamento contra um câncer de colo do útero quando decidiu parcelar em 17 vezes o procedimento que corrigiria sua depressão trocantérica — o afundamento nas laterais do quadril. Antes, informou à dona da clínica que havia passado por quimioterapia e concluiu que os produtos seriam apenas “ácido hialurônico e bioestimulador de colágeno”, tudo “biocompatível”, sem risco de efeitos colaterais. Ao fim da aplicação, Edilaine mal conseguiu ficar em pé. Minutos depois, desmaiou dentro da clínica.

— Ela disse que a culpa foi minha, por falta de comida, mas era mentira — disse Edilaine.

Hoje, com oito quilos a menos, exames apontam concentração e anemia por infecção. Uma médica da rede pública manifestou suspeita de necrose na região do glúteo do paciente.

— Eu só queria concordar aquele fundamento que aparecia quando eu colocava um vestido. Ela teve a oportunidade de parar quando as primeiras mulheres começaram a mostrar problemas, mas não fez — lamentou Edilaine.

Thamires Moraes, de 31 anos, que também realizou o procedimento, disse que vê logo nos primeiros dias pequenas “feridas” na região:

— Ana Paula disse que era culpa minha porque eu não aguentei fazer a massagem após o procedimento. A bunda era um sonho para mim. Trabalhei muito para juntar dinheiro. Moro de aluguel. Meu bumbum ficou com vários caroços duros.

Um mês de internação

Clara Veloso, de 55 anos, tem história semelhante: vomitou por 12 horas seguidas e ficou internada por 30 dias.

— Era uma vontade muito grande, porque não tenho bunda grande e sempre quis. Ela dizia que jamais colocaria no meu corpo algo que não fosse seguro. Quando tudo deu errado, disse que a culpa era minha. Saía pus o tempo todo. Teve um dia que troquei de roupa umas 20 vezes porque a palavra vazava até no chão. A minha bunda virou uma pedra. A gente não sabe o que está aqui dentro — disse Clara.

Em maio, policiais da Decon, agentes da 64ª DP (São João de Meriti), equipes da Vigilância Sanitária municipal e um perito do Instituto de Criminalística Carlos Éboli realizaram uma fiscalização na clínica, que acabou interditada. Alessandra Jesus de Oliveira Lago foi presa em flagrante e permanece no Instituto Penal Djanira Dolores de Oliveira, em Bangu. A defesa de Alessandra afirma que ela apenas acompanhava e aprendia as técnicas.

— Alessandra estava fazendo um curso de auxiliar de enfermagem, mas era assistente de Ana Paula — disse o delegado.

Durante a fiscalização, os agentes apreenderam um carimbo em nome da biomédica Thalyta Ferrari Canedo Nascimento, apontada como responsável técnica da clínica. Em depoimento à Decon, ela afirmou que não trabalhou no local e que Ana Paula utilizou seu carimbo sem autorização. O delegado Wellington Vieira informou que investigava se Thalyta atuava na clínica.

A Justiça determinou perícia nas substâncias apreendidas na clínica e autorizou a quebra do sigilo dos celulares recolhidos na operação. O Ministério Público denunciou Ana Paula e Alessandra por associação criminosa, exercício ilegal da medicina, crime contra a saúde pública, crime contra as relações de consumo e propaganda enganosa.

A Decon também investiga uma clínica na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, interditada na última quinta-feira pela Vigilância Sanitária. Dois pacientes denunciaram que pagaram por sessões de endolaser — técnica utilizada para reduzir gordura localizada e estimular a produção de colágeno — mas foram submetidas, sem autorização, a uma lipoaspiração, procedimento cirúrgico que só pode ser realizado em ambiente hospitalar.

O delegado Wellington Vieira indiciou a biomédica Luciana Santos, responsável pela clínica, por exercício ilegal da profissão, lesão corporal, associação criminosa e crime contra as relações de consumo. As duas denunciantes são comissárias de bordo, de 51 e 54 anos, moradoras da Barra da Tijuca, que preferem não se identificar.

Garrafa PET

A primeira conta que já havia feito uma sessão de endolaser em outra clínica e sabia como seria o procedimento: pequenas incisões e uma microcânula por onde passa a fibra óptica do laser. Por isso, estranhou logo nos primeiros minutos.

— Ela começou a introduzir uma cânula enorme na minha barriga, fazendo movimentos repetitivos para quebrar a gordura. Depois aspirava tudo e colocava numa garrafa PET cortada. O chão ficou cheio de sangue, com olhares jogados. Na hora achei estranho, mas só depois descobri que aquilo não era endolaser. Era uma lipoaspiração. Se eu soubesse, jamais teria feito — contorno.

Ela pagou R$ 10 mil pelo tratamento, que incluiu sessões posteriores e acompanhamento. Segundo o paciente, o procedimento durou cerca de cinco horas. Ao terminar, foi liberado para voltar para casa direção.

— Na manhã seguinte, acordei assustado. Minha cama estava completamente ensangüentada. Achei que fosse normal porque ela dizia que tudo aquilo fazia parte da recuperação.

O que veio depois, segundo ela, foi uma sucessão de promessas de que o resultado apareceria com o tempo. Meses se passaram. O contorno abdominal não melhorou. Pelo contrário. Ela desenvolveu flacidez, irregularidades na pele e uma ferida que necrosou.

Barriga flácida

A outra comissária afirma que passou a desconfiar da clínica quando viu que estagiárias de Biomedicina realizavam parte dos atendimentos:

— Uma delas queria fazer uma sessão em mim. Eu não sinto confiança nenhuma. Meu umbigo ficou torto. Minha barriga ficou mais flácida do que era antes.

Em nota, a defesa da biomédica Luciana Santos afirmou que foi questionada com a fiscalização da Vigilância Sanitária que resultou na interdição da clínica e sustentou que o estabelecimento segue as normas sanitárias e tem todas as licenças e autorizações solicitadas pelos órgãos competentes.

O delegado Wellington Vieira faz um apelo para que outras mulheres que tenham apresentado reclamações procurem a Decon.